Instituto Butantan e Science Museum de Londres planejam exposição conjunta sobre a dengue

Instituto Butantan e Science Museum de Londres planejam exposição conjunta sobre a dengue

Elton Alisson, de Londres | Agência FAPESP – A ciência produzida pelo Instituto Butantan está prestes a cruzar o Atlântico para ganhar projeção global nos corredores de um dos museus mais prestigiados do mundo. Durante a FAPESP Week Londres, realizada entre os dias 2 e 4 de junho, representantes da instituição paulista e do Museu de Ciências (Science Museum) britânico, em Londres, anunciaram o início de conversas para o desenvolvimento de uma exposição compartilhada sobre a dengue.

“A ideia é fazer uma exposição conjunta ou, pelo menos, ter um conteúdo sobre a dengue produzido pelo Butantan aqui no museu. Já estamos pensando em algumas galerias e estamos empenhados em inserir o quanto antes em nossa programação”, revelou à Agência FAPESP Giovana Zocoli, gerente de engajamento global do Science Museum e responsável pelas colaborações da instituição com a América Latina. A previsão é que a exposição ocorra em 2027 ou 2028.

O projeto ganhou contornos estratégicos ao reconhecer que a dengue não é mais um problema exclusivo de regiões tropicais, como sublinhou Erika Hingst Zaher, diretora do Museu Biológico do Instituto Butantan, em sua apresentação na FAPESP Week Londres.

“A mudança climática está espalhando a doença para o norte e o design de uma exposição compartilhada permite ao público de Londres e de São Paulo conectar-se simultaneamente a esse debate”, comentou. Segundo Zaher, o objetivo é que a mostra funcione como um “instrumento de ação”, abordando a doença sob diferentes aspectos, entre eles social, climático e geopolítico.

“As instituições de patrimônio não são apenas espaços de preservação, também podem ser instrumentos de ação”, avaliou.

Novos modelos expositivos

O anúncio da parceria ocorre em momento de profunda transformação no Instituto Butantan, sublinhou Zaher. Dois dos seis museus da instituição estão em renovação. O Museu Biológico passará este ano por uma reestruturação da infraestrutura técnica e dos espaços de exposição, que ganharão ambientes imersivos, conforme o esboço de um projeto feito pela arquiteta Lina Bo Bardi nos anos 1960.

O novo design das exposições também permitirá que os visitantes possam entrar e explorar os espaços de várias maneiras, sem mediação guiada. Os animais em exibição serão apresentados em seu contexto ecológico, e não como espécimes isolados.

“Estamos nos afastando da perspectiva de zoológico e caminhando mais em direção à de museu”, afirmou Zaher.

Paralelamente, o Museu de Saúde Pública também passa por uma ampliação de seu edifício original – a antiga Estação Central de Desinfecção de São Paulo. O novo espaço abrigará uma exposição sobre a história da saúde pública no Estado de São Paulo, complementando a coleção existente do museu.

Em abril deste ano, o Butantan também inaugurou uma exposição sobre o bioma Caatinga que, juntamente com a da dengue, é emblemática das mudanças que estão ocorrendo no programa de engajamento público da instituição.

“O que estamos fazendo no Centro de Desenvolvimento Cultural do Butantan é uma tentativa de demonstrar, na prática, como uma instituição de patrimônio pode evoluir para enfrentar desafios emergentes na interseção entre ciência, saúde e sociedade, em um cenário de mudança climática, com o rigor do centro de pesquisa e a abertura de um espaço público”, avaliou.

Não só diversão

A diretora de engajamento global do Science Museum, Helen Jones, defendeu em sua apresentação que a busca pelo entretenimento não deve ser a única missão dos museus de ciência e que eles não devem fugir de temas sérios, como a dengue, na tentativa de atrair mais público.

“Diversão é algo que centros e museus de ciência conseguem fazer muito bem. Somos espaços sociais, onde as pessoas querem vir e passar seu tempo livre, e queremos que elas venham. Mas não é tudo o que fazemos”, disse.

