Palácio na Etiópia teria estrutura como a de arranha-céu – 24/10/2026 – Ciência

Modelo tridimensional de um edifício com fachada em tijolos aparentes e estrutura em degraus. A construção apresenta escadaria frontal ampla, colunas na entrada principal e varandas em vários andares. O cenário é neutro, com sombra projetada ao lado esquerdo.

Hoje, os arranha-céus fazem parte da paisagem de qualquer grande metrópole. Mas, há 2.800 anos, muito antes do aço estrutural e do concreto armado, erguer um edifício em direção ao céu era uma história completamente diferente. E, embora ao pensar nas grandes construções da Antiguidade venham à mente as pirâmides do Egito ou os templos da Grécia e de Roma, desta vez é preciso olhar para outra região: as terras altas da Etiópia.

Ali, na antiga cidade de Yeha, erguia-se o palácio de Grat Be’al Gibri. É claro que não era nenhum Burj Khalifa —torre de 160 andares em Dubai—, porém uma nova análise de engenharia aponta para uma possibilidade surpreendente: o sistema de paredes de pedra e madeira talvez fosse capaz de suportar cargas correspondentes a muito mais andares do que sugerem os vestígios preservados.

O edifício foi construído por volta de 800 a.C. e ocupava uma área de cerca de 60 metros por 60 metros, o que o torna, segundo a Universidade Técnica de Brandemburgo em Cottbus-Senftenberg (BTU), na Alemanha, o maior palácio conhecido de sua época no sul da Arábia e no Leste da África.

Um incêndio o destruiu na Antiguidade, e apenas partes do térreo e da plataforma sobre a qual foi construído sobreviveram até hoje. Mesmo assim, as ruínas guardam pistas de sua antiga grandiosidade.

Segundo o portal Arkeonews, o palácio se erguia sobre uma plataforma de cerca de seis metros de altura e possuía uma entrada monumental, com uma ampla escadaria e seis pilares de arenito de aproximadamente dez metros de altura. Havia também uma escada interna, indício de que o imóvel apresentava vários níveis.

O enigma da altura

Determinar quantos andares o palácio teve é, porém, um antigo desafio para os pesquisadores. As investigações começaram em 1906, e uma reconstrução virtual realizada posteriormente chegou a sugerir que contaria com oito andares.

Existem, entretanto, referências históricas a construções ainda mais altas. Historiadores árabes mencionavam palácios com até 20 andares, e pinturas rupestres do sul da Arábia retratam edifícios em forma de torre. A grande questão era saber se alturas tão impressionantes eram tecnicamente viáveis.

Foi isso que os pesquisadores Martin Drieschner, da BTU, e Mike Schnelle, do Instituto Arqueológico Alemão, procuraram investigar. Em um estudo publicado em julho deste ano na revista Heritage, eles criaram modelos tridimensionais de duas partes representativas das paredes, um canto e uma abertura de porta, e analisaram sua capacidade de carga por meio do método dos elementos finitos.

Como não se sabe exatamente como aqueles materiais se comportavam, os pesquisadores também recorreram ao PolyUQ, um programa desenvolvido pela própria equipe para lidar com esse grau de incerteza, segundo comunicado da BTU.

Paredes de pedra e madeira

É aqui que a madeira se torna o elemento fundamental do sistema construtivo.

As paredes combinavam pedras irregulares e argamassa de barro com vigas de madeira dispostas horizontalmente em camadas alternadas, algumas no sentido longitudinal e outras no transversal, formando uma estrutura interna de reforço.

De acordo com o Arkeonews, as madeiras utilizadas incluíam a oliveira-africana e a cordia africana. As vigas possuíam seções retangulares entre 21 e 28 centímetros e apresentavam resistência a pragas como os cupins.

Um aspecto particularmente interessante é que todas as vigas eram posicionadas horizontalmente, característica que diferencia Yeha de outros sistemas construtivos semelhantes encontrados no sul da Arábia.

Os resultados surpreenderam os pesquisadores. As variações nas propriedades da madeira tiveram pouca influência na capacidade de carga das paredes, sugerindo que se tratava de um sistema estrutural robusto.

Segundo a BTU, os modelos indicam que, nas condições analisadas, as paredes poderiam suportar cargas equivalentes às de pelo menos 19 andares. O Arkeonews observa que, mesmo em um cenário mais conservador, os cálculos apontam para uma capacidade teórica equivalente a 16 níveis.

As simulações permitem estimar a capacidade de carga das paredes, mas não determinar a altura que o palácio efetivamente alcançou.

Por isso, afirmar que Yeha tinha um arranha-céu há quase 3.000 anos ainda é algo que os dados disponíveis não permitem confirmar.

Dois especialistas que não participaram da pesquisa, Davide Tanasi e Kwasi Konadu, recomendaram cautela em declarações à revista Newsweek quanto ao uso do termo arranha-céu. Segundo Tanasi, os 19 andares se referem à capacidade de carga estimada pelo modelo matemático, e não à altura real do edifício.

Konadu resumiu a questão de forma ainda mais direta: uma parede capaz de sustentar 19 andares não significa necessariamente que o edifício tenha tido 19 andares.

O próprio Arkeonews reforça esse ponto ao destacar que os autores do estudo não afirmam que o palácio tinha determinado número de pavimentos, e sim que seu sistema construtivo tinha um potencial vertical muito maior do que os restos arqueológicos sugerem.

Em outras palavras, os cálculos mostram do que a estrutura era capaz, mas não quantos andares o palácio realmente teve.

Ainda assim, o fato de o termo arranha-céu talvez não se aplicar perfeitamente não reduz a importância da descoberta. Para Konadu, os resultados evidenciam o conhecimento que aqueles construtores africanos possuíam sobre materiais e distribuição de cargas. Já Tanasi ressalta a sofisticação da tradição arquitetônica de Yeha.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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