Das notificações aos vídeos curtos: como as redes sociais te prendem sem você perceber

Ilustração no estilo colagem de mão segurando lupa sobre cérebro revelando curtida de rede social

Você já deve ter feito isso algumas vezes hoje. Aparece uma brecha de cinco minutos na correria da rotina, a mão vai para o celular. Você só acende a tela. Algumas notificações estão empilhadas. De duas, uma: ou você abre uma dessas notificações ou desbloqueia o celular e acessa algum aplicativo de rede social. Aí, pronto. Entrou no parque de diversões, com luzes, cores e sons por todos os lados para chamar sua atenção. Quando você quebra esse transe e volta para o que estava fazendo, aquela pausa de cinco minutos muito provavelmente virou uma pausa de dez. De 15 minutos. De meia hora. Menos de uma hora depois, o ciclo recomeça.

Nossa atenção está fragmentada. A minha, a sua. É raro conversar com alguém sobre isso e a pessoa não dizer que não consegue mais se concentrar. Ou até consegue, mas por pouco tempo. Alguns atribuem isso a sintomas da “Covid longa”. Outros, a sequelas da pandemia enquanto fenômeno social – os longos meses de isolamento, as intermináveis chamadas de vídeo, os incontáveis podcasts. Mas, no geral, essa fragmentação ocorre, em alguma instância, por conta do uso de redes sociais. E o Olhar Digital te explica os porquês nesta matéria.

Como as redes sociais sequestraram sua atenção

Para o neurologista, colunista do Olhar Digital e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Álvaro Machado Dias, o uso de redes sociais é um fenômeno comportamental que envolve impulsividade e compulsão.

“O comportamento impulsivo é aquele que faz com que você se atire às coisas antes de você pensar. É aquela lógica de você pegar o celular no bolso para dar uma checada no feed e ver o que está acontecendo sem você pensar que está fazendo isso”, explicou o neurologista numa edição do programa Olhar Digital News.

Já a compulsão “é a tendência a reiterar alguma coisa”, disse o professor. “É aquele reducionismo que faz você não ver mais nada a não ser o que você já viu antes.”

Como a impulsividade e a compulsão atuam juntas quando você puxa o celular para checar o feed rapidinho? “Através da impulsividade, a gente vai preenchendo os momentos da nossa vida com checagens de coisas irrelevantes do ponto de vista das suas urgências, da nossa existência”, disse o neurologista. “E através da compulsão, a gente passa horas e horas ‘scrollando’ [passando o dedo pela tela para rolar o feed, a timeline]. 

Um [impulsividade] é o movimento de iniciação e o outro [compulsão] é o movimento de continuidade.

Álvaro Machado Dias, neurologista, colunista do Olhar Digital e professor da Unifesp.

Design viciante

Quando você pega o celular, bate o olho nas notificações e acessa alguma rede social, seu cérebro libera dopamina. É o que explicou o doutor Gustavo Gattino, especialista em saúde de crianças e adolescentes, em entrevista ao Olhar Digital.

A dopamina é um neurotransmissor. Ou seja, é um mensageiro químico usado pelo cérebro para enviar sinais entre células nervosas. Ela funciona como o “combustível” do nosso sistema de recompensa e motivação. E é liberada quando sentimos prazer ou antecipamos uma conquista.

Curtida é uma das artimanhas das redes sociais para influenciar seu cérebro a liberar dopamina – Imagem: Roman Samborskyi/Shutterstock

“A forma como a dopamina é liberada por [conta de] uma notificação ou por algo relacionado ao que recebemos, via aplicativo ou tela, está diretamente relacionado a um tipo de prazer ou recompensa relacionados à expectativa”, explicou Gattino. “Como não sabemos exatamente o que vai aparecer, é ativada essa proposta dentro do sistema nervoso central.”

Esse é o mesmo princípio explorado por máquinas caça-níqueis. Pouco a pouco, as plataformas digitais treinaram seus usuários a se comportarem como apostadores, segundo a Revista Arco, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Ao olhar para o celular (ou pensar em fazer isso), vem aquela vontade acessar feeds e timelines para checar se há algum prêmio reservado para você. Uma curtida, um comentário, uma postagem sobre algo que você ama (ou odeia) já basta para o seu cérebro liberar dopamina. O perigo está nisso ocorrer diversas vezes ao longo do dia sem exigir muito esforço do usuário.

Ao falar sobre vício digital, o doutor Álvaro Machado Dias citou o filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han, autor do famoso livro Sociedade do Cansaço. “No vício digital, a captura é ambiental. Ele opera numa espécie de arquitetura da experiência (…) Byung-Chul Han fala que desenhos de experiências muito bons eles são verdadeiras ‘violências neuronais’. Acho essa expressão boa”, disse o neurologista.

Por que? “Dá a entender que aquilo, a despeito de não operar diretamente no domínio do cérebro, realmente entra e afeta o funcionamento dos nossos neurônios de formas muito vívidas”, explicou o professor da Unifesp.

Aqueles vídeos curtos irresistíveis

É fácil passar 47 minutos assistindo Reels no Instagram e/ou TikToks, né? Já passar 47 minutos assistindo uma TED Talk no YouTube é, no mínimo, mais desafiador. Às vezes, parece impossível de encarar sem ao menos uma pausa curta para – adivinha? – assistir Reels e TikToks.

“Quando rolamos a tela para um próximo vídeo [curto], nós ativamos o sistema nervoso central numa região chamada córtex cingulado anterior”, disse o doutor Gattino. Essa região atua como um centro de controle que conecta nossas emoções, pensamentos e tomadas de decisão. 

