Mídia Ciência
Estudo identifica proteína que protege as células de defesa
Experimentos com camundongos mostram que a XPC, ligada ao reparo de DNA, é essencial para a função de células imunes, com implicações para doenças autoimunes, infecciosas e câncer
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Estudo identifica proteína que protege as células de defesa
Experimentos com camundongos mostram que a XPC, ligada ao reparo de DNA, é essencial para a função de células imunes, com implicações para doenças autoimunes, infecciosas e câncer
A investigação demonstrou que a proteína XPC, que atua diretamente em reparo de lesões no genoma, também desempenha um papel central no processo de diferenciação dos linfócitos (imagem: Jefferson Antônio Leite et al./Nature Communications)
Thabata Oliveira | Agência FAPESP * – Estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e publicado na Nature Communications identificou um mecanismo fundamental para a sobrevivência e função das células de defesa, revelando como os linfócitos T preservam seu material genético mesmo sob condições extremas de estresse oxidativo, estado que normalmente causaria danos severos ao DNA.
A investigação demonstrou que a proteína XPC, que atua diretamente em reparo de lesões no genoma, também desempenha um papel central no processo de diferenciação dos linfócitos. A descoberta amplia a compreensão sobre o funcionamento do sistema imunológico e abre novas frentes de pesquisa para o estudo de doenças autoimunes, infecciosas e câncer.
O estudo – apoiado pela FAPESP (projetos 17/05264-7, 23/07482-2, 19/19435-3, 24/08802-3, 24/08360-0 e 22/13289-8) – foi coordenado pelo professor Niels Olsen Saraiva Câmara, do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.
O trabalho contou ainda com a colaboração de cientistas das universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ), de Goiás (UFG) e de São Paulo (Unifesp), das universidades de Mainz e Rostock, na Alemanha, e da Harvard Medical School, nos Estados Unidos.
No estudo, os pesquisadores investigaram os linfócitos T, células que circulam continuamente pelo organismo em busca de ameaças. Quando reconhecem estruturas de microrganismos – os chamados antígenos –, são ativados e passam por um processo intenso de multiplicação e especialização, formando um “exército” de células. Entre elas, estão as Th17.
As células Th17 são fundamentais na defesa contra bactérias e fungos, especialmente em superfícies como intestino e pele. “Elas produzem uma proteína chamada IL-17, que atua como mensageira entre as células do sistema imunológico. Essa proteína promove a inflamação, ajudando o organismo a combater essas infecções”, explica Jefferson Antônio Leite, primeiro autor do estudo, cujo doutorado foi orientado por Câmara.
Apesar de essenciais para a defesa do organismo, as células Th17 também podem causar problemas. Quando a produção de IL-17 é excessiva ou desregulada, ocorre uma inflamação exacerbada, que promove doenças autoimunes. Leite cita como exemplos a psoríase, o diabetes tipo 1 e as doenças inflamatórias intestinais, como a colite ulcerativa e a doença de Crohn.
Tanto no combate a infecções quanto no contexto dessas doenças, essas células passam por um processo de multiplicação acelerada. Como consequência, acumulam danos causados por radicais livres (estresse oxidativo). “Até então, não se sabia como essas células lidavam com o estresse oxidativo gerado durante sua ativação. O que mostramos é que as células Th17 utilizam uma proteína de reparo de DNA, chamada XPC, para controlar esse estresse. Quando as células não têm a XPC, elas acumulam mais dano no DNA e não conseguem se tornar uma célula Th17 funcional”, afirma o pesquisador.
As células Th17 são naturalmente pró-inflamatórias. Ou seja, quando funcionam corretamente, promovem inflamação como parte da resposta de defesa do organismo.

Em um modelo experimental de inflamação intestinal, camundongos com esse sistema de reparo de DNA funcional desenvolveram colite, pois suas células Th17 estavam ativas e capazes de induzir inflamação. Já os animais sem a proteína XPC não apresentaram inflamação, porque essas células não conseguiam se diferenciar nem funcionar adequadamente. Na prática, isso indica que o reparo de DNA é fundamental para que essas células cumpram seu papel pró-inflamatório.
