Evolução
Microfósseis interpretados como rastros de animais eram na verdade algas e bactérias
Novas evidências e reanálise de material de 540 milhões de anos com técnicas avançadas de imagem descartam entendimento de que fossem vermes ou pequenos animais oceânicos
Evolução
Microfósseis interpretados como rastros de animais eram na verdade algas e bactérias
Novas evidências e reanálise de material de 540 milhões de anos com técnicas avançadas de imagem descartam entendimento de que fossem vermes ou pequenos animais oceânicos
Filamentos entrelaçados, como vistos na foto, ajudam a corroborar a conclusão de que não se trata de marcas deixadas por animais (foto: Bruno Becker-Kerber/Harvard University)
André Julião | Agência FAPESP – Um reexame de microfósseis encontrados no Mato Grosso do Sul, até então interpretados como rastros fossilizados de vermes ou outros pequenos animais oceânicos, mostra que as marcas são na verdade consórcios de bactérias e algas microscópicas fossilizadas.
Os resultados sugerem que no período Ediacarano, cerca de 540 milhões de anos atrás, os níveis de oxigênio poderiam não ser suficientes para a evolução de invertebrados que deixassem marcas dentro do substrato, como se supunha. O estudo foi publicado na revista Gondwana Research.
“Por meio de técnicas de microtomografia e espectroscopia, observamos que os microfósseis possuem estruturas celulares, por vezes com material orgânico preservado, compatíveis com bactérias ou algas que já existiam nesse período. Não são rastros de animais que teriam passado por ali”, conta Bruno Becker-Kerber, primeiro autor do trabalho, realizado como parte de pós-doutorado no Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGC-USP) e no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) com bolsa da FAPESP.
O pesquisador, atualmente realizando pós-doutorado na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, explica que, se os registros fossem marcas deixadas por animais, isso implicaria a existência de uma meiofauna, invertebrados com menos de 1 milímetro de comprimento, bastante ativa já no Ediacarano. Seriam os animais desse tipo mais antigos já registrados.
O período antecede a chamada explosão do Cambriano, quando a maior disponibilidade de oxigênio nos ambientes permitiu o surgimento de organismos complexos com uma incrível diversificação dos animais. No Cambriano, sim, a meiofauna é confirmada para o registro fóssil.
O trabalho integra o projeto “O Cráton Rio de la Plata e o Gondwana Ocidental”, apoiado pela FAPESP e coordenado por Miguel Angelo Stipp Basei, professor do IGC-USP que também assina o estudo.
Entre os autores está ainda Lucas Warren, professor do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista (IGCE-Unesp), em Rio Claro, também apoiado pela FAPESP.
Os fósseis reanalisados foram encontrados no município de Corumbá, enquanto os novos, analisados pela primeira vez, estavam num afloramento rochoso em Bonito, na região da Serra da Bodoquena. Ambas as cidades fazem parte do atual Estado do Mato Grosso do Sul, onde a formação geológica Tamengo é encontrada.
As rochas foram formadas em ambiente marinho em plataforma continental durante os momentos finais de formação do supercontinente Gondwana, que posteriormente deu origem à África e à América do Sul.
Em outro estudo, o grupo descreveu o primeiro líquen conhecido no registro fóssil, também encontrado no Mato Grosso do Sul, mais recente do que as bactérias e algas recuperadas agora (leia mais em: agencia.fapesp.br/56450).
Tomografias
O exame acurado de fósseis tão pequenos – medindo de alguns micrômetros a poucos milímetros – foi possível graças à linha de luz Mogno do Sirius, acelerador de partículas do CNPEM, em Campinas.
No CNPEM, as amostras foram submetidas a micro e nanotomografia – que faz imagens na escala de micrômetros (milésima parte do milímetro) e nanômetros (cada nanômetro equivale a um milímetro dividido por um milhão), respectivamente.
“Quando se tem uma amostra grande e queremos fazer uma imagem de uma estrutura no interior dela, muitas vezes a resolução obtida não é suficiente. A linha de luz Mogno é uma das poucas no mundo que faz a chamada tomografia por zoom, em que focamos em algo dentro da amostra e conseguimos analisá-la, em escala nanométrica, sem destruir a amostra”, conta Becker-Kerber. Já o estudo que indicava que os fósseis eram rastros de animais não tiveram essa tecnologia à disposição, ressalta o pesquisador.
Outras técnicas mais acessíveis, como a espectroscopia Raman, indicaram, por exemplo, a composição orgânica das paredes celulares dos fósseis. A informação foi essencial para corroborar a hipótese de que as marcas eram na verdade fósseis corporais.
Em algumas amostras há presença de pirita, mineral formado por ferro e enxofre. Por isso, em conjunto com a forma de alguns fósseis, uma das hipóteses é que entre eles estejam resquícios de bactérias oxidantes de enxofre, grupo que utiliza esse elemento como parte de seu metabolismo.
“Esse grupo de bactérias é surpreendente. Algumas das maiores já registradas pertencem justamente a essa categoria. Diferente da imagem comum que temos de bactérias microscópicas, certas espécies podem atingir diâmetros maiores que um fio de cabelo, sendo visíveis a olho nu”, afirma Becker-Kerber.
Contudo, não há partes preservadas que permitiriam refinar a distinção entre as espécies, como estruturas reprodutivas, por exemplo. No entanto, nas diferentes localidades em que foram coletados, os fósseis apresentam células preservadas, divisões da parede celular e remanescentes orgânicos que não seriam possíveis em rastros de animais que teriam apenas passado pelo sedimento.
Além disso, a distribuição dos fósseis no material apresenta três diferentes classes de tamanho, sugerindo se tratar de diferentes espécies, possivelmente vivendo num consórcio microbiano. A população maior compartilha similaridades com algas verdes ou vermelhas, enquanto as populações menores podem ser algas, cianobactérias ou bactérias oxidantes de enxofre.
“Existem partições côncavas e convexas, filamentos enrolados, células sem sedimento no interior, mas com matéria orgânica. São evidências muito mais próximas de bactérias ou algas do que meras marcas de perturbação provocada por animais”, encerra o pesquisador.
Com os resultados, os pesquisadores fazem um retrato mais preciso do período que antecedeu a explosão do Cambriano, trazendo mais evidências que podem ajudar a entender melhor as condições para o evento que transformou as formas de vida da Terra.
O artigo Proposed Ediacaran meiofaunal burrows from Brazil are pyritized algal/microbial consortia pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1342937X26000420.
Fonte ==> Folha SP