ChatGPT, Claude, Copilot ou Gemini? A corrida pela inteligência artificial deixou de ser apenas uma disputa para ver quem tem o melhor modelo ou o mais rápido. Cada vez mais, o fator determinante é outro: o acesso à energia elétrica.
Com a expansão acelerada dos data centers voltados para IA, gigantes da tecnologia como Amazon, Google, Microsoft e Meta enfrentam um desafio comum: garantir eletricidade suficiente para sustentar o crescimento de suas operações.
Segundo uma análise publicada pelo Wall Street Journal com base em dados da empresa de inteligência energética Aterio, a Amazon parte de uma posição privilegiada:
- A companhia já possui a maior infraestrutura de computação em nuvem do mundo e opera data centers próprios com capacidade de consumo de até aproximadamente 9 gigawatts (GW) de energia;
- O volume é comparável à capacidade total de geração elétrica do estado norte-americano da Dakota do Norte inteiro.
Para efeito de comparação, os data centers próprios da Microsoft e do Google consomem cerca de 5 GW cada, enquanto a Meta opera instalações com capacidade próxima de 4 GW.
Mas a vantagem atual não garante liderança no futuro.
De acordo com estimativas da Aterio, a Amazon deverá adicionar o maior volume absoluto de capacidade energética e de data centers até 2030. Já o Google tende a crescer em ritmo mais acelerado. Considerando espaços alugados de operadores terceirizados, a diferença entre as duas empresas diminui significativamente.
O Olhar Digital consultou especialistas para entender exatamente o que está em jogo nessa corrida e como deve ser o futuro do setor de IA.
O que está em jogo na corrida de IA?
Para Rudolf Buhler, coordenador dos cursos de Ciência da Computação, Sistemas de Informação, Inteligência Artificial e Ciência de Dados do Instituto Mauá de Tecnologia, a disputa atual vai muito além dos modelos de IA. Segundo ele, é uma corrida por posição no mercado de computação do futuro.
O que está em jogo é quem vai fornecer a infraestrutura que outras empresas, governos e desenvolvedores vão usar para rodar suas próprias aplicações de IA.
Rudolf Buhler, coordenador no Instituto Mauá de Tecnologia
Na mesma linha, Kenneth Corrêa, especialista em IA e professor da Fundação Getúlio Vargas, avalia que o foco do mercado mudou. Para ele, o que está em disputa hoje é “o controle de toda a infraestrutura digital”.
Eduardo Barros, CEO da IDK Brasil, acrescenta que a inteligência artificial tende a se tornar uma tecnologia tão essencial quanto serviços básicos.
A IA não é mais uma ferramenta, uma tecnologia isolada ou um produto lançado. Ela vem como energia elétrica e como água… ela vai se tornar algo fundamental para toda a humanidade.
Eduardo Barros, CEO da IDK Brasil
O maior limitador
A importância da energia para o avanço da IA ficou evidente após o CEO da Amazon afirmar que a eletricidade se tornou a “maior restrição” para os negócios de computação em nuvem e inteligência artificial da empresa. O comentário reflete a nova realidade do setor: as big techs estão construindo data centers em uma velocidade superior à capacidade de expansão das redes elétricas.
O relatório The Race to Power Data Centers, da Columbia Business School e publicado em janeiro deste ano, aponta a energia como um dos principais gargalos para a expansão da IA, especialmente nos Estados Unidos. Segundo o estudo, empresas de tecnologia frequentemente conseguem construir novas instalações antes mesmo de garantir conexão à rede elétrica ou acesso a novas fontes de geração.
Essa pressão ocorre em um contexto de crescimento acelerado da demanda energética global. Dados da Agência Internacional de Energia (AIE) indicam que os data centers consumiram cerca de 400 terawatts-hora (TWh) em 2024, o equivalente a aproximadamente 1,5% da eletricidade mundial. A projeção é que esse volume alcance 1.000 TWh até 2030 – cerca de 3% do consumo global.
A mudança de foco para infraestrutura tem uma explicação simples, segundo Buhler. “Porque sem energia, o modelo não roda. Não basta ter o melhor algoritmo se você não tem onde rodá-lo”, explicou.
Já para Corrêa, a discussão deixou de ser apenas tecnológica e passou a envolver limitações físicas.
O gargalo estratégico de hoje não é mais escrever código que para de pé, mas sim conseguir manter o servidor ligado na tomada.
