Pesquisas questionam a existência do livre-arbítrio – 01/07/2026 – Ciência

A imagem apresenta uma representação digital de um cérebro, formado por uma rede de linhas e pontos luminosos em um fundo azul escuro. As conexões parecem simular a atividade neural, com algumas áreas mais iluminadas, sugerindo um fluxo de informações.

Você clicou para ler este artigo por vontade própria? Ou isso foi predeterminado pela evolução cósmica das partículas, que se desenrola em uma reação em cadeia ininterrupta desde o Big Bang? Talvez você ache que processos quânticos aleatórios ou a atividade cerebral inconsciente foram os responsáveis? Quer você tenha inclinação para a filosofia ou não, o tema do livre-arbítrio é algo sobre o qual a maioria de nós já refletiu em algum momento.

Pesquisas mostram que as pessoas tendem a acreditar no livre-arbítrio, pelo menos de alguma forma. Uma questão talvez mais importante é se isso realmente importa. Esse é exatamente o dilema que pesquisadores das áreas de psicologia e filosofia experimental vêm tentando resolver nos últimos tempos. O que aconteceria, em última instância, se as pessoas desistissem da ideia do livre-arbítrio?

Pode parecer uma ideia perigosa; algo que poderia resultar em caos e depressão. E, de fato, pesquisas têm constatado em grande parte que quando se manipula as pessoas para que duvidem do livre-arbítrio, coisas ruins acontecem —incluindo um aumento em comportamentos como trapaça e agressão. Isso sugere que, mesmo que o livre-arbítrio não exista, como muitos cientistas e filósofos supõem, talvez seja melhor para nós fingirmos que ele existe. Mas pesquisas mais recentes, realizadas por mim e por outros, sugerem que duvidar da existência do livre-arbítrio pode não ter consequências tão ruins afinal.

Os filósofos discutem há séculos sobre o que é o livre-arbítrio e se nós o possuímos. As posições variam amplamente, e é impossível abordar o assunto de forma completa aqui. Em um extremo do debate estão os libertários, que defendem que pelo menos algumas de nossas escolhas e ações não são causalmente determinadas. No outro extremo estão os deterministas radicais, que argumentam que todo pensamento, ação ou evento é resultado de eventos passados e das leis da natureza.

Quando as pessoas falam sobre a descrença no livre-arbítrio, o determinismo é geralmente a posição que vem à mente. No entanto, o determinismo é apenas uma das visões que rejeitam a noção de livre-arbítrio. Uma posição que surgiu mais recentemente é chamada de ceticismo em relação ao livre-arbítrio. Embora essa posição rejeite a ideia de que os seres humanos possuam livre-arbítrio genuíno (mas não necessariamente capacidade de agir), apenas alguns céticos a rejeitam por causa do determinismo, enquanto outros argumentam que o livre-arbítrio é impossível em um universo indeterminístico ou aleatório.

Mas, independentemente do grupo com o qual você se identifique, quais são as consequências reais de suas crenças? Antes de examinar algumas das questões relacionadas a experimentos recentes, vamos primeiro explorar como os pesquisadores começaram a manipular crenças.

Os benefícios de acreditar no livre-arbítrio

A primeira pesquisa a manipular experimentalmente as crenças no livre-arbítrio foi conduzida por Kathleen Vohs e Jonathan Schooler em 2008. Esse trabalho, que hoje é um artigo seminal na área, consistiu em dois experimentos. No primeiro, os pesquisadores pediram aos participantes que lessem um texto extraído do livro clássico de Francis Crick, A Hipótese Surpreendente (The Astonishing Hypothesis). Os participantes foram divididos em dois grupos: um leu uma versão contrária ao livre-arbítrio e o outro, uma versão neutra.

No grupo que foi manipulado para não acreditar no livre-arbítrio, o texto afirmava que o livre-arbítrio era ilusório e que o comportamento era impulsionado pela atividade cerebral inconsciente. Por exemplo, o texto incluía frases como “tudo o que as pessoas são e fazem é produto de processos físicos simples em seus cérebros” e “embora pareçamos ter livre-arbítrio, na verdade, nossas escolhas já foram predeterminadas para nós e não podemos mudar isso”. Na condição de controle, o texto não mencionava o livre-arbítrio e, em vez disso, discutia pesquisas sobre a consciência.

Após a leitura do texto, todos os participantes realizaram uma tarefa de cálculo mental no computador. Foi-lhes informado que uma “falha de programação” faria com que as soluções/respostas da tarefa —que deveriam ser resolvidas por eles mesmos— ficassem visíveis. Os participantes foram, portanto, incentivados a pressionar a barra de espaço, o que garantiria que as soluções permanecessem ocultas. Portanto, o fato de os participantes decidirem ou não manter as respostas ocultas foi usado como indicador de trapaça.

Os pesquisadores especularam que aqueles que lessem o texto contra o livre-arbítrio pressionariam a barra de espaço com menos frequência do que na condição de controle. E foi exatamente isso que eles descobriram. Para confirmar esses resultados, eles realizaram um segundo experimento com algumas pequenas alterações metodológicas. Esse segundo experimento basicamente chegou à mesma conclusão: os participantes levados a não acreditar no livre-arbítrio trapaceavam mais.

Este artigo levou a uma proliferação de estudos que buscavam examinar outros resultados associados às crenças no livre-arbítrio. Roy Baumeister e colegas investigaram a relação entre a crença no livre-arbítrio e comportamento agressivo. Após uma manipulação da crença no livre-arbítrio, os participantes realizaram uma tarefa de culinária e foram informados de que a pessoa para quem estavam preparando a comida não gostava de pratos apimentados. Portanto, a quantidade de molho picante adicionada pelo participante serviu como medida de agressividade.

Em consonância com a previsão dos pesquisadores, os participantes cuja crença no livre-arbítrio havia sido enfraquecida colocaram mais molho picante. Os pesquisadores, portanto, concluíram que a crença no livre-arbítrio está relacionada à agressividade. Dito isso, eles analisaram apenas as consequências diretas de fazer as pessoas duvidarem do livre-arbítrio, em vez de capturar o processo exato de pensamento que levou ao uso de mais molho de pimenta.

Outros estudos mostraram que os participantes manipulados a duvidar do livre-arbítrio eram preconceituosos, menos gratos, menos prestativos, alienados e sentiam menos sentido na vida. De fato, autonomia, autoeficácia, satisfação no trabalho, perseverança, realização e satisfação com a vida estavam todas associadas a uma crença mais forte no livre-arbítrio.

As consequências desse programa de pesquisa foram claras: se fizermos as pessoas deixarem de acreditar no livre-arbítrio, resultados negativos se seguirão. Consequentemente, mesmo que acreditemos que o livre-arbítrio seja uma ilusão, as pessoas devem ser protegidas dessa informação como sociedade. Mas há algumas questões relacionadas a esses estudos de manipulação e às conclusões catastróficas derivadas dessa linha de pesquisa.

Essas conclusões são prematuras?

Uma questão importante diz respeito às crenças que essas manipulações têm como alvo. Conforme mencionado anteriormente, existem muitos argumentos contra o livre-arbítrio, e cada um deles se alinha a uma posição filosófica diferente. Os textos fornecidos aos participantes geralmente apresentam afirmações relacionadas à inevitabilidade dos eventos, à natureza da ciência e ao papel da consciência.

Eles são um amálgama de posições filosóficas que têm suas próprias ramificações. Uma ideia comumente usada nas manipulações é a sugestão de que os pensamentos, desejos e vontades das pessoas são ineficazes —de que o cérebro se prepara para a ação antes que decidamos conscientemente fazer algo. Assim, quando você pega aquela barra de chocolate ao final de um dia difícil, isso não é resultado de uma escolha consciente —os processos cerebrais inconscientes são os únicos culpados.

Mas essa não é a única maneira de se pensar sobre a ausência de livre-arbítrio; e não é algo que um cético endossaria. Muitos céticos acreditam que pensamentos e desejos de fato influenciam o comportamento das pessoas, mas, o que é importante, os processos cognitivos que os sustentam (incluindo genética e experiências passadas) são determinados ou devidos ao acaso. Isso sugere que seu desejo estava em jogo quando você comeu aquela barra de chocolate —você pode ter autonomia sem ter um controle total, semelhante ao de Deus, que implique responsabilidade moral absoluta. Nessa visão, o livre-arbítrio é mais um conceito metafísico, enquanto a autonomia está presente nos acontecimentos do dia a dia.

Essa é uma diferença importante, mas sutil. Dizer às pessoas que seus pensamentos não têm influência sobre o que fazem pode levar a sentimentos de desmotivação, desilusão e alienação. Pode até levá-las a comportamentos imorais. Mas essas consequências provavelmente são resultado de argumentos exagerados e dramatizados que representam ameaças diretas à agência, e não de uma abordagem cética geral.

