Saúde
Além do tabagismo, obesidade e inflamação também são prejudiciais aos pulmões
Estudo com quase 900 adultos indica que, embora fumar ainda seja a principal condição de risco, os dois fatores aceleram o envelhecimento do órgão e aumentam o risco de desenvolver doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC)
Saúde
Além do tabagismo, obesidade e inflamação também são prejudiciais aos pulmões
Estudo com quase 900 adultos indica que, embora fumar ainda seja a principal condição de risco, os dois fatores aceleram o envelhecimento do órgão e aumentam o risco de desenvolver doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC)
Função pulmonar dos participantes foi medida em dois momentos: entre os 23 e 25 anos e, depois, entre os 37 e 38 anos (imagem: Freepik)
Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Um estudo brasileiro com quase 900 participantes, todos com menos de 40 anos, reforça a ideia de que o envelhecimento precoce dos pulmões não está ligado apenas ao tabagismo, mas também a fatores como a obesidade e a inflamação sistêmica. As duas condições podem, inclusive, ser associadas ao risco aumentado para o desenvolvimento da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
Conhecida como “doença do fumante”, a DPOC é uma condição irreversível, marcada por inflamação e espessamento das vias aéreas, que provoca falta de ar, dificuldade respiratória e outras limitações progressivas. Embora o cigarro continue sendo o principal fator de risco, o estudo infere que tanto a obesidade como a inflamação sistêmica podem sozinhas levar à deterioração pulmonar.
De acordo com os resultados do estudo, o tabagismo é o fator de maior impacto, associado a uma redução média de 1,95% da função pulmonar ao longo dos 12 anos analisados. Quanto à inflamação sistêmica, medida pelo nível de proteína C-reativa (PCR) no sangue, cada aumento de 1 mg/dL do marcador inflamatório correspondeu a um declínio de 0,76% da função pulmonar. Já nos casos de obesidade, cada aumento de 1 kg/m² no índice de massa corporal (IMC) resultou em uma perda adicional de 0,28% na função pulmonar.
Publicado na revista BMC Pulmonary Medicine e apoiado pela FAPESP, o estudo contribui para uma compreensão mais ampla dos diferentes caminhos que podem levar à perda da função pulmonar.
No trabalho, os pesquisadores incluíram 895 participantes da “Coorte de Nascimentos de Ribeirão Preto”, que acompanha indivíduos nascidos entre 1978 e 1979. A função pulmonar dos participantes foi medida em dois momentos: entre os 23 e 25 anos e, depois, entre os 37 e 38 anos.
“O achados reforçam o que estudos anteriores realizados com coortes menores já vinham apresentando: além dos efeitos do cigarro, processos metabólicos e inflamatórios sistêmicos podem desempenhar um papel importante na deterioração da função pulmonar, mesmo em indivíduos mais jovens e sem doenças respiratórias diagnosticadas”, afirma Elcio Oliveira Vianna, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) e coordenador do estudo.
Vianna explica que, de acordo com o estudo, a inflamação sistêmica oriunda de outros órgãos ou partes do corpo, como a inflamação dos adipócitos em casos de obesidade, pode interferir nos pulmões. “A inflamação sistêmica de baixo grau, já conhecida por aumentar o risco de doenças cardiovasculares, também atinge e danifica os pulmões. Esse bombardeio inflamatório constante, mesmo que sutil, como no caso da obesidade, contribui para a lesão do tecido pulmonar ao longo do tempo, podendo desencadear envelhecimento pulmonar precoce”, explica Vianna.
DPOC, doença multifatorial
Embora os participantes da coorte tivessem menos de 40 anos quando foram examinados e estejam, portanto, fora da faixa etária típica para o diagnóstico de DPOC, os pesquisadores observaram sinais precoces da doença. Isso permitiu inferir que tanto a obesidade quanto a inflamação sistêmica aumentam o risco de desenvolvimento da DPOC no futuro.
“A inflamação sistêmica tem impacto direto na função pulmonar e conseguimos demonstrar isso nesse estudo populacional. Como todos os participantes eram jovens, foi possível identificar indícios da doença antes mesmo de seu diagnóstico clínico”, afirma Vianna.
No entanto, ele ressalta que associar DPOC com obesidade não é algo comum. “Entre as decorrências da DPOC está a perda de apetite e o alto gasto calórico [perda de gordura e massa magra] por causa do esforço demandado para respirar. Portanto, como o paciente com DPOC geralmente é magro, não é comum que associem a doença à obesidade. Por isso, foi importante o nosso estudo conseguir demonstrar que a obesidade, assim como outras inflamações sistêmicas, pode desencadear a doença”, conta.
Para Ana Carolina Cunha, médica pneumologista e primeira autora do estudo, os resultados ajudam a ampliar a compreensão sobre a complexidade da DPOC. “A doença é multifatorial e muito mais complexa do que se pensava. Além da inflamação causada pelo cigarro, pode haver um processo inflamatório sistêmico próprio do indivíduo. Estudos anteriores já apontavam essa associação. Hoje sabemos que pacientes com DPOC apresentam inflamação crônica, o que levanta a hipótese de que esse processo possa ser um fator comum entre diferentes manifestações da doença, especialmente em pessoas com predisposição genética ou metabólica.”
O artigo Longitudinal study of the influence of obesity, C-reactive protein, and smoking on FEV1 decline in young adulthood pode ser lido em: bmcpulmmed.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12890-025-03913-5.
Fonte ==> Folha SP