Mulher assistindo vídeo no TikTok
Feeds de vídeos curtos mexem com uma parte do seu cérebro que conecta emoções, pensamentos e tomadas de decisão – Imagem: Kaspars Grinvalds/Shutterstock

Quando você rola a tela em busca do próximo vídeo, o córtex cingulado anterior trabalha junto ao sistema de recompensa. Ele ajuda a avaliar o esforço de continuar arrastando a tela versus a expectativa do prazer (da dose de dopamina) que o próximo conteúdo aleatório pode trazer.

“Ao assistirmos um vídeo [curto], o nosso cérebro fica preso porque a interpretação do córtex cingulado anterior é: eu não sei se o próximo vídeo vai ser interessante ou não, mas, por via das dúvidas, vamos prestar atenção no que está acontecendo aqui – e o que está ao meu redor, fora da tela, não é tão importante assim”, explicou o especialista em saúde de jovens.

Gattino acrescentou que vídeos curtos fazem tanto sucesso hoje em dia porque “fomos acostumados, ao longo dos últimos anos, por meio dos meios de comunicação e mídias sociais, ao consumo de conteúdo assim”. “Fomos treinados a modificar o funcionamento do nosso córtex cingulado anterior para que a recompensa, o prazer da expectativa, possa ser associado a um material de curta duração.”

O efeito sobre os jovens

Tudo que você leu até aqui ocorre tanto entre adultos quanto jovens e idosos. Mas cada faixa etária tem suas particularidades. No caso de crianças e adolescentes, o doutor Gattino explicou que impactos e efeitos do uso de redes sociais são mais fortes, em comparação a adultos, “porque, nessa fase da vida, a formação de sinapses e a velocidade de processamento são muito maiores”.

Nós nunca deixamos de aprender e criar conexões. A diferença é que, durante a juventude, isso é feito de forma mais intensa e com velocidade maior. O que justamente acarreta num impacto negativo [do uso de redes sociais] muito maior.

Doutor Gustavo Gattino, especialista em saúde de crianças e adolescentes, em entrevista ao Olhar Digital.

Menino usando celular deitado na cama
Quando se é jovem, a formação de sinapses e a velocidade de processamento são maiores em comparação à fase adulta da vida – e isso amplifica efeitos nocivos das redes sociais – Imagem: Studio Nut/Shutterstock

Por que? “Quanto pior for o estímulo e aquele cérebro for se acostumando com determinados estímulos, ele vai sendo moldado”, disse o doutor. “Quem não foi acostumado a ler livros, participar de atividades presenciais, ter interações no mundo real, vai ter prejuízo muito grande porque não teve o estímulo necessário num período importante para criar habilidades duradouras.”

Neste contexto, passar horas a fio pulando de um feed para outro, de uma lista de DMs para outra, configura como “estímulos ruins” para jovens. E o resultado, segundo o doutor Gattino, são pessoas com dificuldade de pensar, raciocinar e interagir com outras pessoas de forma presencial, por exemplo.

Como se livrar do ‘transe’ causado pelas redes sociais

Se você é daqueles cujo tempo de tela num celular de uso estritamente pessoal passa das quatro horas, fazer o que o doutor Gattino chamou de “desmame digital” pode ser difícil. Mas não impossível.

Para o especialista, a primeira coisa a se fazer é justamente limitar o tempo de exposição a telas. Outra recomendação do doutor é evitar telas ao acordar e pouco antes de dormir. “O uso de telas causa um impacto muito grande no cérebro, que precisa, no início do dia, ser ativado com uma série de hormônios para que a pessoa possa ter boa disposição e, no final do dia, para que a pessoa consiga entrar em estado de repouso”, explicou Gattino.

“Além de limitar e proporcionar esse desmame das telas, realmente precisamos encontrar atividades analógicas”, acrescentou o especialista. Segundo ele, são atividades com gatilhos orgânicos do prazer de recompensa e de antecipação.

“Se eu faço algo que impacta as redes de prazer – serotonina, dopamina etc – eu consigo ativar regiões mais internas, como o núcleo accumbens, que realmente trazem uma sensação de prazer muito maior do que aquela ali liberada no contexto de telas e redes sociais”, disse Gattino.

Ilustração de homem acessando rede social
Achar o equilíbrio entre o mundo virtual e o real faz bem para o cérebro – Imagem: BestForBest/Shutterstock

O núcleo accumbens fica na parte mais interna e central do cérebro. E é a região exata que recebe as descargas de dopamina. Por isso, é frequentemente chamada de o “centro do prazer” ou o “botão de recompensa” do sistema nervoso.

“Precisamos ter experiências tais como caminhar na rua, ter contato com a natureza, interagir com música (escutando, dançando, tocando)”, exemplificou o especialista. “Tenha contato com outras pessoas sem uso de telas envolvido. Faça coisas diferentes na sua rotina – por exemplo: percorrer um caminho diferente, assistir um filme diferente, começar a aprender outro idioma.”

A principal recomendação do doutor Gattino é saber “como as pessoas viviam há 20 ou 30 anos atrás”. “Busque conversar com pessoas mais velhas, para que elas possam contar histórias de como o mundo era antes do advento das telas”, disse o especialista. As telas vieram para ficar. Isso é fato. Mas analógico e digital podem coexistir. Para o bem do seu cérebro, busque o equilíbrio.

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Fonte ==> Olhar Digital

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