Centenas de ativistas pelos direitos dos animais em Wisconsin (Estados Unidos) foram impedidos pela polícia e seguranças particulares quando tentavam libertar milhares de beagles de um criadouro com fins para venda a laboratórios de pesquisa e para experimentos realizados no local.
Policiais e seguranças dispararam gás lacrimogêneo e balas de borracha no último sábado (18) contra os cerca de mil manifestantes, segundo testemunhas, para impedi-los de entrar na instalação, chamada Ridglan Farms, um criadouro de cães registrado pelo estado que foi acusada de maus-tratos a animais. A Ridglan cria beagles para pesquisas biomédicas voltadas ao aprimoramento da medicina veterinária. A empresa negou que maltrate animais.
A invasão à Ridglan Farms, localizada a cerca de 50 quilômetros de Madison, a capital do estado, vinha sendo planejada há semanas, permitindo que a instalação e a polícia se preparassem para o que os manifestantes chamaram de ação civil destinada a libertar os animais.
Ativistas afirmaram que pelo menos 26 pessoas foram presas. Elise Schaffer, porta-voz do Gabinete do Xerife do Condado de Dane, disse que os policiais apreenderam equipamentos dos ativistas que poderiam ter sido usadas para arrombar o prédio, mas nenhum cão foi levado.
Os manifestantes, organizados pelo grupo nacional de direitos dos animais Direct Action Everywhere (“Ação Direta em Todo Lugar”), conseguiram invadir a mesma instituição em 15 de março e levaram 22 beagles, que posteriormente foram adotados.
Em 2025, um promotor que cuidava do caso apresentou um relatório afirmando que a Ridglan Farms havia realizado experimentos nos beagles que constituíam maus-tratos a animais. Mas o promotor disse que a empresa não seria acusada com a condição de que entregasse sua licença de criação de animais até 1º de julho, o que encerraria sua capacidade de vender cães para laboratórios externos.
A empresa pode continuar a realizar experimentos em seus beagles, embora ex-funcionários tenham testemunhado que os cães passaram por cirurgias oculares sem anestesia geral.
Wayne Hsiung, fundador do Direct Action Everywhere, disse em uma publicação online em março que buscava 2.000 pessoas dispostas a se reunir na Ridglan Farms neste mês e “usar a não violência para derrubar as paredes da instalação e resgatar os cães”. O distrito de Blue Mounds, onde fica a instalação da Ridglan, tem uma população de menos de mil habitantes.
O plano para uma segunda invasão levou o Gabinete do Xerife do Condado de Dane a trazer reforços, incluindo policiais de Oregon e Black Earth, em Wisconsin, policiais estaduais e a própria força de segurança privada da Ridglan, disse Schaffer. Os organizadores tentaram negociar com a Ridglan Farms para realocar os beagles, mas não tiveram sucesso. Um porta-voz da empresa disse que pessoas entraram em contato perguntando sobre a compra dos cães, mas se recusou a comentar mais.
Uma barreira de policiais aguardava os manifestantes, que chegaram à Ridglan Farms na manhã do último sábado (18) vestidos inteiramente de preto ou com macacões brancos de laboratório, e as autoridades policiais comunicaram com alto-falantes que os invasores seriam presos.
Por volta das 9h, a polícia prendeu Hsiung antes que ele entrasse no local, alegando causa provável. A confusão acabou escalando rapidamente, quando a polícia prendeu manifestantes que haviam rompido a cerca ao redor da propriedade.
“Apenas um sistema profundamente corrupto usará gás lacrimogêneo e balas de borracha contra ativistas pacíficos que salvam cães”, disse Hsiung em um comunicado da prisão. Ele foi acusado de invasão.
Schaffer disse que os manifestantes haviam sido avisados de que seriam atingidos por gás lacrimogêneo, um alerta que alguns disseram não ter ouvido.
Por volta das 10h, alguém atravessou o portão da frente da Ridglan Farms com uma caminhonete e foi preso pela polícia.
Um porta-voz da Ridglan Farms disse que os ativistas tentaram invadir várias vezes por todos os lados da instalação de pesquisa.
Ele se recusou a comentar sobre as ações dos policiais.
Fotos do local mostram policiais apontando rifles para um manifestante deitado no chão. Jenny McQueen, que dirigiu de Toronto com seu marido e meia dúzia de outros canadenses para retirar os cães, disse que os policiais começaram a jogar latas de gás lacrimogêneo por cima da cerca quase imediatamente após as 9h. McQueen disse que foi atingida com spray de pimenta no rosto.
“Enquanto eu filmava, vi policiais com rifles e munição passando zunindo por mim”, disse McQueen, acrescentando que não ouviu os policiais alertarem os manifestantes antes de atirarem. “Vi uma mulher ser atingida no ombro com uma bala de borracha.”
Policiais chutaram e espancaram um homem enquanto ele tentava entrar por um buraco na cerca, e depois o puxaram para dentro. O homem, identificado pelos organizadores como Nicholas Dickman, foi preso. Uma fotografia o mostra deitado no chão, com o rosto ensanguentado e dentes faltando.
Jennifer Ozanne, uma manifestante que viajou da Califórnia para tentar resgatar os beagles, chegou às 8h45 e encontrou fardos de feno no local para impedir que as pessoas se aproximassem da cerca, que tinha arame farpado no topo. Ela disse que viu manifestantes sendo atingidos com spray de pimenta e baleados com balas de borracha.
Fonte ==> Folha SP – TEC