Negacionismo climático ressurge na Washington de Trump – 14/04/2026 – Ambiente

Homem apresenta palestra para público sentado em auditório. Tela exibe texto

A mudança climática é uma farsa perpetrada por “políticos de esquerda”. Os combustíveis fósseis são as fontes de energia mais ecológicas. Mais dióxido de carbono na atmosfera será inofensivo.

Essas foram algumas das alegações falsas feitas em uma conferência no dia 8 deste mês. O evento foi organizado por grupos que rejeitam o consenso científico sobre a mudança climática.

O que poderia parecer um evento marginal em anos anteriores, desta vez contou com um palestrante de destaque: Lee Zeldin, administrador da Agência de Proteção Ambiental americana (EPA, na sigla em inglês) e uma das possíveis escolhas de Donald Trump para ser o próximo procurador-geral.

“Não estamos simplesmente seguindo obediência cega a qualquer que seja a previsão catastrófica e apocalíptica do momento”, disse Zeldin na conferência, que atraiu cerca de 220 participantes ao salão de festas no subsolo de um hotel no centro de Washington.

“Não vamos assinar o roteiro de que o mundo está prestes a acabar”, acrescentou Zeldin, arrancando aplausos da plateia, que já havia o ovacionado de pé antes do discurso dele.

O evento deixou claro que os negacionistas das mudanças climáticas estão vivendo um ressurgimento na Washington de Trump, após anos se sentindo marginalizados.

A grande maioria dos cientistas concorda que as mudanças climáticas são reais e que são causadas pela queima de combustíveis fósseis como petróleo, gás e carvão. Eles preveem que as temperaturas médias globais subirão 1,5 grau Celsius 2,7 graus acima dos níveis pré-industriais na próxima década, desencadeando impactos graves que incluem ondas de calor mais letais, inundações costeiras, escassez de água e quebras de safra.

A Terra já aqueceu cerca de 1,2 grau Celsius desde a Revolução Industrial, segundo estimativas científicas.

Trump, no entanto, ridicularizou o consenso científico sobre o aquecimento global como “o maior golpe já perpetrado contra o mundo”. E Zeldin afirmou que a EPA está “cravando um punhal direto no coração da religião das mudanças climáticas” ao revogar dezenas de regulamentações que oneravam a indústria de combustíveis fósseis.

A conferência do dia 8 reuniu pessoas com diferentes níveis de ceticismo em relação ao consenso científico. Alguns participantes negaram categoricamente que o planeta esteja aquecendo, enquanto outros reconheceram a tendência, mas argumentaram que não se trata de uma emergência e que as possíveis soluções são custosas demais.

O evento foi organizado pelo Instituto Heartland, uma organização de pesquisa que diz promover soluções de livre mercado e que ataca a ciência climática convencional há décadas. Outros patrocinadores incluíram a CO2 Coalition, um grupo sem fins lucrativos que afirma falsamente que o dióxido de carbono, responsável pelo aquecimento do planeta, é benéfico para os seres humanos.

A influência de ambos os grupos diminuiu durante o governo Biden, que abraçou a ciência por trás das mudanças climáticas e promoveu políticas destinadas a enfrentá-las. A presença de Zeldin na conferência evidenciou como a influência desses grupos cresceu na era Trump.

No mês passado, a CO2 Coalition conseguiu indicar um oftalmologista sem nenhuma formação em ciência da poluição atmosférica para um comitê que assessora a EPA sobre as pesquisas mais recentes em poluição do ar.

No dia 8, o grupo distribuiu sacolas, panfletos, balas de menta e bolinhas antiestresse azuis e verdes que pareciam miniaturas da Terra para os participantes da conferência. A inscrição em letras brancas nas bolinhas dizia: “Não se estresse. Não há crise climática”.

Ao lado do estande da CO2 Coalition, o químico e empresário Stephen Einhorn, de Wisconsin, distribuía cópias de seu próprio panfleto, cuja capa prometia revelar “o que os ativistas climáticos não sabem ou não querem que você saiba”.

“Estou muito feliz que Trump nomeou Zeldin”, disse Einhorn. “Estou surpreso com o quanto ele avançou em informar o povo americano sobre o que a ciência realmente diz, que é que temos um clima maravilhoso. Somos abençoados. Não há nada com que se preocupar.”

O Instituto Heartland não divulga seus financiadores. No passado, recebeu apoio financeiro de empresas de petróleo e gás, bem como da Mercer Family Foundation, uma doadora influente para causas conservadoras.

“Como não somos tão bem financiados pela indústria quanto as pessoas pensam, não temos uma sala VIP sofisticada”, disse James M. Taylor, presidente do Instituto Heartland, em entrevista do lado de fora do salão principal.

O grupo recebe cerca de US$ 4 milhões (R$ 20 milhões) por ano de fundações e pessoas físicas, segundo Taylor. Ele afirmou não ter conhecimento se o instituto recebeu financiamento recente da indústria de combustíveis fósseis.

Fazendo uma pausa para refletir, Taylor disse que o segundo governo Trump fez mais pelo movimento de negação das mudanças climáticas do que qualquer outro governo na história. Ele apontou para a medida extraordinária da EPA em fevereiro de renunciar à autoridade legal do governo federal para combater as mudanças climáticas.

“Este é um momento de triunfo”, disse Taylor. “É bom estar vencendo.”



Fonte ==> Folha SP – TEC

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *