Humanos e macacos compartilham noção geometria, diz estudo – 27/07/2026 – Ciência

Babuíno cinza com pelagem densa sentado de perfil, estendendo o braço direito para tocar uma tela azul atrás de uma grade metálica ondulada.

Antes de aprender matemática na escola, crianças pequenas já compreendem muitas formas geométricas intuitivamente, segundo pesquisas. Agora, um novo estudo mostra que essa capacidade não é só dos humanos: ela é compartilhada com outros primatas.

O estudo com os achados foi publicado na última segunda-feira (20) no periódico PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences).

Em um experimento realizado com macacos e humanos, a doutoranda Jialin Li e colegas da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh (Estados Unidos), sugerem que a base do conhecimento geométrico em primatas não humanos e em crianças pré-escolares é a mesma.

“O nosso estudo utiliza dois modelos para interpretar conhecimento geométrico, uma mistura de interpretação perceptual —quão parecidos são os objetos— e representação simbólica —listar todas as propriedades do objeto, como linhas e ângulos—, algo observado tanto em macacos quanto em crianças pequenas”, disse Li, em entrevista à Folha.

O trabalho também teve a participação de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Rochester e do Parque Zoológico de Sêneca, em Rochester (NY), que juntos criaram o Portal dos Primatas (Primate Portal), um recurso de resolução de problemas usando telas automatizadas com auxílio de inteligência artificial.

No experimento, oito macacos, quatro da espécie Rhesus (Macaca mulatta) e quatro babuínos-oliva (Papio anubis), e 58 crianças de 3 a 6 anos de idade foram colocados para realizar uma tarefa de “correspondência por amostra” (“match-to-sample”, em inglês). Eles tinham de tocar em telas touch com a forma geométrica correspondente.

Caso acertassem, os macacos recebiam petiscos, e as crianças, adesivos coloridos, além de palavras de incentivo pelos pesquisadores do Kid Neurolab, da Escola Infantil de Carnegie Mellon, que realizaram o experimento infantil.

As imagens que apareciam na tela eram triângulos, círculos, retângulos e polígonos. Conforme avançavam no experimento, os formatos eram levemente distorcidos (aumentando o tamanho de um dos lados) ou girados, de forma a desafiar os participantes a reconhecerem os objetos sem que estes fossem sempre idênticos.

“Esperávamos, com isso, avaliar se os macacos e crianças acertavam a correspondência da imagem não comparando ‘pixel por pixel’ a figura, mas sim reconhecendo padrões e símbolos, por exemplo uma linha reta, um ângulo, e assim por diante —o que chamamos de representação simbólica”, explica Jessica Cantlon, neurocientista do departamento de Psicologia e autora sênior do estudo.

Tanto macacos quanto humanos apresentaram uma continuidade de interpretação perceptiva e representação simbólica dos objetos, sugerindo que a interpretação geométrica está na base ancestral dos primatas, e que os humanos aprimoraram essa capacidade ao desenvolver a linguagem.

“Para as crianças menores, de três e quatro anos, a representação simbólica foi muito similar com a observada nos macacos, sugerindo a existência de uma continuidade entre a intuição geométrica de primatas não humanos e humanos”, diz Li.

Os testes também foram realizados com 79 adultos da etnia Tsimane, povos originários da Bolívia, e 21 adultos americanos como controle, para eliminar vieses de idade e educação formal do experimento.

Nestas avaliações, os adultos americanos que passaram por educação formal tiveram interpretações perceptuais um pouco mais refinadas do que os indígenas Tsimane, mas a base de conhecimento geométrico estava presente em todos os participantes.

“Essa é uma evidência de como essa intuição geométrica tem suas raízes evolutivas, ela não foi um salto exclusivo da nossa espécie”, afirma Li. “A educação matemática formal é um refinamento da nossa forma de pensar as formas geométricas, por isso os adultos ocidentais têm um desempenho melhor do que os indígenas. No entanto, essa não é uma diferença muito significativa.”

Segundo as pesquisadoras, o estudo indica que humanos não começam a aprender geometria apenas quando entram na escola, mas já possuem uma capacidade não verbal de reconhecer propriedades como ângulos, lados e simetria, habilidade que depois é refinada pelo ensino formal. “O currículo formal amplia o número de propriedades geométricas percebidas, mas não cria essas capacidades do zero”, diz Cantlon.

Como conclusão, o estudo pode ajudar a compreender quais as possibilidades do ensino formal de explorar essas habilidades não verbais.

As cientistas pretendem continuar a pesquisa, utilizando técnicas de ressonância magnética para mapear quais áreas cerebrais são ativadas durante a construção da representação simbólica dos objetos e outros desafios lógicos no futuro.

“Se conseguirmos compreender melhor quais aspectos da cognição as crianças já trazem consigo quando chegam à escola, poderemos desenvolver estratégias de ensino que aproveitem essas intuições primitivas de uma maneira mais eficiente”, afirma Cantlon.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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