Pesquisa aponta estratégia de proteção do cacau amazônico contra a vassoura-de-bruxa

Pesquisa aponta estratégia de proteção do cacau amazônico contra a vassoura-de-bruxa

Agricultura sustentável

Pesquisa aponta estratégia de proteção do cacau amazônico contra a vassoura-de-bruxa

Escolha de cultivares capazes de manter o equilíbrio nutricional mesmo em solos desafiadores como os da Amazônia garante aumento de produtividade sem o uso excessivo de defensivos agrícolas

Agricultura sustentável

Pesquisa aponta estratégia de proteção do cacau amazônico contra a vassoura-de-bruxa

Escolha de cultivares capazes de manter o equilíbrio nutricional mesmo em solos desafiadores como os da Amazônia garante aumento de produtividade sem o uso excessivo de defensivos agrícolas

Como não é possível modificar o ambiente – o clima quente e úmido da Amazônia, que favorece a ação do fungo –, a solução é colocar em campo variedades com alta capacidade de adaptação, ressalta Renato de Mello Prado, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp (imagem: Thin Hoang Van/Pixabay)

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – A vassoura-de-bruxa (Moniliophthora perniciosa) é um fungo que dizimou lavouras de cacau no sul da Bahia nos anos 1990, foi tema de novela da Globo e continua sendo um problema para a cadeia produtiva do chocolate na Amazônia. Um estudo publicado na revista Scientific Reports mostra que é possível garantir aumento na produtividade sem depender tanto do uso de fungicidas e fertilizantes, desde que se escolham cultivares com a genética certa: mais resistentes ao fungo e capazes de manter o equilíbrio nutricional mesmo em solos desafiadores.

Conduzida na Estação Experimental Frederico Afonso (Ceplac), em Rondônia, a pesquisa avaliou 25 cultivares de cacau e identificou dois com desempenho superior. Ambos demonstraram maior capacidade de manter alta produtividade mesmo em solos pobres de minerais e sob ataque da vassoura‑de‑bruxa, que na região é conhecida como lagartão. O resultado foi um aumento de até 32% na produção em comparação a variedades mais suscetíveis ao fungo.

A investigação, apoiada pela FAPESP e liderada por pesquisadores da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), contou com a colaboração de grupos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) de Porto Velho, Universidade Federal de Rondônia (Unir, campus Rolim de Moura) e Universidade Federal do Amazonas (Ufam, campus Humaitá).

“Os resultados demonstram, na prática, que combinar melhoramento genético e manejo nutricional é a estratégia mais sustentável e perene para a produção de cacau. Como não é possível modificar o ambiente [o clima quente e úmido da Amazônia, que favorece a ação do fungo], a solução é colocar em campo variedades com alta capacidade de adaptação, fortalecidas por uma nutrição que garante vigor e resistência às plantas”, afirma Renato de Mello Prado, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Unesp, em Jaboticabal, que coordenou a pesquisa.

Entre os clones avaliados, dois se destacaram por combinar alta produtividade de sementes com maior equilíbrio nutricional e maior tolerância à vassoura-de-bruxa sob as condições climáticas da Amazônia: o EEOP 63 e o EEOP 65. Um clone, no contexto agrícola, é uma população de plantas geneticamente idênticas entre si, pois foram todas originadas de um único indivíduo (planta-matriz) exclusivamente por meio de reprodução assexuada (vegetativa).

Segundo os pesquisadores, é necessário investir em estudos semelhantes e mais amplos na região amazônica para a obtenção de novos clones que tenham as três características: alta eficiência nutricional, alta produtividade e resistência a doenças. “Isso é importante, pois só assim o produtor rural poderá ter diferentes opções de clones para cultivar em sua propriedade. E essa é uma estratégia essencial para enfrentar os desafios atuais da cultura do cacau de forma sustentável”, diz Prado.



Cogumelo de Moniliophtora perniciosa, o fungo que provoca a doença (imagem: ARS/USDA)

Dilema biológico

Tanto o cacau quanto o lagartão são originários da região amazônica e é no clima característico da floresta, de chuvas intensas e muito calor e umidade, que o fungo encontra o cenário propício para se desenvolver. Além disso, em algumas áreas da região, o solo tem desequilíbrio mineral, tornando-se ácido e com baixa proporção de nutrientes essenciais prontamente disponíveis para as raízes (como cálcio, magnésio e potássio), o que molda o desempenho das plantas.

“O estudo confirma que a tolerância à vassoura-de-bruxa na Amazônia não é uma característica isolada e pode ser modulada pelo equilíbrio nutricional e pela capacidade produtiva sob estresse de um cultivar”, explica Edilaine Istéfani Franklin Traspadini, bolsista de pós-doutorado da FAPESP e primeira autora do artigo.

O diferencial dos dois clones selecionados está na qualidade dos perfis minerais presentes nas plantas, especialmente as altas concentrações de fósforo, potássio, cálcio e magnésio.

“Diante de um ataque, a planta enfrenta um dilema biológico: depositar energia no crescimento ou na resistência ao patógeno. Quando recebe a nutrição adequada e tem a genética certa, consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo e supera essa limitação”, complementa Prado.

O solo amazônico

Outro aspecto determinante para o desempenho dos clones de cacau está relacionado às condições naturais dos solos amazônicos. Como ressalta Traspadini, eles são altamente intemperizados (sujeitos a processos severos de degradação física e química causados pelo excesso de chuvas) e naturalmente pobres em nutrientes. E isso impacta diretamente na saúde da planta.

Ao analisar o estado nutricional das plantas amostradas, os pesquisadores identificaram padrões claros de desequilíbrio, com destaque para o excesso de nitrogênio e a deficiência de boro. Traspadini alerta que o acúmulo de nitrogênio não metabolizado na planta gera compostos que funcionam como alimento para o fungo da vassoura-de-bruxa. Por outro lado, a falta de boro enfraquece a estrutura do cacaueiro.

“Observamos uma tendência consistente de deficiência desses elementos nos clones avaliados, especialmente de boro, que é fundamental tanto para a integridade das paredes celulares quanto para processos reprodutivos”, afirma a pesquisadora.

Diante desse cenário, o estudo demonstra que o equilíbrio nutricional não apenas reduz a vulnerabilidade à vassoura-de-bruxa, mas garante que a planta mantenha sua capacidade produtiva mesmo sob estresse. “Isso reforça a importância da adubação equilibrada, com atenção também aos micronutrientes, que muitas vezes são negligenciados, para sustentar a produtividade e a resistência”, destaca Traspadini. Com o manejo adequado, a planta não precisa escolher entre produzir ou se defender: “O equilíbrio nutricional fortalece o sistema de defesa, permitindo que crescimento e resistência ocorram simultaneamente, sem dependência excessiva de agroquímicos”, conclui.

O artigo Cacao clones modulate pod tolerance to witches’ broom and nutritional imbalances, enhancing cocoa production in the Amazon pode ser lido em: nature.com/articles/s41598-026-40483-w.

 



Fonte ==> Folha SP

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