Em uma manhã de junho, há 20 anos, o entomologista Mark Moffett, do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian (Estados Unidos), estava tomando café nos fundos de uma cabana na comunidade de Portal, Arizona, quando notou algo estranho.
No chão, enquanto Moffett observava, formigas-ceifeiras-vermelhas (Pogonomyrmex barbatus) saíam de seus ninhos. Algumas delas aparentavam estar congeladas em uma posição muito estranha. Observadas mais de perto, elas pareciam se aproximar das entradas dos ninhos de uma espécie de formiga muito menor (Dorymyrmex medeis) e esperar ali.
O entomologista viu as pequenas formigas subirem nas maiores. Elas lambiam e mordiscavam os outros insetos. O comportamento lembrou Moffett dos peixes limpadores, que limpam outras espécies de peixes. Ele pegou sua câmera e documentou a interação.
Moffett deixou as fotografias de lado por duas décadas, achando que precisava de mais dados para entendê-las. Mas recentemente, após revisá-las, percebeu que “tinha a história completa nas imagens”.
As descobertas do pesquisador, que descreveu uma parceria singular entre as duas espécies de formigas, foram publicadas no dia 13 deste mês na revista Ecology and Evolution.
“É uma observação bastante única”, afirmou o biólogo Daniel Kronauer, da Universidade Rockefeller (EUA), que estuda sociedades de formigas e não participou da pesquisa. Ele disse ser um grande fã de pequenas observações de história natural como essa, que podem direcionar pesquisas para novos rumos.
Para entender o que estava acontecendo entre as duas espécies, Moffett registrou pelo menos 90 interações ao longo de cinco dias. A atividade seguia um ritmo: começava ao nascer do sol, atingia o pico antes do meio da manhã e então diminuía antes do calor do meio-dia no deserto. Uma formiga P. barbatus se aproximava da entrada de um ninho da formiga D. medeis e adotava uma postura rígida e característica —pernas estendidas, mandíbulas abertas— e esperava. Geralmente em menos de um minuto, uma D. medeis subia para lamber e mordiscar.
Às vezes, até cinco espécimes de D. medeis subiam em uma única P. barbatus ao mesmo tempo.
As formigas P. barbatus pareciam tolerar a ação por até cinco minutos, “nunca revidando com mordidas”, escreveu Moffett no estudo. A interação terminava quando a formiga D. medeis parecia irritar a P. barbatus, momento em que era sacudida para longe violentamente.
O que mais surpreendeu Moffett foi a “coreografia” detalhada de todo o processo. Por conta própria, as formigas P. barbatus limpam umas às outras em seus ninhos para remover detritos, contaminantes e parasitas. “Então, qual seria a vantagem de adicionar uma assistente?”, escreveu ele no estudo.
Talvez, ele se perguntou, as formigas D. medeis estivessem esfregando cantos de difícil acesso. Para entender melhor o que essas formigas menores poderiam estar fazendo, Moffett começou a se corresponder com especialistas que estudavam interações semelhantes entre outras espécies.
Alguns cientistas propuseram que as formigas D. medeis obtinham um benefício nutricional —um lanche saudável. Outros sugeriram que elas estavam trocando feromônios, ou sinais químicos, com as formigas P. barbatus para pacificá-las e facilitar a interação.
Um dos cientistas com quem Moffett se correspondeu foi a ecologista marinha Alexandra Grutter, da Universidade de Queensland (Austrália), que estuda peixes limpadores há três décadas.
Para ela, o comportamento das formigas lembrava “estações de limpeza”, onde peixes “clientes” permanecem parados enquanto outros peixes ou camarões inspecionam ou limpam seu corpo. Algum tipo de comunicação provavelmente também estava acontecendo entre as formigas, segundo ela.
Devido às informações limitadas no estudo de Moffett, Grutter afirmou ser difícil determinar os benefícios para qualquer uma das espécies de formigas. Uma hipótese que ela propôs foi a de que as formigas estavam trocando microrganismos valiosos, criando um microbioma mais saudável para as formigas D. medeis ou para ambas as espécies.
“O que me surpreendeu foi a interação íntima entre essa formiga enorme com essas mandíbulas gigantescas e essa formiguinha minúscula se movendo delicadamente entre as partes da boca, parecendo destemida ali dentro”, disse Grutter.
Fonte ==> Folha SP – TEC