Suponha que as manipulações enfraqueçam a crença no livre-arbítrio, mas apenas de acordo com uma posição cética que mantenha alguma crença na agência. Isso ainda levaria a resultados dramáticos e abomináveis? Lembre-se de que os experimentos com a tarefa matemática, com o comportamento de trapaça representado pelo número de vezes que as teclas foram pressionadas ou não.

O máximo que se pode concluir desse experimento é que o enfraquecimento da crença no livre-arbítrio pode influenciar a trapaça em uma tarefa fictícia de cálculo mental. O estudo não encontrou uma relação entre a crença no livre-arbítrio e outras formas de engano socialmente mais relevantes, como fraude, infidelidade, desonestidade acadêmica e assim por diante. Supor que pessoas que trapaceiam em um experimento controlado em laboratório, que não tem consequências na vida real, também cometeriam essas outras formas de trapaça parece improvável.

Da mesma forma, o estudo sobre culinária mostrou que as crenças sobre o livre-arbítrio podem afetar a quantidade de molho picante que os participantes colocam em um ambiente de laboratório. É possível que a mesma manipulação também possa aumentar a hostilidade verbal ou o confronto, e talvez até mesmo a agressão ou condutas ameaçadoras. Essas conclusões, no entanto, permanecem totalmente especulativas —simplesmente não sabemos.

A título de argumentação, vamos supor que essas manipulações do livre-arbítrio realmente levem a coisas ruins na vida real. Ainda assim, podemos questionar o quão significativas são essas descobertas. Os pesquisadores falam muito sobre o “tamanho de efeito” de uma descoberta, o que basicamente nos diz a magnitude ou a dimensão do efeito. Um tamanho de efeito grande indica que uma descoberta tem significado prático, enquanto um efeito pequeno indica aplicação prática limitada. Obviamente, os pesquisadores buscam o primeiro.

Para ter uma ideia do tamanho de efeito na pesquisa sobre a crença no livre-arbítrio, um artigo de 2022 revisou estudos que aplicaram manipulações às crenças no livre-arbítrio. Ele constatou que essas manipulações tiveram um tamanho de efeito apenas pequeno. Além disso, mostrou que os efeitos mais fortes ocorreram logo após a manipulação, e não no final do experimento. Isso indica que os efeitos da manipulação podem não só desaparecer após o experimento, mas também diminuir ao longo da sessão experimental —afinal, não ficamos pensando constantemente se temos livre-arbítrio. Não só isso, mas a revisão constatou que as mudanças nas crenças no livre-arbítrio não resultaram em nenhuma alteração significativa e duradoura nos comportamentos.

Uma última questão diz respeito à replicação, ou seja, a confirmação de descobertas científicas em outros estudos. A replicação de uma descoberta é um dos princípios fundamentais da ciência. Repetir um experimento e obter consistentemente os mesmos resultados pode aumentar a confiança em relação a uma descoberta inicial. E uma crise de replicação recentemente assolou a psicologia.

Esse também é o caso das pesquisas sobre o livre-arbítrio. Por exemplo, alguns pesquisadores não conseguiram alterar a crença dos participantes no livre-arbítrio. Outros, apesar de terem conseguido alterar as crenças no livre-arbítrio, tiveram dificuldade em replicar as consequências. Por exemplo, um estudo não conseguiu replicar os resultados relativos à trapaça na tarefa matemática. Essas dificuldades questionam a credibilidade das descobertas originais e representam sérios desafios à suposição de que uma descrença no livre-arbítrio leva a consequências negativas.

A descrença pode ser positiva?

Vimos diferentes razões pelas quais pode ser prematuro que os pesquisadores concluam que a descrença no livre-arbítrio traz consequências negativas. Mas também podemos questionar se esses resultados negativos são de se esperar de qualquer maneira e se adotar uma posição cética pode, na verdade, trazer benefícios para a sociedade.

Uma visão é a de que as crenças sobre o livre-arbítrio não fazem diferença na forma como as pessoas pensam e se comportam. Pense no sentido da vida, algo que as pesquisas supostamente demonstraram ser enfraquecido pela descrença no livre-arbítrio. Imagine que o sentido da vida de uma pessoa esteja fortemente ligado à sua carreira. Essa pessoa nutre a ambição de se tornar advogada e, após anos de dedicação, finalmente alcança seu sonho. A crença de que ela não possuía livre-arbítrio afetaria o sentido de sua vida e a forma como ela percebe esse sucesso?

