Instituto de Estudos Brasileiros abre seminário internacional em homenagem ao centenário de Milton Santos

Instituto de Estudos Brasileiros abre seminário internacional em homenagem ao centenário de Milton Santos

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Se vivo, o geógrafo Milton Santos teria completado 100 anos no dia 3 de maio. Ele faleceu em 2001 e o planeta passou por extraordinárias transformações desde então. Mas os conceitos que definiu continuam extremamente atuais e atualizáveis para o entendimento do mundo contemporâneo e para a definição de estratégias visando sua transformação.

O centenário de nascimento de Milton Santos (1926-2001) começou a ser celebrado nesta semana, em São Paulo, com a realização do Seminário Internacional “Milton Santos 100 anos: um geógrafo do século 21”, no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP).

Promovido pelo IEB-USP e por seu Programa de Pós-Graduação em Culturas e Identidades Brasileiras, em conjunto com o Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e o Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana, o evento reúne professores, pesquisadores, artistas, representantes institucionais e familiares para debater a obra e a trajetória desse homem, nascido em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, que foi um dos mais influentes intelectuais brasileiros do século 20.

A iniciativa conta com o apoio da FAPESP, do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) da França, da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (Anpege).

Mesa de abertura

A mesa de abertura, introduzida por Flávio Ribeiro, funcionário do IEB-USP, contou com as presenças de Marcelo Cândido da Silva, professor titular do Departamento de História da USP e diretor da BBM (representando o pró-reitor de Cultura e Extensão, Amâncio José Oliveira); Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP; Adrián Pablo Fanjul, diretor da FFLCH-USP; Mônica Duarte Dantas, diretora do IEB-USP; Anselmo Alfredo, chefe do Departamento de Geografia da USP; François-Michel Le Tourneau, pesquisador sênior do CNRS; Orlando Silva, deputado federal; e Karina Saccomanno, gestora-geral do Instituto Çarê.

Orlando Silva trouxe duas informações relevantes para as comemorações do centenário. A primeira diz respeito à destinação de recursos para a preservação do enorme acervo do geógrafo, composto por mais de 60 mil documentos, mantidos no IEB-USP: “Como forma de contribuição, destinei uma emenda parlamentar de R$ 400 mil para a preservação do acervo. É uma pequena retribuição à grandeza da obra de Milton Santos”, disse Silva.

A segunda refere-se à tramitação de um projeto de lei que reconhece o intelectual no plano simbólico: “Sou autor do projeto de lei que inscreve Milton Santos no Livro dos Heróis da Pátria. O projeto já foi aprovado na Câmara e aguarda votação final no Senado”. O deputado também informou que a Câmara dos Deputados realizará, em 19 de maio, um seminário dedicado ao pensamento do autor, ocasião em que será lançada uma publicação com uma intervenção inédita de Milton Santos sobre globalização e cidadania.

Marco Antonio Zago, enfatizou a importância do geógrafo para a própria definição da disciplina: “Sua principal contribuição foi a construção de uma geografia crítica, capaz de compreender o espaço como produto das relações sociais, econômicas e políticas, especialmente no contexto do capitalismo global. Ao redefinir o conceito de espaço geográfico, ele o apresentou como um ‘conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações’. Em outras palavras, estradas, cidades e infraestruturas só adquirem pleno sentido quando analisadas em articulação com as práticas sociais, as relações de poder e os fluxos econômicos que as produzem e transformam”.

Zago lembrou ainda que, quando reitor da USP, uma de suas últimas iniciativas foi o planejamento e a criação, no campus universitário, da Praça Milton Santos, inaugurada em dezembro de 2017. “Concebido pela arquiteta e artista plástica Regina Silveira, o projeto consiste em um labirinto formado por murtas que conduzem ao centro, onde uma intervenção no piso representa múltiplas pegadas humanas que se encontram. Com acerto, ela deu a essa obra a denominação de ‘Mundo’”, informou.



Quando reitor da USP, Zago, presidente da FAPESP, criou no campus universitário a Praça Milton Santos, concebida pela arquiteta e artista plástica Regina Silveira e inaugurada em dezembro de 2017 (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Memória, trajetória e atualidade

Uma segunda mesa, intitulada “Saudações ao Centenário” e coordenada por Fábio Betioli Contel, professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da USP, reuniu a geógrafa Marie-Hélène Tiercelin Santos, esposa e colaboradora de Milton Santos até o final de sua vida; a pesquisadora em comunicação Nina Santos, secretária adjunta de comunicação da Presidência da República e neta do geógrafo; o antropólogo congolês naturalizado brasileiro Kabengele Munanga, professor emérito da USP; Rosa Ester Rossini, professora titular sênior do Departamento de Geografia da USP; Wagner Costa Ribeiro, professor titular do mesmo departamento; Ana Duarte Lanna, professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, representando Ana Clara Torres Ribeiro; Rodrigo Hidalgo, professor do Instituto de Geografia da Pontificia Universidad Católica de Chile e representante do Prêmio Milton Santos do Encontro de Geografias da América Latina e do Caribe (EGALC); Carlos de Almeida Toledo, professor do Departamento de Geografia da USP e diretor da AGB; Paulo César Zangalli Júnior, presidente da Anpege; e Karina Leitão, professora da FAU-USP e representante da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

Em uma das falas mais marcantes, Marie-Hélène Tiercelin Santos resgatou a dimensão pessoal e menos visível da trajetória do geógrafo, marcada pelo exílio após o golpe civil-militar de 1964. Nascida na Argélia, mas de cultura francesa, ela foi aluna de Milton Santos em Bordeaux, na França, e, mais tarde, casou-se com ele em Porto Príncipe, no Haiti, em 1972. “Vivemos então uma longa fase de nomadismo, sempre com malas e baús cheios de livros e manuscritos, atravessando universidades, cidades e países. Não foi uma trajetória glamourosa: foi uma vida de grande incerteza”, recordou.