“Meu coração aperta um pouco quando ouço repetidamente que é preciso tornar a ciência divertida se quisermos torná-la interessante para quem não é cientista. As pessoas estão dispostas a enfrentar temas difíceis por meio da literatura e do cinema, das artes cênicas e visuais. Assumir que o público não consegue lidar com temas difíceis nos museus de ciência é injusto com ele. As pessoas vêm a museus para uma experiência enriquecedora e se divertir é apenas parte dessa história”, avaliou Jones.

Algumas das experiências recentes do museu de ciências britânico com temas mais áridos foram uma exposição sobre o câncer, em parceria com o Cancer Research UK, e outra sobre a pandemia de COVID-19, batizada “Injetando esperança – a corrida pela vacina”.

“Nenhum de nós vai se lembrar da pandemia de COVID-19 com carinho. Mas museus são repositórios de memória e a pandemia foi um momento muito significativo de nossa história. Por isso, nossos curadores iniciaram cedo um projeto para coletar evidências materiais da crise sanitária – desde equipamentos de laboratório até desenhos infantis”, contou.

Recentemente, o museu de ciências londrino promoveu uma exposição dos fotodocumentaristas brasileiros Lalo de Almeida e Luciano Candisani, que mostrou a beleza e a biodiversidade do Pantanal brasileiro, mas, ao mesmo tempo, como o bioma está sendo devastado por incêndios cada vez mais frequentes e extensos, agravados pelas mudanças climáticas. Um dos assuntos debatidos na concepção da exposição foi se deveriam ou não incluir imagens propositalmente perturbadoras, como a de animais incinerados pelo fogo, em razão de o museu ser muito frequentado por famílias.

“Uma das discussões era se deveríamos impor um limite de idade para a exposição. Mas decidimos confiar em nosso público e simplesmente colocamos uma mensagem de alerta no início; a exposição foi muito bem recebida e superou seu público-alvo”, contou Jones.

Estímulo à criatividade

Se a vocação dos museus de ciência é ser espaço de reflexão, a dos museus de arte pode ser a de estimular a criatividade, apontou Oliver Cox, chefe de parcerias de pesquisa no Victoria and Albert Museum (V&A), também situado em Londres.

De acordo com ele, hoje, no Reino Unido, observa-se uma redução notável na oferta de educação criativa que os estudantes recebem na universidade e no ensino escolar.

“Interagir visualmente com materiais ou coleções de arte está se tornando cada vez mais um luxo dentro do nosso sistema escolar financiado pelo Estado. Por isso, estamos muito interessados em formas de começar a preencher essa lacuna porque, como um museu de arte, acreditamos que o poder da criatividade pertence a todos”, afirmou.

Uma das iniciativas da instituição nesse sentido foi a criação recente do Young V&A, um museu interativo dedicado a crianças de até 12 anos localizado em Bethnal Green, no leste de Londres.

“Esse é o primeiro museu do Reino Unido dedicado à criatividade infantil. E o que buscamos abordar com ele é o problema da saída crescente das artes do currículo escolar em favor das disciplinas STEM [ciência, tecnologia, engenharia e matemática]”, disse Cox.

Já para os adultos, a novidade é o V&A East Storehouse, situado no leste de Londres, dentro do edifício Here East, no Parque Olímpico Rainha Elizabeth, em Strattford. Um das novas “joias da coroa” do museu, inaugurado em março de 2025, é o David Bowie Centre, que guarda um acervo de 90 mil itens do cantor britânico, falecido em 2016, incluindo letras manuscritas, como a de Ziggy Stardust, e figurinos usados pelo artista para o álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars.

“É uma reinvenção radical do que uma loja de coleções de museu pode ser. Levamos os visitantes direto para o coração de nossas coleções, em vez de olhar de fora para dentro”, disse Cox.

Mais informações sobre a FAPESP Week Londres em: fapesp.br/week/2026/london.

 



Fonte ==> Folha SP

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