Mudanças climáticas
Caverna no Paraná revela influência da Antártida e do El Niño em chuvas extremas no Sul do Brasil
Pesquisadores analisaram amostras de sedimentos preservados em estalagmites para reconstruir histórico de eventos climáticos na região. Século 20 concentra uma das maiores frequências de eventos extremos dos últimos 7,5 mil anos
Mudanças climáticas
Caverna no Paraná revela influência da Antártida e do El Niño em chuvas extremas no Sul do Brasil
Pesquisadores analisaram amostras de sedimentos preservados em estalagmites para reconstruir histórico de eventos climáticos na região. Século 20 concentra uma das maiores frequências de eventos extremos dos últimos 7,5 mil anos
Os cientistas analisaram estalagmites da Caverna do Malfazido, no município de Doutor Ulysses, região metropolitana de Curitiba (foto: Julio Cauhy)
Luciana Constantino | Agência FAPESP – Uma caverna no interior do Paraná guarda um “arquivo climático” que permitiu a pesquisadores brasileiros reconstruir a história das chuvas extremas na região Sul do Brasil nos últimos 7,5 mil anos. O resultado mostrou que a frequência desses eventos no século 20 figura entre as mais elevadas de toda a série histórica e apontou dois fatores que influenciam esse processo: a variabilidade climática no continente antártico e a ocorrência de El Niño – ambos presentes no cenário atual.
Os cientistas descobriram que períodos de verão com temperaturas mais baixas na Antártida Ocidental tendem a coincidir com mais eventos extremos no Sul do Brasil. A hipótese é que mudanças no gradiente térmico entre altas e médias latitudes (ou seja, entre as regiões polares, que são mais frias, e as zonas temperadas e subtropicais, mais quentes) alterem a circulação atmosférica, favorecendo a formação de frentes frias e o transporte de umidade da Amazônia para a região.
Nos últimos mil anos, também se nota uma relação significativa entre a frequência de chuvas extremas e episódios moderados ou fortes de El Niño – fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal e persistente das águas do oceano Pacífico Equatorial, que altera a circulação dos ventos e a distribuição de calor e umidade em todo o planeta.
Os achados ganham ainda mais relevância neste ano em função da alta probabilidade de ocorrência de um El Niño de intensidade moderada a forte nos próximos meses, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM, ligada à Organização das Nações Unidas). Os impactos serão sentidos no Brasil. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) divulgou nota técnica com alertas para a possível ocorrência de chuvas intensas e desastres hidrogeológicos na região centro-sul do Brasil, enquanto no restante do país a preocupação é com secas.
Arquivo natural
Motivados pela necessidade de compreender casos como as enchentes que devastaram mais de 470 municípios no Rio Grande do Sul em maio de 2024 (um ano de El Niño), os cientistas analisaram espeleotemas (estalagmites) da Caverna do Malfazido, localizada no município de Doutor Ulysses (região metropolitana de Curitiba). Desde 2019, eles fazem monitoramento constante das inundações no local.
Durante as cheias na caverna, sedimentos finos são depositados sobre as estalagmites – formações rochosas de origem mineral que crescem a partir do chão – e ficam preservados em camadas microscópicas dentro do carbonato, que continua crescendo no local. Uma das peculiaridades em Malfazido é o rápido crescimento dos espeleotemas, o que contribui para esse tipo de estudo.
As estalagmites foram datadas por meio de métodos isotópicos (que analisam a proporção de certos elementos químicos que funcionam como um “relógio natural” para calcular a idade das amostras), resultando na identificação de 921 dessas camadas de inundação. O método foi validado ao comparar parte delas ao que foi registrado em 2023, quando enchentes atingiram o rio Turvo, onde deságuam as águas da caverna, mostrando correspondência entre os resultados geológicos e os atuais.
Assim, essas camadas funcionaram como uma espécie de “arquivo natural”, permitindo estimar a frequência de eventos extremos ao longo de milênios. Os achados foram publicados em abril na revista Communications Earth & Environment.
