“Sou adepto da hiperfagia episódica e da posterior redução da taxa metabólica basal”: aquela frase que poderia muito bem ser dita por quem comparece a uma churrascaria rodízio de vez em quando e tira um cochilo com a pança cheia depois –ou por crustáceos das profundezas que conseguem passar mais de cinco anos sem comer.
OK, sei que estou forçando um pouco a barra, mas o fato é que a precisão terminológica da ciência muitas vezes não passa de neologismos gregos aplicados a coisas corriqueiras. “Hiperfagia episódica” nada mais é que comer demais de vez em quando, afinal de contas. A única diferença é que os crustáceos a que me refiro, do gênero Bathynomus, levam isso a extremos que a imaginação de quem está acostumado a três refeições por dia tem dificuldade de conceber –em parte porque conseguiram se transformar em “transgênicos naturais”.
Detalhes dessa história impressionante saíram há pouco em artigo na revista científica Cell, assinado por pesquisadores do Iocas (Instituto de Oceanologia da Academia Chinesa de Ciências, na sigla inglesa). Liderados por Jianbo Yuan, os cientistas conseguiram identificar os mecanismos básicos do funcionamento do organismo dos bichos, essenciais para o sucesso de seu superjejum.
Os Bathynomus são isópodes, um grupo de crustáceos que costumava ser velho conhecido das crianças brasileiras com acesso a um quintal com terra –afinal, os chamados tatuzinhos-de-jardim, comuns nesses ambientes e famosos por se enrolarem em bolinhas quanto perturbados, também são isópodes.
No caso das espécies estudadas pelos cientistas chineses, porém, uma das principais características é o gigantismo. É preciso imaginar um tatuzinho do tamanho de uma lagosta e com carapaça e patas ameaçadoras –uma das espécies chegou até a ser batizada em homenagem a Darth Vader, o vilão de “Star Wars” (com o nome B. vader).
Habitando profundidades que ficam entre 300 m e 900 m, os bichos são essencialmente carniceiros e não acham comida com facilidade. Portanto, quando alguma refeição aparece, entopem-se o mais rápido possível, missão facilitada pelo tamanho do estômago, que ocupa dois terços de seu corpo. Depois disso, conseguem digerir o repasto com extrema lentidão e eficiência.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Mas como? É principalmente aí que entra o novo estudo. A equipe chinesa mostrou que o DNA da espécie inclui um gene “emprestado” de uma bactéria que vivia em simbiose com os crustáceos. O empréstimo se revelou tão útil que o gene passou por uma duplicação –aparecendo em duas cópias, portanto, no DNA dos bichos– e por processos que intensificam a sua ativação.
E isso porque, em temperaturas baixas (equivalentes às das águas profundas onde os “tatuzões” vivem), a atividade desse gene reduz drasticamente o consumo de energia no íntimo das células dos isópodes. Tanto é assim que, quando os pesquisadores inseriram o mesmo gene em “paulistinhas”, peixes ornamentais muito usados em laboratório, a tolerância à falta de comida neles aumentou em quase 40%.
É bem possível que a transgenia natural dos crustáceos não explique por completo seu talento para o jejum, mas tudo indica que se trata de uma parte importante do quebra-cabeças. Nada como um empurrãozinho da seleção natural para que a distinção entre o DNA de uma espécie e o de outra se revele muito menos rígida do que a gente costuma imaginar.
Fonte ==> Folha SP – TEC