Stanford: EUA e China vivem empate na corrida pela IA – 14/04/2026 – Economia

Dois homens em trajes formais conversam próximos um do outro contra fundo preto. O homem à esquerda usa terno azul escuro, camisa branca e gravata vermelha, enquanto o da direita veste terno azul escuro, camisa branca e gravata azul. Ambos exibem expressões faciais neutras.

A disputa entre Estados Unidos e China pela liderança em inteligência artificial aponta para um empate técnico, segundo a nova edição do AI Index, um dos principais estudos internacionais do setor, publicado anualmente pela Universidade Stanford.

Os dois países se alternaram na liderança diversas vezes ao longo do ano passado, e, em fevereiro de 2025, o modelo DeepSeek-R1 chegou a ultrapassar o modelo americano mais poderoso na ocasião.

Em março deste ano, quando termina a série, o principal modelo da Anthropic superava o desempenho dos chineses em apenas 2,7%. Importante dizer que o estudo sugere que pode haver um esgotamento das métricas de desempenho —os chamados “benchmarks”— conforme os modelos de IA evoluem.

Apesar dessa disputa palmo a palmo, o relatório de Stanford revela um cenário assimétrico quando se olham os dados com lupa.

Por um lado, os Estados Unidos ainda lideram na criação de sistemas de ponta e produziram 50 modelos de IA do tipo no ano passado, contra 30 da China (para se ter uma ideia, o terceiro lugar, a Coreia do Sul, vem longe atrás, com cinco no total).

Os americanos também estão à frente no volume de investimento privado em IA generativa, com US$ 286 bilhões, contra US$ 12 bilhões dos chineses, e superam com ampla vantagem mesmo que os investimentos europeus sejam somados ao bolo.

O relatório faz a ressalva de que os dados não levam em conta os recursos de fundos público-privados que o governo chinês usa para direcionar investimentos na área —essa ferramenta injetou US$ 184 bilhões em empresas do setor entre 2000 e 2023.

Por outro lado, a China é líder em outros critérios cruciais, como produção científica, número de patentes e implantação industrial dessa tecnologia —a aplicação da IA na produtividade pode, em tese, ser a prova dos nove na disputa entre as potências.

Os chineses foram responsáveis por 18% das publicações científicas nesse campo em 2024, contra 11% da Europa e 7% dos Estados Unidos. As publicações da China também foram as mais citadas por outros cientistas, mais de 20% desse total.

Um outro termômetro são as patentes. Enquanto o número de artigos ajuda a medir a produção científica, elas ajudam a vislumbrar a aplicação e desenvolvimento comercial das descobertas na área. E a China foi responsável por 74% das patentes globais, contra 12% dos Estados Unidos.

Essa é uma trajetória que se inverteu. Em 2015, para se ter uma ideia, os americanos eram os donos de 43% das patentes, enquanto os chineses ficavam abaixo de 20%.

Uma outra vantagem dos chineses está na IA para manufatura —ou seja, que é aplicada na fabricação de bens de consumo. O país continua a implementar mais robôs na indústria do que o resto do mundo inteiro somado, sendo responsável por 54% (295 mil no total) do total global em 2024, até onde vai a série.

Outros mercados importantes, como Alemanha, Japão e Estados Unidos, continuaram com números estáveis ou viram um declínio.

São números que indicam estratégias distintas dos dois países: enquanto os EUA dominam o desenvolvimento de sistemas comerciais avançados, a China segue apostando em escala industrial e produção científica massiva.

“A estratégia americana acredita que é possível criar a superinteligência e tenta desenvolver modelos que cheguem a esse ponto primeiro. Se você acredita nisso, quem chegar lá vai manter a liderança de forma perpétua”, diz Paulo Carvão, ex-executivo da IBM e pesquisador na Universidade Harvard.

“Já a China tem isso que chamam de política industrial, modelos abertos, custo baixo e uma tentativa de ocupar o mercado do resto do mundo, se tornando o padrão [para IA].”

Para Carvão, é preciso relativizar alguns dados em que os chineses lideram, como o número de publicações científicas e de patentes. No primeiro caso, ele aponta “uma crise de geração excessiva” de artigos na academia. E, no segundo, diz que, embora patentes sejam um indicador, não garantem sozinhas uma performance melhor no mercado.

“A área de difusão [da tecnologia] e aplicações é onde esse jogo vai se definir. Se você olha a IA embarcada, associada à robótica, a China tem uma vantagem por ser o berço da manufatura mundial. No momento, estamos nos 15 minutos do primeiro tempo, e a China está com mais posse de bola.”

IA se espalha mais rápido que a internet

O relatório de Stanford traz outros destaques além da disputa geopolítica. O AI Index mostra, por exemplo, que a inteligência artificial segue em difusão em um ritmo sem precedentes.

Ferramentas de IA já foram adotadas por 53% da população global em apenas três anos, um ritmo maior do que a própria internet e o computador pessoal —uma tendência que se reflete no faturamento das companhias do setor. Nas empresas, a adoção chegou a 88%, enquanto quatro em cada cinco estudantes universitários já utilizam ferramentas assim no dia a dia.

Instituições não conseguem acompanhar

A velocidade desse avanço, contudo, cria um descompasso entre o que a nova tecnologia pode fazer e a capacidade das instituições de acompanhá-la, apontam os pesquisadores de Stanford.

Com a rápida difusão da IA, por exemplo, as métricas de avaliação —os chamados “benchmarks”— vão se tornando insuficientes, com modelos que empatam nesses critérios, mas se comportam de modo diferente no mundo real. Além disso, a rapidez dificulta que os governos possam criar regulações no mesmo ritmo.

O cenário se agrava com uma diminuição da transparência por parte das empresas privadas, que criam 90% dos modelos de ponta. Se, no começo, o normal era que elas lançassem relatórios públicos sobre a arquitetura dos sistemas e dados de treinamento, hoje isso se tornou bem mais raro, levando o índice de transparência do relatório a cair de 58 para 40 no intervalo de um ano.

Dados de emprego

O levantamento também confirma uma tendência que já vinha sendo apontada por alguns analistas: nos Estados Unidos, as vagas de entrada para jovens no mercado de trabalho ficaram mais escassas onde a aplicação da IA está mais avançada.

Os estudos reunidos por Stanford, apontam, por exemplo ganhos de produtividade entre 14% e 26% em áreas como atendimento ao cliente e desenvolvimento de software. Ao mesmo tempo, os postos de trabalho para programadores tiveram uma queda de quase 20% entre 2024 e 2025. A demanda por profissionais mais experientes, por sua vez, seguiu em alta.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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