Psicanalista Roseli D Morais discute a distância entre reconhecer padrões e conseguir construir novas respostas diante de situações que se repetem
Há momentos em que uma pessoa consegue descrever com precisão aquilo que lhe faz mal. Sabe por que permanece em determinadas relações, reconhece comportamentos que se repetem, identifica inseguranças antigas e até percebe quando está prestes a tomar uma decisão semelhante às que já lhe trouxeram sofrimento.
Ainda assim, saber nem sempre impede a repetição.
A distância entre reconhecer um padrão e conseguir responder de maneira diferente a ele é uma das questões investigadas pela psicanalista, pesquisadora e escritora Roseli D Morais, autora do livro “O Consciente Transcendental”.
Para a pesquisadora, compreender a própria história é parte importante do processo, mas não encerra necessariamente o trabalho de transformação.
“É possível ter muita clareza sobre aquilo que se repete na nossa vida e, mesmo assim, continuar respondendo de formas conhecidas. A compreensão é fundamental, mas existe um percurso entre reconhecer e conseguir sustentar uma nova posição”, explica Roseli.
Quando a consciência não basta
A experiência é comum em diferentes áreas da vida. Uma pessoa pode reconhecer que costuma ceder para evitar conflitos e continuar fazendo isso. Pode perceber que procura relações semelhantes às anteriores e repetir escolhas. Ou identificar hábitos que prejudicam sua rotina sem conseguir modificá-los de maneira duradoura.
É justamente esse intervalo — entre aquilo que o indivíduo já consegue perceber e aquilo que efetivamente consegue transformar — que ocupa parte da produção intelectual de Roseli.
Em “O Consciente Transcendental”, a autora sistematiza uma formulação que procura ampliar a investigação sobre os processos posteriores à identificação e à elaboração de conflitos psíquicos.
A proposta dialoga com conceitos históricos da psicanálise e incorpora à discussão temas como linguagem, consciência e neuroplasticidade, sem apresentar a mudança humana como um processo imediato ou linear.
“O reconhecimento pode explicar por que determinada resposta foi construída. Outra questão é o que fazemos quando aquela resposta já não atende à vida que temos hoje”, afirma.
Entre repetir e construir uma resposta nova
Na formulação desenvolvida por Roseli, a mudança não estaria simplesmente na tentativa de apagar experiências anteriores, mas na possibilidade de construir outras formas de se posicionar diante delas.
A autora também desenvolve a chamada Travessia Transcendental, método organizado em etapas que incluem acesso, elaboração, ressignificação, integração e transformação.
O conceito integra sua produção intelectual e se relaciona às atividades de formação profissional desenvolvidas pelo Instituto Roseli D Morais, fundado pela psicanalista. O Instituto mantém cursos voltados à psicanálise e à saúde mental, incluindo formação em Psicanálise Didata Transcendental.
Para Roseli, a proposta não é estabelecer uma fórmula universal para a mudança, mas investigar por que processos de transformação podem permanecer difíceis mesmo depois que determinadas questões se tornam conscientes.
Uma trajetória dedicada ao comportamento humano
Roseli D Morais é psicanalista, pesquisadora, escritora e palestrante, além de fundadora do Instituto Roseli D Morais. Sua trajetória reúne atuação nas áreas de Educação, Saúde e Assistência Social e formação ligada à pedagogia, psicopedagogia e diferentes abordagens psicanalíticas.
Há mais de 12 anos, o instituto que leva seu nome atua na formação de profissionais e no desenvolvimento de atividades relacionadas à saúde mental e ao desenvolvimento humano.
Roseli é autora de “O Consciente Transcendental”, “Domine o Seu Futuro” e “Reinventando a Ansiedade”, além de “A Linguagem Oculta do Comportamento”.
Seu trabalho procura aproximar diferentes campos de investigação para discutir uma pergunta que atravessa tanto a clínica quanto situações cotidianas: se reconhecer um padrão é o primeiro passo, o que permite que uma pessoa deixe de apenas compreendê-lo e consiga, de fato, construir outra maneira de responder à própria história?