A prisão da mente: quando pensar demais deixa de ser inteligência

Rodrigo Rezende

Uma reflexão de Rodrigo Rezende

Eu sou Rodrigo Rezende.

Sou Profissional de Educação Física, American Fitness Trainer e Sports & Exercise Nutrition Coach, especialista em Biomecânica do Movimento, Fisiologia do Exercício e Nutrição Esportiva, desenvolvedor da Dieta Ondulatória e Psicoterapeuta e Psicanalista Clínico.

Existe uma frase que escuto com muita frequência.

“Eu penso demais.”

À primeira vista, isso parece uma qualidade. Nossa sociedade admira pessoas que analisam tudo. Que planejam tudo. Que antecipam todos os riscos. Que dificilmente erram.

Mas, depois de estudar mais profundamente a Neurose Obsessiva descrita por Freud, comecei a me perguntar:

Vivemos em uma época que glorifica o controle.

Controlamos calorias. Controlamos passos. Controlamos o sono. Controlamos investimentos. Controlamos produtividade. Controlamos humor. Tem gente que monitora até quantas horas ficou em jejum.

E quanto mais conseguimos controlar, mais a sociedade nos chama de disciplinados.

Mas existe uma fronteira muito delicada. O controle pode ser uma ferramenta. Ou pode se transformar em uma prisão.

Freud descreveu algo impressionante há mais de cem anos. Ele observou que algumas pessoas criavam rituais, verificações, repetições e pensamentos incessantes não porque quisessem, mas porque sentiam uma angústia insuportável caso não os realizassem. Esses atos funcionavam como tentativas inconscientes de impedir uma ameaça ou aliviar uma culpa que nem sempre era consciente.

Quando li isso, pensei imediatamente na nossa geração.

Hoje ninguém mais conta apenas dinheiro. Conta calorias. Conta proteínas. Conta seguidores. Conta curtidas. Conta quilômetros. Conta horas de produtividade. Conta minutos de sono profundo. Conta ciclos de respiração.

Estamos cercados por números. E existe uma pergunta que me inquieta:

Na minha prática clínica, vejo isso diariamente. A pessoa diz que quer emagrecer. Mas, na verdade, não consegue mais comer sem culpa.

Outra diz que ama treinar. Mas entra em sofrimento se perder um único treino.

Há quem pese os alimentos com precisão absoluta, mas já não consiga sentar à mesa com a família sem ansiedade.

Isso já não é mais saúde. É uma tentativa desesperada de manter a ilusão de que tudo pode ser controlado.

Freud chamava atenção para outro aspecto muito interessante. Na neurose obsessiva, os rituais quase nunca têm relação direta com aquilo que realmente está produzindo sofrimento. O conflito inconsciente é deslocado para pequenos atos aparentemente sem importância. É por isso que cerimônias, verificações e regras rígidas ganham tanta força: elas funcionam como substitutos simbólicos daquilo que não pode ser enfrentado diretamente.

E eu acredito que fazemos exatamente isso hoje. Não controlamos apenas porque gostamos de organização. Controlamos porque a vida é imprevisível.

Só que controlar a balança não impede o envelhecimento. Controlar os macronutrientes não impede perdas. Controlar a agenda não impede frustrações. Controlar o corpo não impede a morte.

No fundo, talvez estejamos tentando controlar aquilo que nunca poderá ser completamente controlado.

Outra coisa que me chamou atenção foi a comparação que Freud faz entre os rituais obsessivos e os rituais religiosos. Não porque sejam iguais. Mas porque ambos possuem repetições carregadas de significado para quem as pratica. A diferença é que, na neurose obsessiva, o sujeito frequentemente não sabe por que realiza aquele ritual; ele apenas sente que precisa fazê-lo para aliviar a angústia.

Quando li isso, pensei imediatamente na cultura da alta performance.

Será que não criamos novos rituais? O ritual do café às cinco da manhã. O ritual do banho gelado. O ritual dos suplementos. O ritual da rotina perfeita. O ritual da produtividade ininterrupta.

Nada disso é ruim por si só. O problema começa quando deixamos de escolher esses comportamentos e passamos a ser escolhidos por eles.

Na minha opinião, essa é uma das maiores epidemias silenciosas da atualidade. Confundimos disciplina com compulsão. Organização com rigidez. Excelência com perfeccionismo.

Freud também descreveu um traço muito interessante da personalidade obsessiva. Ele observou que muitos desses sujeitos apresentam características como excesso de escrúpulo, economia extrema, rigidez e teimosia, relacionando esses traços àquilo que chamou de erotismo anal na constituição psíquica. Independentemente da explicação metapsicológica adotada hoje, a descrição clínica continua impressionantemente reconhecível.

Talvez por isso tantas pessoas altamente eficientes sejam, ao mesmo tempo, profundamente infelizes.

Elas conseguem organizar a agenda. Mas não conseguem descansar. Conseguem administrar empresas. Mas não conseguem administrar a própria ansiedade. Conseguem controlar o corpo. Mas não conseguem controlar o medo de perder esse corpo.

Como profissional da Educação Física e da Psicoterapia, cada vez mais acredito que saúde não é ausência de desorganização.

Saúde é flexibilidade. É conseguir seguir um plano sem se tornar prisioneiro dele. É poder descansar sem culpa. É mudar de estratégia sem sentir que fracassou. É compreender que viver não é executar protocolos perfeitos. É adaptar-se à realidade.

Talvez a maior prisão da nossa geração não seja feita de grades. Ela seja feita de pensamentos. De verificações constantes. De listas intermináveis. De metas infinitas. E da falsa ideia de que, se conseguirmos controlar tudo, finalmente encontraremos paz.

Eu não acredito nisso. A paz nunca nasceu do controle absoluto. Ela nasce da capacidade de tolerar a incerteza.

Eu sou Rodrigo Rezende.

Depois de tantos anos trabalhando com o corpo humano e, agora, estudando profundamente a mente humana, percebo que o maior sofrimento nem sempre está no caos. Muitas vezes ele está na necessidade incessante de impedir que o caos aconteça. E talvez a verdadeira liberdade não seja viver uma vida perfeitamente organizada, mas desenvolver maturidade suficiente para continuar vivendo mesmo quando a vida foge completamente dos nossos planos.

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