Método analisa fluidos biológicos em busca de moléculas específicas produzidas por células tumorais ou pelo próprio organismo em resposta ao tumor (foto: Shutterstock)
Gotas de sangue podem antecipar o sinal de alerta contra o câncer
06 de outubro de 2026
Roseli Andrion | Pesquisa para Inovação – Na luta contra o câncer, o tempo costuma ser o recurso mais valioso e, ao mesmo tempo, o mais escasso. Descobrir a doença nas fases iniciais transforma a perspectiva de tratamento ao aliviar o impacto das abordagens invasivas e garantir mais esperança a quem enfrenta o diagnóstico.
Na tentativa de amenizar essa jornada, os pesquisadores Daniela Fernandes e Cristiano Jayme, cofundadores da startup Diasci, voltaram seus esforços para a combinação da biópsia líquida com a nanotecnologia para diagnóstico. Eles desenvolveram um sistema de alarme precoce em que uma gota de sangue pode revelar alterações sutilíssimas do organismo e, assim, encurtar o caminho entre a dúvida e o cuidado necessário.
Desenvolvida com o apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, em parceria com o Sebrae Startups, a solução fundamentada em biossensores eletroquímicos surge como uma alternativa promissora e acessível para o rastreamento precoce de tumores. No entanto, ainda se encontra em estágio pré-clínico e de validação analítica e precisa passar por rigorosos testes de aprovação clínica para demonstrar sua eficácia.
A tecnologia apoia-se no conceito de biópsia líquida. O método analisa fluidos biológicos em busca de moléculas específicas produzidas por células tumorais ou pelo próprio organismo em resposta ao tumor. Essas substâncias, conhecidas como biomarcadores tumorais, circulam pelo sangue em concentrações baixas nas fases iniciais da enfermidade.
Estudos de genômica tumoral e biópsia líquida — como levantamentos da Universidade Johns Hopkins e análises publicadas em revistas científicas como a Nature e o Journal of Clinical Oncology — indicam que biomarcadores podem circular na corrente sanguínea de cinco a dez anos antes que a lesão se torne visível em exames de imagem convencionais. “Um paciente com estadiamento mais baixo da doença custa, segundo dados sobre tumores de mama, de quatro a cinco vezes menos quando a detecção ocorre no início em vez de em estágio avançado”, afirma Jayme ao Pesquisa para Inovação.
Alerta inicial
O funcionamento do sistema lembra o dos glicosímetros portáteis utilizados por diabéticos, mas a sensibilidade molecular é voltada para alvos oncológicos. Uma gota de sangue é colocada sobre a superfície de um eletrodo impresso que contém elementos de reconhecimento biológico capazes de se ligar seletivamente a biomarcadores de alguns tipos de tumores de pâncreas, cérebro e pulmão.
Quando o marcador entra em contato com a superfície sensível há uma reação química de oxirredução (transformação química que envolve a transferência de elétrons entre substâncias), que emite um sinal elétrico mensurável. “Começamos pelo câncer de pâncreas porque ele é muito silencioso, agressivo e normalmente descoberto em fase avançada”, diz Fernandes.
Os pesquisadores sublinham que a ferramenta não substitui a biópsia tradicional. “A ideia é alertar quando o tumor ainda está em estágio inicial. A biópsia continua sendo o padrão-ouro no diagnóstico oncológico, mas queremos simplificar o processo com um exame de sangue para encaminhar o paciente de maneira mais rápida”, pondera Jayme. “O paciente pode fazer exames a cada um ou dois anos como rotina preventiva para ser alertado no início da doença.”
Atualmente, o rastreamento e o acompanhamento de tumores dependem de exames de imagem de alta complexidade, como a tomografia por emissão de pósitrons (PET-CT) e a ressonância magnética. No Brasil, uma PET-CT custa, em média, R$ 3,5 mil na rede privada — o valor de tabela pago pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é de R$ 2.107,22, o que restringe a oferta na rede pública.
Além do custo, dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) revelam severa desigualdade geográfica: há cerca de 120 aparelhos de PET-CT em todo o país, concentrados nas grandes capitais das regiões Sul e Sudeste. Com isso, mais de 110 milhões de brasileiros não têm acesso local à tecnologia.
O biossensor portátil seria uma alternativa para descentralizar a atenção médica. Os desenvolvedores estimam que o custo final do teste — já com o dispositivo de descarte, os reagentes e o laudo técnico — seja de US$ 40 a US$ 50. Estão nos planos da equipe a nacionalização da produção dos eletrodos, o que pode baratear a tecnologia ao reduzir a dependência de insumos biológicos importados, cujo trâmite alfandegário leva até 60 dias úteis.