Não necessariamente. Ainda foi ela quem acordou cedo, chegou em casa tarde e dedicou horas aos estudos. O orgulho por sua conquista não se dissipa ao saber que não era ela quem controlava tudo. Ela pode ser grata por sua educação, pelos estudos que recebeu e pelo apoio da família. Ainda pode haver sentido e gratidão. As pessoas atribuem sentido a todo tipo de coisa —inteligência, aptidão atlética e beleza—, nenhuma das quais tem qualquer relação com o livre-arbítrio.

Além disso, realizei um estudo que analisou especificamente o sentido da vida entre pessoas com diversas visões sobre o livre-arbítrio. Um grupo leu uma passagem que negava o livre-arbítrio (uma manipulação tradicional para a descrença no livre-arbítrio); e um segundo grupo leu um texto neutro (uma condição de controle). Também tive um terceiro grupo que não recebeu nenhuma manipulação, mas foi selecionado por se identificar como cético em relação ao livre-arbítrio.

Todos os participantes relataram o quanto suas vidas eram significativas. Como era de se esperar, aqueles que foram manipulados a duvidar do livre-arbítrio demonstraram menor senso de significado do que o grupo de controle, o que corrobora estudos anteriores. Mas, o mais importante, o grupo cético apresentou o mesmo senso de significado e propósito que o grupo de controle.

Isso indica que, como sugerido anteriormente, as manipulações que alegam fazer as pessoas duvidarem do livre-arbítrio não estão agindo de acordo com uma perspectiva cética. Mais importante ainda, isso sugere que o sentido da vida das pessoas que adotam visões céticas não é afetado por sua posição filosófica.

Reforçando ainda mais essa ideia, um artigo de 2024 examinou exclusivamente as visões dos céticos em relação ao livre-arbítrio e constatou que 41% (de um total de 164) afirmaram que sua descrença não teve nenhum efeito em suas vidas. E as consequências mais relatadas foram, de fato, positivas, incluindo ter compaixão pelos outros, ser menos controlador e mais relaxado.

Isso significa que uma posição cética poderia, de fato, trazer benefícios para a sociedade? Uma das consequências mais debatidas das crenças no livre-arbítrio diz respeito à moralidade e à responsabilidade. No sistema jurídico atual, a punição retributiva baseia-se na suposição de que o criminoso era moralmente responsável por sua ação e agiu por seu próprio livre-arbítrio. Apoiando essa visão, pesquisas descobriram que participantes com uma crença mais forte no livre-arbítrio são, na verdade, menos empáticos em relação aos infratores, e aplicam sentenças mais severas. Mas se o livre-arbítrio não existir, pareceria excessivamente severo punir um indivíduo com base em um ato pelo qual ele não foi responsável.

Gregg Caruso e Derk Pereboom são proeminentes céticos do livre-arbítrio que questionam a moralidade das decisões punitivas. Eles sugerem que, em vez de punir as pessoas por serem moralmente responsáveis por suas ações, abordagens mais empáticas e não punitivas podem ser adotadas em consonância com as crenças céticas.

Por exemplo, seu modelo de quarentena busca isolar os infratores e proporcionar reabilitação até que eles não representem mais um risco para a sociedade —independentemente de seu nível de responsabilidade. Visto dessa forma, a descrença no livre-arbítrio poderia, potencialmente, reformular um sistema jurídico que está em desacordo com a visão de que o livre-arbítrio não existe.

Acreditar que as pessoas podem determinar livremente suas circunstâncias também pode levar a outros resultados prejudiciais, como desigualdades sociais, injustiça, falta de empatia, ódio e culpabilização das vítimas. Por exemplo, a crença no livre-arbítrio pode promover a ideia de que as pessoas pobres, de alguma forma, merecem suas condições abomináveis e vivem em situações criadas por elas mesmas. Essas percepções podem mudar se a noção de livre-arbítrio for abandonada. Como as pessoas não são moralmente responsáveis por suas próprias situações, poderia haver uma maior dose de compaixão e empatia para com os menos privilegiados. Portanto, poderia de fato haver resultados positivos em deixar de acreditar no livre-arbítrio.

Pesquisadores afirmam que fazer as pessoas deixarem de acreditar no livre-arbítrio pode ter consequências negativas dramáticas. A descrença no livre-arbítrio pode de fato levar a coisas ruins; no entanto, devido a várias questões metodológicas, é prematuro chegar a essa conclusão. Na verdade, pode-se descobrir que não acreditar no livre-arbítrio é, na verdade, algo positivo.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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