Projeto de contenção costeira prepara Nova Iorque para subida do mar

Projeto de contenção costeira prepara Nova Iorque para subida do mar

Em 29 de outubro de 2012, o furacão Sandy atingiu a cidade de Nova Iorque, provocando tempestades arrasadoras que inundaram casas, estações de metrô e túneis, interrompendo o fornecimento de energia e desencadeando incêndios fatais.

Em apenas 48 horas, 44 pessoas morreram, quase 2 milhões de nova-iorquinos ficaram sem eletricidade e 6,5 mil pacientes foram evacuados de hospitais e instituições de longa permanência. Naquele momento, a cidade prometeu que uma tragédia daquele porte nunca mais se repetiria.

Infraestrutura de resiliência

Porém, as mudanças climáticas trazem ameaças constantes para a cidade, com desastres cada vez mais extremos e com o avanço preocupante do nível do mar.

Nesse contexto, impedir uma crise como a deflagrada pelo furacão Sandy, significa a construção de uma ambiciosa infraestrutura de resiliência ao longo de toda a costa nova-iorquina.

A ONU News visitou uma das seções de um projeto multibilionário chamado Resiliência Costeira do Lado Leste, Escr.

UN News/ Daniel Dickinson
A comissária adjunta de Engenharia de Resiliência Costeira da cidade de Nova Iorque, Kathryn Prybylski.

5 km de defesa contra inundações na orla de Manhattan

Ao norte da Ponte Williamsburg, um guindaste branco retira cargas de aterro de uma barca e as despeja em máquinas de terraplenagem. Carga após carga, o East River Park está sendo elevado em até três metros.

O local representa um dos elos de uma cadeia de defesas contra inundações que se estende por mais de 5 km da orla de Manhattan. Concebido após o furacão Sandy inundar a área em 2012, o Projeto de Resiliência Costeira do Lado Leste e sua iniciativa complementar ao sul, foram projetados para proteger mais de 110 mil moradores. O valor investido no projeto é de cerca de US$ 2 bilhões,

O comissário-assistente do Departamento de Projetos e Construção da cidade, Bobby Issac, conta que toda a área do East River Park ficou submersa.

Além disso, pelo menos um andar dos conjuntos habitacionais públicos localizados atrás dele ficou debaixo d’água, impedindo os moradores de entrar ou sair dos edifícios.

O que está por baixo da superfície

Nesse trecho, a maior parte da proteção permanece invisível. Um muro contra enchentes atravessa discretamente o coração do parque reconstruído. Na beira da água, estacas preenchidas com concreto descem cerca de 30 metros em terrenos aterrados que podem esconder desde antigos píeres até restos de embarcações.

Issac explicou que “o que se vê na superfície representa apenas um terço do que foi construído”.

Quando uma tempestade se aproxima, nada no parque precisa ser movimentado. Em outros pontos da orla, equipes fecham 18 comportas contra enchentes por meio de mecanismos de giro ou deslizamento. 

Mais ao sul, quase 100 barreiras basculantes podem ser erguidas. Segundo ele, o projeto considera uma elevação futura do nível do mar de cerca de 76 centímetros.

Com aproximadamente 90% do sistema já concluído, barreiras temporárias podem ser instaladas em poucos dias para fechar eventuais lacunas até que as obras terminem, em 2027.

© NYCDDC
Equipamentos pesados ​​são utilizados na construção de defesas contra inundações ao longo do East River, na cidade de Nova York.

Prejuízos de US$ 19 bilhões

Além das vidas perdidas, o Sandy causou prejuízos de US$ 19 bilhões, recorda a comissária-assistente do Departamento de Resiliência Costeira da cidade de Nova Iorque, responsável pela operação dos novos muros e comportas.

Kathryn Prybylski, disse que “esses projetos que estão em construção atualmente pela cidade são, de certa forma, uma resposta ao Sandy”, mas com um olhar para o futuro.

O cenário mais amplo reforça a urgência da questão. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o ritmo de elevação do nível global do mar praticamente dobrou desde o início das medições por satélite, em 1993.

Além disso, o aquecimento dos oceanos alimenta tempestades tropicais cada vez mais intensas.

Ameaça da maré alta

Para uma cidade que possui 840 km de litoral, a ameaça não se resume à próxima supertempestade, mas também às marés do cotidiano. Sem medidas de proteção, alertou Prybylski, muitos nova-iorquinos enfrentarão inundações provocadas pelas marés de forma regular nas próximas décadas.

Segundo ela, isso pode significar “uma ou duas vezes por mês, ou até 10 vezes por mês em algumas localidades”.

A especialista acrescentou que, eventualmente, algumas ruas poderão ser inundadas diariamente durante a maré alta, alterando a forma como as pessoas se deslocam para o trabalho e levam seus filhos à escola.

© Adobe Stock/Solepsizm
Muitos bairros no sul de Manhattan foram inundados quando o furacão Sandy atingiu Nova York. (arquivo)

Megacidades sob risco

Nova Iorque é apenas uma das cidades que enfrentam essas ameaças.

Um relatório recente da ONU concluiu que quase 10% da população mundial, cerca de 770 milhões de pessoas, vive em áreas costeiras situadas a menos de cinco metros acima da maré alta. 

Toda essa massa populacional está altamente exposta aos riscos associados à elevação do nível do mar.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, advertiu que “megacidades em todos os continentes enfrentarão impactos graves” devido ao fenômeno, mencionando Nova Iorque entre elas.

Ameaça existencial

O representante do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, Navid Hanif, disse à ONU News, que o projeto de defesa contra inundações de Nova Iorque é “um passo digno de elogios e uma mensagem para todas as grandes cidades”.

Ele ressaltou que o que Nova Iorque está fazendo deve ser “reconhecido, valorizado e replicado em outras partes do mundo”.

É importante ressaltar que, embora a elevação do nível do mar represente principalmente uma ameaça à infraestrutura em cidades de alta renda, como Nova Iorque, Miami e Guangzhou, na China, ela também constitui uma ameaça existencial para comunidades de cidades de baixa altitude no Sul da Ásia, como Calcutá, Mumbai e Daca.

Mais de 14 milhões de pessoas na região correm o risco de perder suas casas devido à inundação permanente. Em nações como Fiji, Vanuatu, Ilhas Salomão e outras ilhas baixas do Pacífico comunidades inteiras já foram obrigadas a se deslocar.

© NYCDDC
Moradores locais desfrutam de uma seção recém-inaugurada do parque às margens do East River, na cidade de Nova York.

Declaração aprovada na ONU

A ONU, cuja sede fica a menos de 3 km ao norte do projeto Escr, é uma parceira ativa no apoio a iniciativas de mitigação e adaptação em todo o mundo.

Em uma reunião recente na sede da organização, os Estados-membros adotaram a Declaração das Nações Unidas sobre a Elevação do Nível do Mar, marcando a primeira vez em que todos os países concordaram com um texto comum sobre o tema.

A declaração defende, em especial, um financiamento mais previsível e acessível para ações de adaptação e fortalecimento da resiliência, sobretudo para pequenos Estados insulares e países menos desenvolvidos.

Resiliência aliada à qualidade de vida

O Projeto de Resiliência Costeira do Lado Leste de Nova Iorque oferece um vislumbre do que esses investimentos podem representar para as comunidades locais.

No East River Park, agora elevado, moradores e visitantes aproveitam as trilhas à beira do rio com vista para o horizonte do Brooklyn, além de áreas verdes bem cuidadas e espaços comunitários, incluindo campos esportivos, parques infantis e áreas para churrasco.

A norte-americana Liz, que é moradora da região, disse que adora o parque e frequenta duas vezes por dia. Para ela, o local é um “belo exemplo de como a resiliência climática pode ajudar as pessoas a desfrutarem melhor de suas vidas”.

* Charlotte Dawson e Mashael Shah são estagiárias da ONU News Inglês.



Fonte ==> Gazeta

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