Apesar das dificuldades, Marie-Hélène destacou o impacto formador dessa fase: “Em Cambridge, próximo a Boston, nos Estados Unidos, Milton ficou fascinado com as bibliotecas do MIT e de Harvard. Era como uma criança em uma loja de brinquedos”.

Nina Santos trouxe a discussão para o presente, destacando a atualidade do pensamento do avô diante das transformações tecnológicas: “Meu avô dizia que ninguém vê o mundo a partir do mundo, mas sempre a partir de um lugar”. Segundo ela, a expansão do ambiente digital exige uma reinterpretação das categorias geográficas: “Não faz mais sentido opor ‘virtual’ e ‘real’. O digital é parte do território usado na articulação entre sistemas de objetos e sistemas de ações”. E alertou para mudanças rápidas na percepção social da tecnologia: “Ignorar isso nos leva a interpretações equivocadas – como a passagem, em poucos anos, da internet vista como libertadora para a internet vista como ameaça à democracia”.

Um intelectual vivo e crítico das desigualdades

Kabengele Munanga destacou a permanência intelectual de Milton Santos e sua atuação crítica: “Falar de 100 anos de Milton Santos é falar de alguém que não morreu. Intelectualmente, ele continua vivo”. E ressaltou o caráter amplo de seus diálogos: “Conheci Milton em 1981, no Rio de Janeiro. A partir daí, construímos uma relação de amizade. Conversávamos sobre sociedade, África, Brasil, como intelectuais comprometidos com os problemas do mundo. Ele me contou como uma única conversa, na Universidade de Estrasburgo, com o geógrafo Pierre George, definiu sua trajetória. Isso mostra que um encontro pode valer mais do que muitos livros”.

Munanga enfatizou a dimensão de Milton como intelectual profundamente atento às injustiças, inclusive ao racismo: “Ele era alguém que não aceitava situações incompatíveis com sua dignidade. Chegou a recusar convites quando enfrentou discriminação”.

Atualidade e atualização da teoria

A conferência de abertura foi proferida pela geógrafa argentina María Laura Silveira. Aluna de Milton Santos e uma de suas colaboradoras mais próximas nos últimos anos de vida, ela é atualmente pesquisadora principal no Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet) e professora de pós-graduação na Universidad de Buenos Aires. Em sua fala, ela destacou a atualidade e a possibilidade de atualização da teoria de Milton Santos.

“Há uma pergunta recorrente em torno da atualidade da teoria [de Milton Santos] ou, como alguns preferem dizer, sobre a necessidade da sua superação, principalmente por parte de alguns críticos aos quais as permanentes transformações tecnológicas, econômicas, políticas e culturais do presente, e os anos que nos separam da publicação dos últimos livros do professor, poderiam, talvez, dar algum fundamento. Também porque não se trata de uma teoria apenas lógica, mas de uma teoria profundamente histórica. Essa questão da atualidade ou da famosa superação é uma pergunta que pode ser feita, ou deveria ser feita, entre discípulos e seguidores, para afastar o risco da cristalização. Afinal, como escreveu Merleau-Ponty, o nosso mundo está em devir, e esse devir envolve o saber, ele próprio. Sabemos todos que toda teoria é provisória, incompleta e, por isso, demanda permanente renovação, sobretudo para não se transformar num dogma. No entanto, esta teoria parece não apenas atual, mas suscetível de ser atualizada nos seus conteúdos empíricos, mantendo ainda a potencialidade das suas categorias sintéticas e analíticas”, argumentou.

Segundo Silveira, “Milton Santos parte do real e não de uma discussão epistemológica”. Essa abordagem levou a uma redefinição do papel do espaço: “O espaço não é um dado, o espaço é constituinte”. Ao discutir o conceito de espaço banal, central na obra do geógrafo, Silveira destacou sua dimensão política e social: “O espaço banal é o espaço de todos os agentes, de todos os trabalhos, de todos os capitais, de todas as técnicas e formas de organização”. E acrescentou: “O espaço banal é o lugar do conflito na cooperação e da cooperação no conflito, que levam a uma negociação permanente, explícita ou implícita, onde uns perdem sempre e outros ganham sempre”. Nesse espaço se produzem as tensões e possibilidades históricas: “São os mais fracos no espaço os que têm a força de portar o futuro”.

Edição especial da Agência FAPESP

A programação do seminário segue até sexta-feira (08/05) com mesas-redondas, conferências e visitas guiadas ao acervo de Milton Santos no IEB-USP.

Como parte das comemorações, a Agência FAPESP preparou uma edição especial dedicada ao centenário de Milton Santos, que será publicada na sexta-feira (08/05). A edição especial traz um longo e detalhado perfil biográfico, entrevistas em texto e vídeo com colaboradores e familiares e resenhas de dois dos livros mais importantes do geógrafo.



Mesas-redondas, conferências e visitas guiadas ao acervo de Milton Santos no IEB-USP seguem até sexta-feira (08/05), quando a Agência FAPESP publicará uma edição especial sobre o geógrafo (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)



Fonte ==> Folha SP

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