Além disso, a ausência da proteína XPC levou essas células a adquirir características de linfócitos T reguladores (Treg) – um tipo celular que ganhou destaque recente com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2025 (leia mais em: agencia.fapesp.br/56101). Ao contrário das Th17, as Treg exercem um papel anti-inflamatório, ajudando a conter respostas imunes exacerbadas. “Os linfócitos Th17 têm alta plasticidade. Dependendo do microambiente, podem deixar de produzir IL-17 e passar a produzir citocinas anti-inflamatórias”, explica Leite.
Doença genética rara
A proteína XPC já era conhecida no contexto do xeroderma pigmentoso, uma doença genética rara e hereditária. Pacientes com essa doença possuem mutações que impedem o funcionamento dessa proteína de reparo de DNA, o que os torna extremamente suscetíveis ao câncer de pele por causa dos danos causados pela radiação ultravioleta da luz solar.
“Os danos no DNA podem gerar mutações que, por sua vez, levam ao câncer. Por isso, pacientes com xeroderma pigmentoso desenvolvem muitos tumores nas regiões expostas à luz solar, principalmente na face, muitas vezes ainda antes dos dez anos de idade”, explica o professor Carlos Frederico Martins Menck, coautor do estudo e referência na pesquisa sobre a doença.
Para Menck, o principal avanço do trabalho está na conexão entre dois campos que tradicionalmente caminharam separados: reparo de DNA e imunologia. “O sistema imunológico precisa do sistema de reparo para funcionar direito”, resume.
O estudo também abre caminho para explicar outros sintomas observados nesses pacientes. Segundo Leite, “estudos clínicos indicam maior suscetibilidade a infecções, especialmente urinárias”. Esse quadro pode estar relacionado às células Th17, essenciais para a defesa em superfícies mucosas, como o trato geniturinário. “A gente acredita que essas células não estão funcionando corretamente nesses pacientes”, afirma.
Menck sugere que as implicações vão além. Como o sistema imunológico também atua no controle de tumores, sua falha pode ter um efeito duplo nesses pacientes: o aumento de mutações favorece o surgimento de tumores, enquanto a capacidade de combate das células de defesa é reduzida. “Se eles têm mais geração de células tumorais e uma defesa pior, é óbvio que vão desenvolver mais tumores”, explica. O pesquisador destaca ainda que a conversão de células Th17 para um perfil semelhante ao de Treg pode agravar esse cenário, já que linfócitos T reguladores tendem a favorecer o crescimento tumoral ao suprimir a resposta imune antitumoral.
Próximos passos
Com os resultados em mãos, o grupo agora busca avançar do modelo animal para humanos. Uma das principais frentes é investigar o sistema imunológico de pacientes com xeroderma pigmentoso. “Vamos começar a estudar o sistema imunológico desses pacientes – algo que praticamente não existe na literatura”, afirma Leite. Até agora, a equipe já reuniu uma coorte de dez pacientes, o que já representa um avanço, considerando a raridade da doença.
Outra linha de pesquisa envolve o potencial terapêutico da descoberta, especialmente em doenças inflamatórias. A ideia é testar estratégias para inibir o XPC de forma direcionada em células Th17, reduzindo a inflamação ou até reprogramando essas células para um perfil regulador. “Conseguimos, por exemplo, usar terapias gênicas para silenciar um gene específico”, explica Leite. Em modelos pré-clínicos, o grupo pretende modificar essas células em laboratório e reintroduzi-las no organismo, abordagem conhecida como terapia autóloga.
Os pesquisadores também pretendem explorar o papel do XPC em outros contextos, como doenças autoimunes, câncer e resposta a vacinas. Resultados preliminares já indicam que camundongos sem essa proteína, quando induzidos a desenvolver esclerose múltipla, não apresentam sinais da doença. “Esse trabalho abriu um leque de possibilidades”, diz Leite. “Agora estamos explorando essas diferentes vertentes.”
O artigo Th17 cells require the DNA repair sensor xeroderma pigmentosum complementation Group C to control oxidative DNA damage in a murine model pode ser lido em: nature.com/articles/s41467-026-69914-y.
* Thabata Oliveira é bolsista de Jornalismo Científico da FAPESP vinculada ao Instituto de Química da USP.
Fonte ==> Folha SP