Pittsburgh (EUA)
| The New York Times
Em um prédio de concreto conhecido como “o bunker”, pesquisadores da PPG, empresa de tintas com valor de mercado de US$ 24 bilhões (R$ 121 bilhões), apontaram maçaricos para painéis de aço cobertos por uma camada cinza de revestimento.
Paul Fenton, químico e engenheiro da PPG, ergueu um dos painéis depois de submetê-lo às chamas. A tinta havia se expandido de um milímetro de espessura para formar uma crosta preta de quase dez milímetros de altura. Isso significava que o revestimento havia cumprido sua função: a camada espessa impediu que o fogo atingisse o aço por baixo e o amolecesse.
Funcionário segura amostra do revestimento isolante Pitt-Therm 909, da PPG, usado para manter frias as tubulações de água em data centers e evitar condensação sobre equipamentos elétricos, em Allison Park, Pensilvânia
–
Justin Merriman/New York Times
“É como um marshmallow tostado, que gosta de se expandir”, disse Fenton, usando jaleco e óculos de proteção sobre seus óculos de armação metálica. O ar retido, explicou, “mantém tudo frio”.
O revestimento apresentado por Fenton, chamado Steelguard 951, tornou-se um dos principais produtos da PPG para data centers —e suas vendas dispararam. À medida que Microsoft, Google, Amazon e outras gigantes da tecnologia correm para construir as instalações de computação que sustentam a febre da inteligência artificial, os negócios da PPG também crescem rapidamente.
A empresa de Pittsburgh afirmou esperar que suas vendas de tintas para data centers tripliquem neste ano em relação ao anterior. O ritmo ficaria muito acima do crescimento da companhia como um todo, cujas vendas totais avançaram 7%, para US$ 4,5 bilhões, no trimestre mais recente.
“Nunca vi um boom tão grande quanto este”, disse Jenn Solcz, vice-presidente da divisão de revestimentos de proteção e marítimos da PPG para as Américas, responsável pela venda de tintas resistentes ao fogo e à ferrugem para edifícios, pontes, instalações industriais e embarcações.
Em outras palavras, a onda de investimentos em IA —que criou fortunas para fabricantes de chips como a Nvidia e laboratórios de inteligência artificial como OpenAI e Anthropic— agora alcança até produtos comuns. À medida que data centers se espalham por toda parte, eles impulsionam as vendas não apenas de tintas, mas também de brita, usada no concreto de fundações e pisos, e de fios e cabos, que transportam eletricidade e dados para milhares de servidores. Com isso, uma longa cadeia de setores improváveis sai ganhando.
Na indústria de tintas, o efeito dos data centers tem sido particularmente intenso. A Sherwin-Williams, principal concorrente da PPG, afirmou que seus produtos são usados em praticamente todos os cantos dessas instalações, das vigas de aço aos racks de servidores. Em julho, Heidi Petz, presidente-executiva da Sherwin-Williams, disse que as vendas de sua divisão de revestimentos de proteção e marítimos estavam sendo impulsionadas pela construção de data centers e haviam crescido na casa dos dois dígitos, na faixa intermediária da escala, em relação ao ano anterior.
“Velocidade importa”, afirmou Petz. A Sherwin-Williams se apresenta como uma parceira única, capaz de fornecer todos os tipos de tinta necessários para data centers.
Matthew Giddings, que ajuda a administrar data centers na empresa imobiliária comercial JLL, disse que a tinta tem importância especial nessas instalações porque contribui para a proteção contra incêndios em salas elétricas e reduz a eletricidade estática. Os revestimentos estão por toda parte, “das paredes às coberturas dos telhados, passando pelas estruturas de aço e pela parte externa do edifício”, afirmou. Em uma única construção, os gastos podem chegar a US$ 3 milhões (R$ 15,1 milhões) a US$ 8 milhões (R$ 40,3 milhões), embora representem apenas uma pequena parcela do custo total da obra.

Amy Ericson, vice-presidente sênior da PPG
–
Justin Merriman/New York Times
Mas as tintas não têm nada de glamouroso. A maioria apresenta apenas diferentes tons de cinza —a PPG os chama de cinza-claro, cinza e cinza-escuro. As empresas de tecnologia cobrem concreto cinza e aço cinza com ainda mais cinza, em parte porque quase não há ninguém por perto para ver o resultado. Os data centers são ocupados principalmente por máquinas, e não por pessoas, disse Solcz.
Segundo ela, a estética “não está exatamente entre as principais preocupações de nossos clientes, nem dos proprietários de data centers, arquitetos e engenheiros com quem conversamos”.
