Arqueólogos viram os primeiros indícios das ruínas em varreduras aéreas da península de Yucatán, no México. Mas só havia uma maneira de ter certeza: ir lá pessoalmente. Então pegaram uma velha estrada florestal e abriram caminho para quadriciclos. Depois, a mata ficou densa demais para os veículos. Restou seguir a pé por mais 5 quilômetros até o local.
Lá, a equipe encontrou altares maias, estelas, praças, terraços e estruturas, entre elas um templo piramidal bem preservado com mais de 12 metros de altura. Em um dos monumentos, havia um relevo esculpido retratando uma cena de decapitação, com um signo de calendário correspondente ao ano 849 d.C. Outro trazia uma data do final dos anos 600 d.C.
Isso sugere que as ruínas datam dos séculos imediatamente anteriores ao abandono em massa dos grandes sítios maias.
“Foi uma grande surpresa que houvesse tantos monumentos lá”, disse o arqueólogo Ivan Sprajc, líder da equipe, cujo trabalho foi anunciado pelas autoridades mexicanas no fim de junho. “É uma espécie de fileira de monumentos. Foi incrível para um sítio relativamente pequeno.”
A presença de tantos monumentos —14 até então— indica que o local foi politicamente importante. “Não era uma cidade menor”, disse a historiadora mexicana María Elena Vega Villalobos, especialista em escrita hieroglífica maia —ela não fez parte do projeto.
A equipe também se surpreendeu com as condições do local. Não havia “nenhum vestígio de atividade de saqueadores, o que é bastante incomum”, disse Sprajc, professor de um centro de pesquisa esloveno, o ZRC Sazu.
Segundo o docente, em algum momento trabalhadores que coletam goma de árvores passaram ali. Os cortes que fizeram para extrair a seiva ainda podem ser vistos. As marcas, acrescentou ele, parecem ter 70 ou 80 anos, de uma época em que o mercado ilegal de antiguidades estava longe de ser tão desenvolvido quanto é agora.
“Eles devem ter visto as ruínas, mas não as saquearam”, disse Sprajc.
Quaisquer trilhas que esses trabalhadores haviam aberto acabaram desaparecendo na vegetação rasteira sem deixar vestígios.
Os pesquisadores nomearam o local como Minanbé, algo como “não há caminho”.
Esse isolamento deixou monumentos erodidos pelo tempo, mas de resto intocados, exceto por alterações feitas neles por pessoas há séculos. Um mostra a cena de decapitação, com uma pessoa empunhando uma lâmina ou machado contra um possível prisioneiro. Outro tem a imagem de um governante com cocar de penas, braceletes e hieróglifos.
Os monumentos alterados, seja quebrados ou rearranjados, tinham inscrições, segundo Sprajc. “Supomos que havia alguns grupos vindos de outros lugares, que não tinham relações muito amigáveis com os habitantes originais.”
Isso seria compatível com a idade das ruínas, ressaltou ele. “Foi um período turbulento, apenas o prelúdio desse famoso ou notório colapso da civilização maia clássica nos séculos 9º e 10º.”
Na época, cada cidade tinha seu próprio governante e dinastia, e havia muita competição, de acordo com Vega. Desfigurar monumentos em assentamentos rivais, segundo ela, tinha como objetivo “apagar e destruir a memória política e social de um território”.
Grande parte do sítio, que fica na Reserva da Biosfera de Calakmul, em Campeche, permanece enterrada sob montes de terra que exigirão escavações. Sprajc e seus colegas já desenterraram algumas cerâmicas e outros artefatos.
“Esse sítio evidentemente era importante em nível regional; temos o nome de um governante e todos aqueles monumentos”, disse ele.
A região estava repleta de antigas modificações agrícolas visíveis em varreduras aéreas usando lidar, uma tecnologia que tem ajudado cada vez mais os pesquisadores a encontrar ruínas escondidas sob a vegetação ou o solo.
“É muito difícil fazer as pessoas pararem de pensar nisso como uma mata intocada”, afirmou Rosemary Joyce, professora emérita da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “O que estamos descobrindo cada vez mais são essas vilas cercadas por terras intensivamente cultivadas e conectadas umas às outras.”
Outros arqueólogos que não participaram da expedição elogiaram as descobertas que estão trazendo novos conhecimentos sobre uma parte do México pouco estudada.
“A equipe de Sprajc está fazendo o trabalho difícil de caminhar e registrar pessoalmente essas áreas muito remotas”, disse a arqueóloga Lisa Johnson, da Universidade de Nevada, em Las Vegas.
As descobertas, segundo ela, mostram “a extensão da urbanização entre as populações maias antigas e o grau em que eles construíram e modificaram a paisagem em áreas que antes poderiam ser descritas como um ponto cego arqueológico”.
O mais surpreendente para alguns foi o estado intacto de um sítio arqueológico maia.
O arqueólogo Luis Alberto Martos, do Instituto Nacional de Antropologia do México, relembrou expedições que levaram a sítios saqueados. “Isso é muito doloroso, porque destrói tudo.” Minanbé, continuou ele, “vai nos dar muito mais informações”.
Ainda assim, Sprajc, 70, não tem certeza sobre outra viagem à mata.
Primeiro, há a questão dos custos. Para essa expedição, ele reuniu financiamento da Agência Eslovena de Pesquisa e Inovação e de empresas eslovenas, incluindo Adria kombi, Ars longa e Artos. Também recebeu doações da Ken & Julie Jones Charitable Foundation, da Milwaukee Audubon Society e de dois de seus membros, que participaram de alguns trabalhos de campo.
E depois há a abertura de trilhas na mata fechada. “Obviamente, sinto o peso dos anos”, disse Sprajc. “Ainda consigo caminhar e tudo mais. Ainda estou firme. Mas talvez eu devesse deixar esse trabalho para meus colegas mais jovens.”
Mas ele também não descartou a possibilidade. “Não tenho nenhum plano específico.”
Fonte ==> Folha SP – TEC