Aceitar dói menos mesmo?

Karine Laini

Quase todo mundo conhece a sensação de não querer estar do jeito que está. Você fica triste e logo se pergunta o que fazer para melhorar. Sente medo e, junto, vem a vergonha de estar com medo. Erra numa conversa e, em vez de pensar no que faria diferente, começa a discutir internamente se aquele erro prova que você é imaturo. Deita para descansar, mas segue gastando energia tentando se arrumar por dentro. É aí que a ideia de aceitação entra: não para negar o sofrimento, mas para perguntar o que acontece quando, além de sofrer, a pessoa luta contra o fato de estar vivendo aquilo.

Pense em alguém apaixonado por uma pessoa que, desde o início, dá sinais de que não está disponível. Os sinais raramente chegam nítidos: vêm misturados com presença em alguns momentos, frases ambíguas, gestos que prometem mais do que sustentam.

Vai brotando ali a dor de perceber que talvez não exista o encontro que se desejava. Quando essa decepção não é reconhecida, ela não desaparece, se distorce. A pessoa gasta tanto esforço tentando desmentir a própria mágoa e justificar o outro que chega exausta na hora de decidir o que fazer. Aceitar, aqui, não é desistir da direção: é recuperar as mãos. Em vez de se defender do que sente, você ganha espaço para responder, dizer sim ou não, colocar um limite, sustentar uma conversa difícil, ir embora ou ficar, mas com clareza.

Essa sabedoria é antiga. No budismo, atribui-se ao Buda a frase: “Tudo o que não é seu, deixe ir.” Entre os estoicos, circulava o conselho de não pedir que as coisas aconteçam como queremos, mas de querê-las como acontecem. As duas tradições apontam para a mesma sobriedade difícil: a realidade não precisa ser aprovada para ser reconhecida, e abrir mão da ilusão de controle não tira nossa dignidade, às vezes é justamente o que devolve clareza às nossas ações.

O obstáculo é que muita gente cresce aprendendo uma regra implícita: algumas versões de você cabem no amor, outras não. Quando você está bem, educado, útil, controlado, tudo flui. Quando fica confuso, carente, intenso ou inseguro, o clima muda, basta um olhar, um tom de voz, um afastamento.

E então aprendemos cedo: não a sentir menos, mas a parecer menos afetados; não a deixar de doer, mas a mostrar uma versão fácil de amar. É assim que nasce uma vida organizada em torno da aceitação condicional dos outros, e por isso aceitar a si mesmo pode ser tão difícil: para muita gente, sentir certas coisas nunca pareceu apenas humano; pareceu perigoso.

Vale desfazer dois mal-entendidos. Aceitar não é resignar-se: dá para aceitar que está triste e procurar ajuda; aceitar o medo e entrar na situação temida, porque aquilo importa; aceitar que foi injustiçado e se defender. Aceitação é compatível com mudança, costuma, aliás, ser sua condição.

E aceitar também não é indulgência. Quem age impulsivamente, sem empatia, não o faz porque “se aceita demais”, mas porque suporta tão pouco a frustração e o próprio limite que precisa descarregá-los em alguém. Quando a aceitação falta, o erro se soma à vergonha do erro, e a frustração, à revolta por estar frustrado. Já quem não perde valor ao admitir uma falha olha para o erro com menos defensividade e mais disposição para reparar.

Então, aceitar dói menos mesmo? Às vezes não no primeiro minuto. No começo pode até doer mais, porque significa parar de se distrair, de discutir com o fato, de exigir que a realidade já esteja arrumada. Mas depois costuma doer mais limpo.

Dói sem a humilhação de precisar ser outro para ser compreendido, sem a violência de transformar a própria humanidade em defeito. Quando você consegue ficar ao lado do que sente sem se abandonar, a dor não desaparece por mágica, mas pode virar um mensageiro do que precisa da sua atenção. E isso, às vezes, já é o começo mais humano de uma mudança bem real.

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