A PPG foi fundada em 1883 como Pittsburgh Plate Glass Corporation., inicialmente uma fabricante de vidro. Mais tarde, tornou-se uma das maiores empresas de tintas do mundo, com marcas como a Glidden, encontrada com frequência nas prateleiras da rede de materiais de construção Home Depot. Em 2024, a PPG vendeu suas lojas de tintas nos Estados Unidos e no Canadá, incluindo a operação da Glidden, e passou a atender principalmente outras empresas, fornecendo revestimentos para carros, aviões e latas de bebidas.
A PPG, porém, não gosta de chamar seus produtos de tintas. Seus executivos afirmam que a companhia vende “revestimentos”, que incluem um primer para aderir ao aço, uma camada funcional que oferece proteção e uma camada final de acabamento.

Funcionário segura uma amostra do Pitt-Therm 909, revestimento isolante da PPG que mantém frias as tubulações de água em data centers e evita que a condensação pingue sobre equipamentos elétricos
–
Justin Merriman/New York Times
“Não é como entrar em uma loja, comprar uma lata de tinta e passá-la na parede”, disse Amy Ericson, vice-presidente sênior da PPG.
A sede da empresa, um conjunto de torres de vidro, se destaca no horizonte do centro de Pittsburgh e fica a poucos quarteirões da PPG Paints Arena, casa do time de hóquei Pittsburgh Penguins. Os revestimentos são desenvolvidos a cerca de 21 km dali, nos subúrbios, no Coatings Innovation Center, um complexo de edifícios espelhados que inclui “o bunker”. Nos gramados, perus selvagens circulam e, às vezes, chegam a voar contra as janelas.
Há cerca de três anos, depois que a OpenAI lançou o ChatGPT, executivos da PPG começaram a notar uma onda de anúncios de novos data centers e fábricas de chips. Seus clientes —empreiteiras, fabricantes de estruturas de aço e produtores de equipamentos— passaram, de repente, a disputar contratos para essas instalações.
A PPG também decidiu aproveitar a oportunidade. Os data centers são construídos rapidamente, em cerca de um terço do tempo necessário para um projeto de infraestrutura típico, segundo Solcz. Por isso, a empresa montou uma equipe dedicada às gigantes da tecnologia e outra que trabalha com arquitetos, engenheiros e construtores antes mesmo do início das obras, para garantir que seus revestimentos sejam incluídos desde o começo na lista de materiais aprovados para cada projeto.
Em uma feira do setor realizada em Washington, em abril, a PPG apresentou um pacote de produtos voltado aos data centers. Ele inclui revestimentos que impedem que estruturas de aço percam a resistência e cedam em caso de incêndio, primers que evitam a ferrugem, pisos que impedem que a eletricidade estática danifique equipamentos ou provoque incêndios e revestimentos que bloqueiam interferências elétricas entre máquinas.
O piso foi desenvolvido pensando especificamente em data centers e fábricas de chips, disse Ericson. Os demais itens do pacote já existiam e foram adaptados pela empresa para atender às instalações voltadas à inteligência artificial.
A PPG também fabrica revestimentos para mais de 75 componentes de data centers, incluindo carcaças de câmeras de segurança e equipamentos de refrigeração.
Os produtos da empresa são usados em data centers do Brasil à China, mas mais da metade das oportunidades de venda está nos Estados Unidos, afirmou Ericson. Embora seja difícil contabilizar com precisão o número dessas instalações, os EUA têm cerca de 5.500 data centers —aproximadamente dez vezes mais do que o segundo país com maior número deles—, segundo o relatório Artificial Intelligence Index Report, da Universidade Stanford.
Os data centers ainda representam uma parcela pequena dos negócios da PPG, correspondendo a um percentual de um dígito baixo das vendas em duas divisões da empresa, segundo seus executivos. Ericson afirmou que essa participação “certamente vai aumentar” e espera que o segmento cresça “várias vezes” mais rápido do que outros mercados de infraestrutura.
O negócio, porém, enfrenta alguns obstáculos. Alguns projetos de data centers foram adiados à espera de fornecimento de energia, disse Solcz. A escassez de transformadores e de outros equipamentos elétricos também prolongou os cronogramas de construção. Além disso, a oposição local a esses empreendimentos se tornou difícil de ignorar.
Ericson afirmou que cabe às empresas de tecnologia e às concessionárias de energia lidar com a reação contrária aos projetos.
“Cabe a elas conduzir essas conversas”, disse.
Fonte ==> Folha SP – TEC