Além disso, o dispositivo pode ser utilizado em unidades básicas de saúde (UBS) e em regiões afastadas das metrópoles. Em um país com dimensões continentais como o Brasil, essa triagem simplificada evita deslocamentos desnecessários e agiliza a entrada do paciente na linha de cuidado oncológico. “Nossa proposta é democratizar e descentralizar o acesso. Queremos oferecer uma alternativa mais barata que exames como a ressonância ou o PET-CT”, conta Jayme.
Monitoramento de pacientes
Além do diagnóstico inicial, os cientistas da Diasci pretendem atuar no monitoramento de pacientes em tratamento. “No início, falávamos apenas em diagnóstico, mas hoje avaliamos também o monitoramento de pacientes em tratamento com medicamentos-alvo. Exames recorrentes podem indicar se a medicação realmente está sendo efetiva”, ressalta Fernandes.
Incubada no Supera Parque de Inovação e Tecnologia, em Ribeirão Preto, a startup participou de programas de incentivo a empreendedorismo científico, como o Catalisa ICT, do Sebrae, e recebeu apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do próprio PIPE-FAPESP. “Como startup na área da saúde, onde tudo é muito caro e moroso, somos muito gratos pelo fomento público. Como viemos da universidade pública, criar uma tecnologia para o SUS é uma forma de devolver esse investimento para a sociedade.”
A Diasci atualmente integra edital-piloto promovido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para dispositivos médicos inovadores. A expectativa dos fundadores é concluir os testes até meados de 2027 para chegar ao mercado em até dois anos após a chancela regulatória.
Para atingir esse objetivo, a tecnologia precisará passar por todo o rito regulatório estabelecido pela Anvisa. O processo começa com a validação analítica em bancada, que demonstra em laboratório a sensibilidade, a especificidade, a estabilidade e o limite de detecção de biomarcadores. Em seguida, realiza-se a validação clínica, primeiramente com amostras de biobancos e depois em ensaios prospectivos com pacientes, sempre mediante aprovação prévia de comitês de ética em pesquisa. Após a concessão do registro e a entrada no mercado, o dispositivo permanece sob monitoramento contínuo por meio das ações de tecnovigilância.
Esse esforço regulatório e científico insere-se em um cenário no qual as biópsias líquidas já são uma realidade aprovada no Brasil e no exterior. Nos Estados Unidos, a agência regulatória de alimentos e fármacos – o FDA – já autorizou testes de sequenciamento genético para mapear mutações em tumores sólidos e para o rastreamento de câncer colorretal via sangue. No Brasil, a Anvisa já regulamenta exames de biópsia líquida em rotinas oncológicas para identificar mutações genéticas específicas em casos avançados de câncer de pulmão (gene EGFR) e de mama (ESR1/PIK3CA). A grande vantagem da tecnologia brasileira em relação às alternativas comerciais existentes é o custo: enquanto os exames atuais dependem de sequenciamento genético complexo e de alto valor financeiro, os biossensores eletroquímicos visam oferecer uma triagem barata, rápida e viável para implementação em larga escala no SUS.
Cooperação com o Icesp
Para acelerar a chegada da tecnologia ao SUS, a equipe participa de iniciativas de inovação aberta, como o Hackathon SUS, e formalizou cooperação científica com o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). A parceria, coordenada por Roger Chammas, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e um dos pesquisadores principais do projeto, garante acesso a amostras de pacientes, essenciais para validar os parâmetros do teste. “O Icesp nos abriu as portas quando tínhamos apenas uma ideia e um sonho, e é fundamental nessa construção conjunta.”
Essa abordagem retrospectiva permite calibrar a sensibilidade dos biossensores e comparar seus resultados com diagnósticos já confirmados em prontuário, sem expor pessoas a intervenções. Contudo, para que a validação clínica seja completa e aceita pelos órgãos regulatórios, o projeto precisará avançar para uma segunda fase, composta por um estudo clínico prospectivo envolvendo pacientes reais acompanhados em ambiente hospitalar.
Conversas iniciais com operadoras de saúde e gestores públicos reforçam a introdução gradual da tecnologia no sistema de saúde nacional. A entrada inicial no mercado privado deve garantir a escala necessária para baratear a oferta e viabilizar a posterior incorporação ao SUS. A expansão futura prevê a ampliação da plataforma para rastrear biomarcadores de outros tumores de alta incidência, como o câncer de mama, e transformar a medição eletroquímica em um hábito preventivo na saúde pública.
Estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca) apontam que o Brasil registra cerca de 704 mil novos casos de câncer a cada ano. Cerca de 2% dos diagnósticos e 4% das mortes no país são por câncer de pâncreas, que apresenta taxa de sobrevivência reduzida, vinculada ao diagnóstico tardio. A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que a detecção em estágios iniciais eleva os índices de cura e diminui o impacto financeiro sobre os sistemas de saúde.
Fonte ==> Folha SP