Autoridades chinesas estão discutindo maneiras de reduzir os incentivos para que pesquisadores submetam suas descobertas a periódicos estrangeiros. Pequim se preocupa cada vez mais com a possibilidade de publicações acadêmicas servirem como canal para vazamentos de inovações industriais e tecnológicas.
O governo poderia pressionar universidades e instituições de pesquisa no país a reduzir ou eliminar o peso dado às publicações em periódicos internacionais de destaque nas decisões sobre promoção acadêmica e estabilidade no cargo, segundo fontes.
As preocupações com a segurança nacional se tornaram um novo fator na campanha de longa data de Pequim para conter o que considera uma dependência excessiva de métricas de periódicos internacionais, como o Science Citation Index, para avaliar pesquisadores e instituições.
A raiz do problema está em um sistema de avaliação de pesquisas que prioriza publicações no SCI, de acordo com uma das pessoas familiarizadas com a situação. Ainda segundo ela, para resolver essa questão, a progressão de carreira dos acadêmicos precisa ser desvinculada das publicações no SCI.
No mês passado, o Ministério de Segurança do Estado chinês acusou um pesquisador de vazar detalhes técnicos importantes ao tentar conseguir a aceitação de artigos em periódicos internacionais e conferências acadêmicas.
Em diretrizes estabelecidas em 2021, os ministérios de Recursos Humanos e Educação alertaram as instituições de ensino superior contra a dependência de requisitos rígidos de publicação. Desde então, a crescente rivalidade entre Estados Unidos e China ajudou a tornar a segurança uma preocupação central nos intercâmbios científicos.
Vários departamentos governamentais, entre os quais o Ministério da Ciência e Tecnologia, estão considerando um marco regulatório que incorporaria considerações de segurança nacional na avaliação científica, segundo pessoas com conhecimento do assunto.
Em agosto do ano passado, Pequim intensificou os esforços para reforçar a supervisão de publicações acadêmicas estrangeiras e incentivar pesquisadores locais a publicar trabalhos de alto impacto em periódicos chineses.
Um executivo de uma editora científica internacional relatou ter observado uma queda no número de submissões provenientes da China desde o início deste ano. Outro disse ter notado pressão para que pesquisadores chineses publiquem em periódicos nacionais, mas que isso ainda não se traduziu em uma queda nas submissões.
A política científica da China tem passado por uma mudança de ênfase: da colaboração global e publicação em periódicos internacionais para controles mais rígidos sobre como o conhecimento é compartilhado no exterior. A mudança ocorre em meio a tensões geopolíticas e ao rápido avanço tecnológico do país.
“O sistema científico chinês deixou o modo de recuperação de atraso e entrou no modo de grande potência”, afirmou o pesquisador Denis Simon, do Instituto Quincy, em Washington.
“A China não é mais um país de aquisição de conhecimento. Agora, a questão é como administra o próprio conhecimento de forma a proteger sua segurança nacional e, ao mesmo tempo, promover seu prestígio e conquistas científicas”, afirmou Simon.
A publicação em prestigiosas revistas científicas, como Nature e Cell, desempenha há décadas um papel fundamental nas avaliações de pesquisadores chineses para promoções e financiamentos, além de influenciar os rankings institucionais.
Embora Pequim tenha há muito tempo regras exigindo que cientistas protejam informações sensíveis, a fiscalização tem sido desigual, em parte devido aos incentivos enraizados em torno de publicações indexadas no SCI, de acordo com um funcionário da Academia Chinesa de Ciências que preferiu não se identificar.
A lei de sigilo já existe, segundo esse funcionário, mas o problema é que a gestão não tem sido aplicada de forma adequada.
Artigos de autores baseados na China representaram quase um terço do total global no SCI —um banco de dados dos principais periódicos científicos internacionais— em 2024, contra 5% duas décadas antes.
Mas a ênfase em publicações indexadas no SCI também criou incentivos que alimentam má conduta acadêmica, incluindo registros de publicação inflados e artigos baseados em dados manipulados ou fabricados.
Pequim revelou nos últimos anos regras destinadas a reduzir a dominância do SCI na avaliação acadêmica, que tem sido descrita na China como “culto ao SCI”.
Em agosto passado, a Fundação Nacional de Ciências Naturais da China exigiu pela primeira vez que pelo menos 20% dos artigos representativos produzidos por seus projetos financiados fossem publicados em periódicos chineses.
Alguns periódicos chineses estão incluídos no índice SCI, contudo representaram menos de 5% dos artigos SCI publicados por pesquisadores nacionais em 2023, de acordo com registros públicos.
Uma pessoa de uma publicação ocidental de destaque disse que os administradores de universidades chinesas foram encarregados de mudar a cultura intensamente competitiva em torno das publicações, que havia resultado em alguns acadêmicos priorizando quantidade em vez de qualidade.
Procurados, os ministérios de Ciência e Educação não responderam.
O Ministério da Segurança da China disse em junho que submissões para conferências internacionais, publicações em periódicos estrangeiros, intercâmbios acadêmicos e pesquisas colaborativas no exterior devem seguir rigorosamente os requisitos de revisão antes da divulgação pública e aprovação antes da liberação externa.
O ministério afirmou nas redes sociais que um pesquisador chinês não identificado havia incluído “estruturas de equipamentos essenciais, parâmetros técnicos fundamentais e dados experimentais distintivos de amostras” em submissões que visavam garantir aceitação por periódicos internacionais e conferências acadêmicas.
Um acadêmico chinês da área de ciência dos materiais disse que parou de submeter pesquisas a periódicos estrangeiros porque havia se tornado difícil passar pelas revisões de segurança, que ele classificou como “pouco claras e insuficientemente objetivas” e parte de um processo que desestimulava publicações no exterior.
Reduzir publicações internacionais e outros intercâmbios pode dificultar que a China alcance suas ambições científicas. No entanto, alguns cientistas chineses apoiam uma fiscalização mais rigorosa.
Um cientista em Pequim, que pediu para ser identificado apenas pelo sobrenome Huang, disse que a China já está na vanguarda em muitos campos, então há menos a ganhar publicando em periódicos estrangeiros.
Segundo ele, a abordagem correta é revelar o suficiente para provar o ponto, mas não tanto a ponto de entregar tudo de mão beijada.
Fonte ==> Folha SP – TEC