Hora de voltar aos livros de colorir – 30/07/2026 – Suzana Herculano-Houzel

A imagem mostra uma ilustração colorida de uma casa com um cachorro de pelagem encaracolada olhando pela janela. Ao lado do cachorro, há um gato preto. A casa tem um telhado rosa e flores coloridas na janela. No fundo, há um sol amarelo, nuvens brancas e várias casas em um cenário verde.

Como desgraça pouca é bobagem, eu resolvi não só escrever meus próprios livros didáticos –acrescentando à angústia das dezenas de artigos científicos por escrever– mas também ilustrá-los. Não que meus dotes artísticos deem conta de grandes coisas; o ponto é justamente que não dão, então minhas ilustrações são simples e se atêm ao principal. Isso é exatamente o que eu preciso, pois o objetivo desses livros não é ensinar detalhes, e sim os princípios fundamentais: os conceitos, definições e insights que nos livros tradicionais ficam soterrados em montanhas de informação.

Minhas ilustrações começam como desenhos no iPad que então precisam ser coloridos para dar destaque ao assunto da vez. O aplicativo simples que eu uso, Notability, me permite colorir facilmente, mas com uma condição: cada cor em um espaço tem que ser colorida de uma vez só, sem tirar o lápis da tela. Como estou colorindo por dentro de córtices cerebrais e cerebelares cheios de dobras, a tarefa por vezes leva vários minutos ininterruptos, sem tirar nem lápis nem olhos da tela.

E então entendi, finalmente, a mágica dos livros de colorir.

Sim, gostamos da sensação de controle sobre nossas ações, da oportunidade de escolher qual cor vai aonde, do sentimento de competência em manter a cor dentro das linhas (todos aqueles anos no jardim de infância serviram para alguma coisa!). Gostamos da sensação de tirar os lápis coloridos da gaveta e vê-los espalhados na mesa, como se fôssemos artistas, e, se não há lápis na gaveta, gostamos ainda mais de ter uma desculpa para ir à papelaria comprá-los em lindas caixas e estojos para nós mesmos, e não para filhos ou netos.

Sim, gostamos do prazer de fazer algo concreto tomar vida com nossas mãos, ainda que o desenho não seja nosso. Para alguns, confinados em suas gavetinhas em prédios de apartamentos, é a única oportunidade de se admirar um jardim feito do próprio punho, colorido como a gente quer. O mundo digital abre várias portas, mas rouba nossas oportunidades de produzir pilhas de páginas escritas à mão, virar páginas de papel, pendurar nossa produção na parede, admirar o jardim que muda um pouquinho a cada dia.

Mas nada disso se compara ao prazer de se sentir vivo e produzindo algo bonito, que só vem quando se tem a oportunidade de fazer algo bonito com as próprias mãos. Encontrei essa oportunidade com meu primeiro jardim e horta, depois com o crochê aprendido na pandemia.

E agora, colorindo meus próprios desenhos por necessidade profissional, descobri esse pedaço que me faltava para entender o sucesso dos livros de colorir. A atividade pode parecer inútil ou, pior, um desperdício de tempo, mas agora entendo que não é. Pelo contrário, a atividade focada, individual e intimista que ainda por cima produz resultados bonitos é um convite à reflexão, à divagação, ao pensamento criativo ditado pelas nossas próprias experiências, permitências, interesses e valores –muito diferente da experiência de rolar telas com as experiências e valores dos outros.

Nos dias de hoje, quando parece que se precisa sempre estar fazendo alguma coisa, encontrar tempo protegido para pensar na vida e se sentir vivo é uma dádiva. E se isso vem colorindo jardins e bichinhos, que seja. É muito melhor do que rolar tela.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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