PAGOS debate segurança de dados diante do avanço dos pagamentos digitais

Arquivo pessoal

Em encontro realizado em 28 de outubro, especialistas discutiram o valor dos dados, os riscos cibernéticos e a responsabilidade das empresas pela proteção das informações financeiras

A expansão dos pagamentos digitais amplia as oportunidades de negócios e coloca a segurança e o uso responsável dos dados no centro da agenda do setor. O tema foi debatido na reunião mensal da PAGOS, realizada em 28 de outubro, em São Paulo. Em setembro de 2026, o Pix movimentou R$ 3,81 trilhões em 7,89 bilhões de transações, segundo dados do Banco Central. Na comparação com o mesmo mês de 2025, o valor transacionado cresceu 19,9% e a quantidade de operações avançou 15,3%.

Mais de 150 milhões de pessoas físicas utilizaram o sistema no período, e o recorde diário, registrado em 4 de setembro, foi de 318,1 milhões de transações.

O crescimento também se reflete no Open Finance. Em 25 de setembro de 2026, o sistema registrava 269,06 milhões de consentimentos ativos, alta de 13,8% em relação a 24 de julho. No indicador de clientes com consentimento por instituição, o painel contabilizava 153,78 milhões de registros associados a CPFs e 2,19 milhões a CNPJs. Os números reforçam a dimensão da circulação de informações no sistema financeiro e a importância de estruturas capazes de proteger os dados e garantir seu uso adequado.

Esse cenário pautou o painel “O poder dos dados e o preço de não protegê-los”, promovido pela PAGOS – Associação Brasileira do Ecossistema de Pagamentos. O encontro reuniu Roberto Basso, diretor de tecnologia da Maxxi; Otávio Farah, cofundador e CEO do Fits; Linconl Rocha, presidente da PAGOS; e Luís Cabañas, sócio e CRO da AIKNOW, responsável pela mediação. A conversa destacou o valor econômico dos dados, os riscos cibernéticos, a gestão de fornecedores e a necessidade de elevar a maturidade em segurança de todo o ecossistema.

Na abertura do painel, Cabañas associou inovação à responsabilidade: “A inovação é o que faz o ecossistema evoluir. A integridade é o que torna a evolução legítima. E a resiliência é o que garante que ele continue de pé.” Para o moderador, cada transação, compra com cartão ou consentimento de Open Finance produz informações que podem apoiar decisões de crédito, precificação e prevenção a fraudes, mas também representam riscos quando não são tratadas com governança.

O debate também examinou como transformar informações em decisões de negócios. Para Basso, armazenar dados, por si só, não gera valor para as empresas. “Ele gera valor quando está ligado a uma decisão”, afirmou. O executivo citou aplicações em concessão de crédito, aprovação de transações, precificação de risco, relacionamento com clientes, retenção e prevenção a fraudes.

Cabañas alertou que manter informações sem finalidade definida pode transformar um ativo potencial em passivo. “Se não é nenhuma decisão e não tem nenhuma perspectiva de decisão futura, provavelmente você está assumindo só o risco”, complementou Basso. Defendeu, por isso, regras de governança que estabeleçam responsabilidades, finalidades de uso, padrões de qualidade e prazos de retenção.

A consistência das informações também é essencial para evitar decisões baseadas em indicadores divergentes: “Quando você tem dois números, não tem nenhum”, reiterou.

Na perspectiva da infraestrutura, Otávio Farah chamou atenção para o aumento das tentativas de ataque contra empresas do setor. Segundo o executivo, o Fits registrou, no primeiro semestre de 2026, milhares de tentativas, e todas sem sucesso.

O cenário exige monitoramento contínuo, identificação de comportamentos fora do padrão e mecanismos capazes de interromper operações suspeitas. Farah destacou que a proteção não pode se limitar aos sistemas da própria empresa, já que a segurança depende também de clientes e parceiros.

“Nós temos as nossas proteções, mas os nossos clientes têm que ter as deles e, mesmo que as deles falhem, nós temos que protegê-los do problema”, afirmou.

O executivo relatou que, diante de sinais de que uma instituição poderia estar sob ataque, o Fits adotou medidas preventivas para bloquear a entrada de recursos potencialmente relacionados à ocorrência. Para ele, a tecnologia precisa estar acompanhada de equipes preparadas para interpretar alertas e agir rapidamente.

A responsabilidade compartilhada também apareceu na discussão sobre terceirização de serviços e contratação de fornecedores. Ao abordar o tema, Cabañas resumiu o desafio: “Terceirizar o serviço não terceiriza a responsabilidade.” A declaração reforça a necessidade de processos de diligência, documentação e acompanhamento dos parceiros que participam das operações de pagamento e têm acesso a informações sensíveis.

Na perspectiva institucional, Linconl Rocha avaliou que a segurança precisa ganhar espaço permanente nas discussões do setor. “Esse tema é tão importante, acho que ele é tão pouco debatido, tão pouco falado no nível que a gente precisa falar”, afirmou.

O presidente da PAGOS defendeu mais transparência, conscientização e capacitação das empresas, especialmente das organizações de menor porte, que nem sempre dispõem da mesma estrutura tecnológica e operacional dos grandes participantes do mercado.

O debate ocorre em um momento de evolução do ambiente regulatório. O Conselho Monetário Nacional e o Banco Central atualizaram as regras do Open Finance por meio da Resolução Conjunta nº 21, de 22 de outubro de 2026, publicada no Diário Oficial da União em 26 de outubro.

Entre as medidas estão a exigência de consentimento expresso para cada entidade parceira, a ampliação das obrigações de monitoramento dessas parcerias pelas instituições integradoras e a previsão de mecanismos para interromper o compartilhamento de dados em situações que representem riscos à segurança.

A norma reforça ainda a responsabilidade das instituições integradoras pela confiabilidade, integridade, disponibilidade, segurança e sigilo dos dados compartilhados.

Com o desdobramento do encontro, a PAGOS pretende aprofundar a discussão no âmbito de seu Comitê de Cibersegurança, junto à participação de representantes do Fits e de outras empresas do setor, e desenvolver iniciativas para fortalecer a proteção do ecossistema. A proposta é ampliar a troca de experiências e contribuir para que empresas de diferentes portes avancem em práticas de prevenção, gestão de riscos e resposta a incidentes.

Com o crescimento das transações digitais e do compartilhamento de informações, o desafio do setor é fazer com que a inovação avance acompanhada de controles compatíveis com a escala das operações. O uso estratégico dos dados pode gerar eficiência, viabilizar novos negócios e aprimorar a experiência dos clientes, desde que esteja sustentado por segurança, governança e confiança.

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