Nobel de Medicina premia estudos voltados ao cérebro – 05/10/2026 – Ciência

Homem fala em púlpito com microfone em auditório. Ao fundo, tela exibe fotos e nomes de três pesquisadores: Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel, com suas instituições e países.

O americano Karl Disseroth, 54, e os alemães Peter Hegemman, 71, e Georg Nagel, 73, receberam o Prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina de 2026. O anúncio foi feito nesta segunda-feira (5) pela Fundação do Prêmio Nobel, em Estocolmo, na Suécia.

O prêmio reconheceu o trabalho do trio na descoberta de canais de íon fotossensíveis, que contribuíram para o desenvolvimento da optogenética, que revolucionou a neurociência ao permitir o mapeamento de áreas específicas do cérebro relacionadas com comportamentos, como fuga, briga, alimentação ou cuidado, em animais.

Embora já fosse aventada a possibilidade de conectar diferentes áreas do cérebro com reações comportamentais específicas, basicamente um interruptor de “liga e desliga” cerebral, tal hipótese não havia encontrado uma correspondência de “causa e efeito” até os início dos anos 1990. Naquela época, pesquisas envolvendo o estudo da alga verde Chlamydomonas. Este mecanismo intrigou o biofísico Peter Hegemman.

Em experimentos em um lago onde utilizava sinais elétricos para mapear o movimento da alga unicelular, Hegemann percebeu que as respostas à luz vinham por meio de um órgão fotossensível primitivo chamado ocelo. Dessa forma, isolando uma proteína deste órgão ele identificou o que seria o primeiro “canal luminoso” guiado por íons fotossensíveis.

Hegemann se uniu então a Georg Nagel, especialista em canais iônicos e passou a estudar o gene fornecido por Nagel para estudar esse processo em óvulos de sapo. Nas células embrionárias de anfíbio, os cientistas viram que a proteína codificada por este gene era ativada por luz, abrindo o canal iônico e gerando um sinal elétrico. Como esta proteína era produzida por um gene —batizado de canalrodopsina2—, a descoberta do “interruptor” de liga e desliga estava aí.

Apesar de ser uma descoberta extraordinária, suas implicações para a neurociência —principalmente, humana— ainda eram muito incipientes. Foi então que, nos anos 2000, o americano Karl Deisseroth, ao criar seu próprio laboratório, resolveu estudar a proteína canalrodopsina2 em ratos de laboratório que recebiam um estímulo luminoso.

Deisseroth conectou regiões cerebrais específicas dos roedores a canais ópticos que geravam um sinal luminoso diretamente na área onde a canalrodopsina2 tinha sido ativada. E, bingo: a resposta luminosa produzia um sinal neuronal com uma reação comportamental, como ingestão de água, alimentação, fuga, agressão ou cuidado. Pela primeira vez, foram estabelecidas relações causais entre circuitos cerebrais específicos e o comportamento, área que passou a ser chamada de optogenética.

Possível avanço contra doenças

Embora o Comitê do Nobel tenha reconhecido que a pesquisa do trio ainda é, essencialmente, uma pesquisa básica, as implicações para humanos são extraordinárias, podendo ir desde encontrar possíveis canais ligados a condições neurológicas graves, como esquizofrenia, depressão e demência, até reativar áreas que foram deterioradas por falta de conexão entre os neurônios, como danos ao nervo óptico que podem levar à cegueira temporária.

O desenvolvimento da optogenética também pavimentou caminhos para o desenvolvimento de tratamentos para doenças neurológicas, uma vez identificadas as áreas afetadas do cérebro na condição. Um exemplo, que já está em ensaios clínicos de primeira fase, é para o tratamento da cegueira causada pela retinite pigmentosa, doença neurodegenerativa que leva à deterioração progressiva das células fotorreceptoras da retina (cones e bastonetes), levando à perda gradual da visão.