“Até agora, todo o nosso conhecimento era limitado a séries instrumentais, que geralmente cobrem os últimos cem anos, no máximo, no Brasil. Havia, por exemplo, alguns registros de sedimentos em lagos, que têm problemas cronológicos, outros utilizando anéis de árvore, que são muito descontínuos. Os espeleotemas podem crescer de maneira contínua e rápida, como no caso da Caverna do Malfazido, produzindo um registro de alta resolução. Ou seja, é possível ter uma frequência interanual ou até anual da ocorrência dos eventos. Com isso, conseguimos produzir o primeiro registro de eventos extremos para um passado remoto”, resumiu à Agência FAPESP o geólogo Julio Cauhy, autor principal do artigo. Ele desenvolveu parte da pesquisa no Instituto Max Planck de Química e na Universidade Johannes Gutenberg Mainz, ambos na Alemanha.
Quando começou os estudos, há mais de sete anos, Cauhy cursava mestrado na Universidade de São Paulo (USP). Contou com a colaboração dos professores do Instituto de Geociências (IGc-USP) Nicolás Strikis e Francisco William da Cruz Júnior, que foi pesquisador responsável pelo Projeto Temático “Pire: Pesquisa e educação sobre o clima nas Américas usando exemplos de anéis de árvores e espeleotemas”, financiado pela FAPESP.

A sequência de barragens de calcário no interior da caverna é conhecida por “represas de travertinos” (foto: Julio Cauhy)
Da “lama” para a história
A pesquisa só foi possível porque a caverna apresenta condições particulares. Caracterizada por um conduto (uma espécie de “cano”) principal alimentado por um rio subterrâneo que forma um cânion, Malfazido é dividida em duas galerias: superior e inferior.
A primeira consiste em uma passagem estreita com zonas de inundação definidas e numerosas estalagmites em forma de vela. A segunda tem uma sequência de grandes barragens de calcita que interrompem o fluxo e criam um sistema de “sifões”, aprisionando água e sedimentos durante inundações. Esse represamento natural em ambas as galerias é crucial para a deposição de sedimentos finos sobre os espeleotemas durante períodos prolongados de cheia.
A inundação começa na parte mais profunda da caverna e vai gradualmente em direção à entrada, enchendo sucessivamente uma sequência de barragens de calcário conhecida por “represas de travertinos”.
Na Caverna do Malfazido, esse tipo de formação, que pode atingir até dois metros de altura, transforma o conduto em uma sequência de tanques naturais. Eles se enchem de água e lama durante os eventos de inundação. Dependendo do volume de chuvas, a água chega à entrada da caverna. Nesse ponto, muitas estalagmites encontram-se submersas, com uma fina camada de lama sobre seu topo que registra o evento de inundação.
“Isso a torna ideal. Andamos por centenas de cavernas pelo Brasil e nunca tínhamos visto um conduto com essa configuração, que permite uma abordagem única. Não é o tipo de coisa que se consegue fazer todos os dias. O trabalho do Julio [Cauhy] virou uma referência”, diz Strikis.
Aumento da frequência
Os pesquisadores detectaram que entre 3 mil e 2 mil anos atrás houve um período com poucas chuvas extremas. Por outro lado, a maior frequência de eventos extremos foi observada no período entre 7,5 mil e 4 mil anos atrás e durante o último milênio, sobretudo no século 20.
“Esse trabalho coloca os eventos extremos em perspectiva histórica. A partir do momento em que começamos a observar que estão ficando mais recorrentes e considerando o aumento da temperatura da atmosfera, podemos gerar um cenário mais claro”, completa Strikis.
Nesse sentido, o estudo sugere que o aquecimento global provocado pelas atividades humanas pode estar contribuindo para a intensificação recente desses eventos. Por isso, enfatiza a necessidade de estratégias de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, especialmente para comunidades e regiões mais expostas e vulneráveis.
O artigo A Holocene history of extreme rainfall events in Southern Brazil pode ser lido em nature.com/articles/s43247-026-03506-y.
Fonte ==> Folha SP