Entre as autoridades presentes estiveram Vanda Oliveira, secretária da Mulher de Sorocaba, e Viviane Teixeira, titular da Coordenadoria de Igualdade Racial da Secretaria da Cidadania do município, que ressaltaram a importância da articulação entre poder público, instituições de apoio e iniciativas voltadas à equidade racial no desenvolvimento econômico local.
Além de apresentar o Ginga Afrotech Hub e abrir as inscrições para a nova edição, o Ginga Talks teve como objetivo central articular o ecossistema local de empreendedores negros, promovendo conexões entre founders, lideranças institucionais e iniciativas de apoio ao desenvolvimento de negócios. A proposta foi estimular a troca de experiências, fortalecer redes e construir caminhos coletivos para enfrentar desafios comuns ao afroempreendedorismo.
Dinâmica revela desafios comuns e fortalece conexões
Antes do painel principal, os participantes participaram de uma dinâmica coletiva que promoveu a troca direta entre empreendedores negros de diferentes segmentos. Em pequenos grupos, foram compartilhados desafios cotidianos, como a dificuldade de acesso a crédito, a formalização dos negócios, a escassez de referências e a solidão de empreender sem redes de apoio consolidadas.

A atividade evidenciou que, apesar da diversidade de áreas de atuação, muitos obstáculos se repetem. Racismo estrutural, baixa visibilidade e limitações no acesso a oportunidades surgiram de forma recorrente. Para muitos participantes, o simples ato de verbalizar essas experiências em um ambiente seguro já representou um avanço significativo.
A dinâmica foi mediada por Érika Lima e Tamila Santos, representantes da Darwin Startups, que conduziram as discussões de forma participativa, incentivando a escuta ativa e a construção coletiva de reflexões.
Painel de cases aprofunda trajetórias femininas no empreendedorismo negro
O momento mais marcante do Ginga Talks foi o painel de cases inspiradores, mediado por Tamila Santos, que conduziu a conversa com foco no aprofundamento das trajetórias, e não apenas nos resultados. “Aqui não estamos falando só de sucesso, mas de processos, escolhas difíceis e resistência cotidiana”, destacou.
A primeira a compartilhar sua história foi Fabiana Costa, fundadora da Obá Moda Afro e da Tribo Roots. Sua trajetória empreendedora nasceu da necessidade de afirmar identidades historicamente invisibilizadas. Para Fabiana, a moda sempre foi uma ferramenta de comunicação, pertencimento e resistência.
“Durante muito tempo, eu não me via representada. Criar a Obá foi uma forma de dizer que nossa estética, nossa história e nossa ancestralidade têm valor. Empreender, nesse contexto, nunca foi só sobre vender roupa”, afirmou. Em sua fala, Fabiana também abordou os desafios de sustentar um negócio afrocentrado em um mercado que, muitas vezes, exotiza ou marginaliza expressões culturais negras.

Na sequência, Juliana Borges, do Hub Lar Arquitetura, trouxe a perspectiva de quem empreende em um setor tradicionalmente elitizado. Arquiteta e empresária, ela relatou as barreiras enfrentadas para ser reconhecida profissionalmente.
“Eu precisei provar o tempo todo que era capaz, mesmo tendo formação e competência. Muitas portas não se fecham explicitamente, mas simplesmente não se abrem”, afirmou. Para Juliana, iniciativas como o Ginga representam uma virada de chave. “Quando a gente se conecta com outras pessoas que vivem realidades parecidas, entende que o problema não é individual. Isso fortalece.”
Encerrando o painel, Claudia Couto, proprietária de um estúdio de beleza, emocionou o público ao relatar uma trajetória marcada pelo empreendedorismo por necessidade. Claudia contou que iniciou o negócio diante da falta de oportunidades no mercado formal.
“Eu não sonhava em empreender, eu precisava sobreviver. Com o tempo, entendi que aquele espaço podia ser mais do que trabalho: podia ser acolhimento”, relatou. Hoje, segundo ela, o estúdio também funciona como um espaço de escuta, autoestima e fortalecimento de mulheres. “Cuidar do outro também é uma forma de empreender”, completou.
Empreendedorismo como ferramenta de transformação social
As falas das empreendedoras evidenciaram um ponto comum: o empreendedorismo negro vai além da dimensão econômica. Ele carrega impactos sociais, culturais e emocionais profundos, funcionando como estratégia de geração de renda, afirmação identitária e transformação social.
Ao final do painel, o público respondeu com longos aplausos, em um reconhecimento coletivo das histórias compartilhadas. Para Alexandre Martins, esse é justamente o papel do Ginga Talks. “Quando essas trajetórias ganham visibilidade, abrimos caminhos para que outras pessoas também se reconheçam como empreendedoras possíveis”, concluiu.
Fonte ==> Sebrae