Kenneth Corrêa, especialista em IA e professor da Fundação Getúlio Vargas
Estratégias diferentes
Os hiperescaladores (empresas por trás dos data centers de grande porte) compartilham o mesmo desafio, mas vêm adotando estratégias distintas para garantir energia.
Sergio Toro, fundador da Aterio, explicou ao WSJ que a Amazon aposta em uma abordagem mais gradual e focada em confiabilidade e custo. A empresa busca construir a maior parte de sua infraestrutura por conta própria.
Isso permitiu que a companhia saísse na frente em algumas iniciativas:
- A Amazon foi a primeira entre as gigantes da tecnologia a anunciar um contrato de compra de energia vinculado a uma usina nuclear em operação;
- Posteriormente, Microsoft, Google e Meta passaram a firmar acordos semelhantes envolvendo usinas nucleares desativadas ou em processo de encerramento.
O Google, por outro lado, tem concentrado esforços em ampliar sua infraestrutura utilizando fontes renováveis.
A busca por energia também levanta preocupações sobre concentração de mercado. Buhler alerta que há um temor crescente de que as big techs passem a monopolizar parte da oferta de energia limpa disponível nos EUA. Segundo ele, isso poderia deixar consumidores e companhias menores dependentes de fontes mais antigas e mais poluentes.

Combustíveis fósseis seguem no setor
Apesar dos compromissos ambientais assumidos pelo setor, a necessidade de expandir rapidamente a capacidade computacional tem levado empresas a recorrerem também ao gás natural, um combustível fóssil e poluente.
Embora os investimentos em fontes renováveis estejam crescendo, especialistas observam que a demanda por eletricidade avança em velocidade ainda maior. Para Buhler, a aposta em combustíveis fósseis vem justamente para dar conta dessa demanda.
Como exemplo:
- Segundo levantamento da Cleanview citado pelo Wall Street Journal, Microsoft, Amazon e Meta possuem projetos associados a usinas autônomas movidas a gás para abastecer data centers;
- A Microsoft, por exemplo, assinou um contrato de 20 anos com a Chevron para fornecer energia a uma instalação de IA no Texas;
- O próprio Google também adotou medidas consideradas contraditórias por alguns especialistas. A companhia planeja alugar capacidade computacional da SpaceX, cujos data centers foram construídos utilizando sistemas energéticos movidos a gás natural fora da rede elétrica tradicional.
Ao mesmo tempo, os hiperescaladores vêm investindo em tecnologias capazes de oferecer energia limpa de forma contínua. Entre as apostas estão pequenos reatores nucleares modulares (SMRs), sistemas geotérmicos avançados, novas tecnologias de armazenamento em baterias e até conceitos mais experimentais, como energia solar transmitida do espaço.
Segundo a Columbia Business School, essas empresas já desempenham um papel central no financiamento de projetos renováveis. Amazon, Microsoft, Google e Meta respondem juntas por mais da metade dos novos contratos corporativos de compra de energia renovável nos Estados Unidos.

O que vai definir os vencedores da corrida de IA?
Especialistas acreditam que os vencedores serão definidos principalmente pela capacidade de construir e sustentar infraestrutura.
Para Buhler, fatores como acesso a energia, disponibilidade de data centers, capacidade de obter licenças regulatórias e transformar esses investimentos em receitas recorrentes serão decisivos. Na avaliação dele, a disputa não será vencida necessariamente pela empresa com o melhor modelo de IA, mas por quem conseguir construir, energizar e rentabilizar sua infraestrutura com mais eficiência.
Kenneth Corrêa compartilha uma visão semelhante. Segundo ele, a liderança ficará com as empresas capazes de dominar toda a cadeia tecnológica da IA, desde a infraestrutura física até a entrega dos serviços ao cliente final.
O especialista também acredita que a próxima etapa da competição será marcada pela expansão dos chamados agentes de IA. Nesse cenário, tende a levar vantagem quem oferecer a melhor base tecnológica para que empresas construam suas próprias redes de agentes inteligentes.
Na visão de Corrêa, os futuros líderes do setor serão aqueles que conseguirem combinar acesso confiável a energia, modelos avançados e um ecossistema robusto para clientes e desenvolvedores.
O jogo deixou de ser apenas sobre software e passou a ser sobre o controle de todo o ‘stack’ de inteligência artificial, do hardware físico à distribuição final.
Kenneth Corrêa, especialista em IA e professor da FGV
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Fonte ==> Olhar Digital