Quando a Vale concluiu, em 2018, a duplicação da Estrada de Ferro Carajás (EFC), um novo desafio surgiu quase imediatamente. A entrega de mais de mil quilômetros de redes elétricas com tecnologias inéditas exigia uma mudança profunda na forma de capacitar técnicos e eletricistas responsáveis pela operação e manutenção de toda essa infraestrutura. Foi diante desse cenário que nasceu uma solução idealizada pelo engenheiro José Israel de Almondes: um laboratório capaz de reproduzir, em ambiente controlado, praticamente todas as situações encontradas em campo.
A iniciativa deu origem ao Laboratório de Redes Elétricas e Energia do Corredor Norte da Vale, considerado um centro de excelência para treinamento, desenvolvimento tecnológico, testes de equipamentos e estudos voltados à confiabilidade das redes de distribuição. O projeto também foi apresentado no Congresso Brasileiro de Manutenção (ABRAMAN), um dos principais eventos técnicos do país voltados à gestão de ativos industriais.

Uma solução criada a partir de um problema real
Segundo os documentos técnicos, o Corredor Norte passou a operar uma configuração inédita de redes elétricas, reunindo postes circulares, cabos protegidos e isolados, transformadores ecológicos, religadores telecomandados e diferentes modelos de redes de distribuição ao longo de mais de mil quilômetros de ferrovia. A adoção dessas tecnologias elevou significativamente a complexidade das operações de manutenção.
A questão era simples, mas estratégica: como preparar profissionais para atuar em uma infraestrutura tão específica sem expô-los aos riscos de uma operação real?
Foi dessa necessidade que surgiu a proposta de construir um laboratório próprio, reproduzindo fielmente as estruturas existentes na ferrovia, mas em um ambiente seguro, controlado e preparado para treinamentos práticos.

Trazer a rede elétrica para o alcance das mãos
Um dos aspectos mais inovadores do projeto foi a criação de postes em escala reduzida. Em vez de realizar todo o treinamento apenas em estruturas convencionais de 12 metros de altura, José Israel de Almondes propôs cortar postes reaproveitados para criar versões de aproximadamente 3,5 metros, permitindo que eletricistas e técnicos tivessem acesso às estruturas diretamente do solo.
Ao lado dessas estruturas reduzidas, o laboratório também recebeu postes em tamanho real, possibilitando simulações completas de atividades executadas diariamente pelas equipes de manutenção, incluindo trabalhos em altura, abertura de chaves, instalação de equipamentos e procedimentos previstos pela NR-10.
Inovação com redução significativa de custos
Outro diferencial foi a forma como o projeto foi executado.
Inicialmente estimado em cerca de R$ 850 mil, o laboratório teve seu custo reduzido para aproximadamente R$ 190 mil graças ao reaproveitamento de materiais remanescentes das obras da ferrovia, utilização de equipamentos disponíveis e envolvimento das próprias equipes técnicas durante a construção da estrutura.
Além da economia, essa estratégia permitiu que parte do processo construtivo já servisse como etapa prática de capacitação para os profissionais envolvidos.
Resultados que ultrapassam o treinamento
Após a inauguração, em novembro de 2018, o laboratório passou a receber treinamentos periódicos para eletricistas, técnicos, engenheiros e operadores. As atividades incluem desde montagem e manutenção de redes de distribuição até simulações de emergência, inspeções preventivas, operação de religadores, trabalhos em altura e estudos de novas soluções para redes elétricas.

Os documentos apresentados mostram que, após a implantação do laboratório, houve redução significativa no número de falhas registradas nas redes elétricas, além de ganhos relacionados à padronização dos procedimentos, aumento da segurança operacional e desenvolvimento técnico das equipes.
Um ambiente voltado também para pesquisa
Desde sua concepção, o projeto foi pensado para ir além da capacitação interna. A estrutura permite o desenvolvimento de pesquisas, prototipagem de equipamentos, testes operacionais, estudos acadêmicos e parcerias com universidades, fabricantes e centros de pesquisa. Entre as aplicações futuras previstas estão projetos utilizando drones e inteligência computacional para identificação automática de falhas nas redes elétricas.
Mais do que criar um espaço de treinamento, José Israel de Almondes desenvolveu uma solução que integra capacitação, inovação, pesquisa aplicada e segurança operacional. Um projeto nascido de uma necessidade prática da engenharia ferroviária brasileira e que demonstra como inovação, muitas vezes, começa pela capacidade de transformar um problema cotidiano em uma oportunidade de aprendizado contínuo.
Confira, clicando no título a seguir, a apresentação do projeto disponível no canal Innovve TV:
Laboratório de Energia e Redes Elétricas – Corredor Norte
LinkedIn de José Israel de Almondes: @israelalmondes
Foto Capa Crédito: Acervo pessoal de José Israel de Almondes.
Referências:
ALMONDES, José Israel de; BEUTTENMULLER, Arthur Lucena de Souza; COSTA, Valério Breno Santos Nunes; MOURÃO, Matheus Rangel de Pinho; ARAÚJO, Deyvison Ribeiro de. Laboratório de Redes Elétricas e Energia: uma forma eficiente e acessível de prever e solucionar problemas. Vitória: Congresso Brasileiro de Manutenção – ABRAMAN, 2019.
ALMONDES, José Israel de. Laboratório de Energia: informações técnicas – Corredor Norte. Documento técnico. [S.l.: s.n.], 2018.