O uso de terapias envolvendo a ativação da canalrodopsina2 nestes pacientes já está em estudo, mas envolve custos elevados por utilizar um aparelho de gravação conectado a áreas do cérebro, e os primeiros resultados mostram recuperação de algumas das habilidades fotossensíveis.

Reação dos laureados

Segundo o secretário-geral do Comitê do Nobel, Thomas Perlmann, o primeiro telefonema do dia foi feito a Deisseroth, que estava muito sonolento e cansado. “Provavelmente, ele estava dormindo, mas acordou e ficou muito feliz e surpreso.”

Tanto Deisseroth quanto seus colegas agradeceram e disseram que a pesquisa não teria sido possível sem o trabalho conjunto e afirmaram estar contentes em receber a láurea em trio.

“Todos disseram: é absolutamente maravilhoso receber este prêmio junto aos outros dois”, disse Perlmann, que fez as ligações aos três na manhã desta segunda-feira.

Entrega das láureas

A cerimônia de entrega das láureas em Estocolmo, na Suécia, está agendada para 10 de dezembro, aniversário da morte do químico sueco Alfred Nobel (1833-1896). Os laureados vão receber um diploma feito por um artista sueco ou por um norueguês e uma medalha de ouro. Além disso, há o prêmio de 12 milhões de coroas suecas, montante equivalente a cerca de R$ 6 milhões na cotação atual.

Em 2025, foram laureados com o mesmo prêmio o trio de cientistas Mary Brunkow, Fred Ramsdell e Shimon Sakaguchi, por terem desenvolvido trabalhos acerca da chamada tolerância imunológica periférica, um dos processos pelos quais o organismo consegue distinguir entre ameaças reais vindas de fora e seus próprios componentes.

Já foram distribuídos, com a premiação desta segunda (5), 117 prêmios Nobel na categoria Fisiologia ou Medicina, desde 1901 —isso não ocorreu apenas nove vezes, de 1915 a 1918, em 1921, 1925 e de 1940 a 1942. Até hoje, nenhuma pessoa recebeu o prêmio nessa categoria mais de uma vez.

A pessoa mais jovem a receber o prêmio de Fisiologia ou Medicina foi Frederick G. Banting (1891-1941). O canadense tinha 31 anos em 1923 quando dividiu a láurea com o escocês John James Rickard Macleod (1876-1935) pela descoberta da insulina.

Já o americano Peyton Rous (1879-1970) foi a pessoa mais velha a ganhar o prêmio. Em 1966, ele tinha 87 anos quando recebeu a láurea pela descoberta de vírus que induzem ao desenvolvimento de tumores. Além dele, o prêmio naquela categoria foi entregue ao canadense Charles B. Huggins (1901-1997) por suas descobertas relacionadas ao tratamento hormonal de câncer de próstata.

No recorte de gênero, embora 232 indivíduos diferentes tenham recebido a láurea, apenas 14 destes eram mulheres, ou 6%, considerando os dados até 2025. Premiada em 1983, a geneticista Barbara McClintock foi a única mulher até hoje a receber o Nobel de Fisiologia ou Medicina sozinha —todas as outras 13 laureadas o partilharam com alguém.

Trabalhos na área de biologia ou medicina frequentemente rendem parcerias de longa data. No caso de laureados, a parceria mais longeva entre vencedores é de 54 anos, de 1972 até o presente, entre os médicos e geneticistas Michael Brown e Joseph L. Goldstein, que receberam o prêmio em 1985 por descobertas envolvendo o controle do colesterol. Em seguida, o casal Carl Ferdinand Cori (1986-1984) e Gerty Theresa Cori (1896-1957), cuja parceria durou 34 anos, foram laureados em 1947 pela descoberta do curso da conversão catalítica do glicogênio.

O agora ex-casal de neurocientistas noruegueses Edward Moser e May-Britt Moser também teve uma parceria de pesquisa longeva, de quase 30 anos, e conquistou a láurea em 2014 —junto com o americano americano John O’Keefe— por descobrirem células que constituem um “GPS” do cérebro, chamadas de células de grade.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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