A revolução silenciosa da cirurgia de quadril: técnica que preserva músculos acelera recuperação e redefine padrões da ortopedia

Dr. Alexandre Penna Torini

Método minimamente invasivo já adotado nos principais centros internacionais permite que pacientes voltem a caminhar poucas horas após a cirurgia e ganha espaço no Brasil pelas mãos de especialistas como o Dr. Alexandre Penna Torini

A história da medicina é marcada por avanços que transformaram radicalmente a experiência dos pacientes. Da anestesia à cirurgia por vídeo, as maiores revoluções quase sempre tiveram um objetivo em comum: reduzir o trauma e preservar o corpo humano.

Na ortopedia, uma dessas transformações começa a ganhar protagonismo no Brasil.

Conhecido como Acesso Anterior Direto (Direct Anterior Approach – DAA), o método para realização da artroplastia total do quadril vem sendo apontado por especialistas internacionais como uma das mais importantes evoluções da cirurgia reconstrutiva das últimas décadas.

O diferencial está em um conceito simples, porém profundamente impactante: implantar a prótese sem cortar músculos.

Ao utilizar um intervalo anatômico natural entre estruturas musculares da parte anterior da coxa, o cirurgião consegue acessar a articulação preservando tecidos fundamentais para a estabilidade, mobilidade e recuperação do paciente.

O resultado é uma cirurgia menos agressiva, com menor dor pós-operatória, recuperação acelerada e retorno mais rápido às atividades cotidianas.

Um desafio crescente para a saúde

O avanço da técnica ocorre em um momento particularmente importante.

Com o envelhecimento acelerado da população, a artrose tornou-se uma das principais causas de incapacidade física no mundo. Estima-se que aproximadamente 15 milhões de brasileiros convivam com a doença, caracterizada pelo desgaste progressivo da cartilagem articular.

Segundo dados internacionais, grande parte da população acima dos 65 anos apresenta algum grau de comprometimento articular, sendo o quadril uma das regiões mais afetadas.

As consequências vão além da dor.

Perda de mobilidade, dificuldade para caminhar, dependência de familiares e redução da qualidade de vida fazem parte da rotina de milhares de pacientes que, muitas vezes, encontram na prótese de quadril a única alternativa para recuperar sua autonomia.

A preservação muscular como novo paradigma

Durante décadas, as cirurgias de quadril foram realizadas por acessos laterais ou posteriores, técnicas eficazes, porém associadas à necessidade de desinserção ou manipulação muscular significativa.

O acesso anterior direto propõe uma mudança de paradigma.

Em vez de atravessar músculos, o procedimento utiliza corredores anatômicos naturais já existentes no corpo humano.

Essa preservação muscular permite que estruturas responsáveis pela estabilidade do quadril permaneçam intactas, reduzindo riscos de luxação da prótese e favorecendo uma recuperação mais rápida.

A técnica foi difundida internacionalmente pelo cirurgião norte-americano Joel Matta e hoje está presente em centros de excelência dos Estados Unidos e da Europa.

No Brasil, entretanto, sua adoção ainda é limitada devido à curva de aprendizado exigente e à necessidade de equipamentos específicos.

Entre os especialistas que vêm contribuindo para a expansão do método está o ortopedista Dr. Alexandre Penna Torini, médico da Beneficência Portuguesa de São Paulo e atual vice-presidente do Comitê Internacional da Anterior Hip Foundation (AHF).

Dr. Alexandre Penna Torini

Dr. Alexandre Penna Torini

Tecnologia e precisão em tempo real

Segundo o Dr. Alexandre Penna Torini, a evolução da cirurgia não está apenas na via de acesso, mas também na integração entre conhecimento anatômico e tecnologia.

Durante o procedimento, realizado com o paciente em posição supina sobre mesa ortopédica específica, o cirurgião utiliza fluoroscopia intraoperatória, uma espécie de radiografia em tempo real que permite acompanhar cada etapa da implantação protética.

“O uso da fluoroscopia associado a ferramentas modernas de análise biomecânica proporciona maior precisão no posicionamento dos componentes da prótese e na restauração da simetria dos membros inferiores”, explica.

A tecnologia auxilia na redução de intercorrências como desalinhamentos e diferenças de comprimento entre as pernas, fatores que podem impactar diretamente a satisfação e o resultado funcional do paciente.

O pós-operatório que desafia antigos paradigmas

É após a cirurgia que os benefícios da preservação muscular se tornam mais evidentes.

Nas abordagens convencionais, os pacientes frequentemente recebem uma série de restrições temporárias para evitar deslocamentos da prótese durante o período de cicatrização.

Com o acesso anterior direto, esse cenário muda significativamente.

“A musculatura permanece preservada e a estabilidade da prótese é imediata. Isso permite que o paciente utilize o quadril de forma muito mais natural desde os primeiros momentos após a cirurgia”, afirma o Dr. Alexandre Penna Torini.

Na prática, muitos pacientes voltam a caminhar entre duas e quatro horas após o procedimento e recebem alta hospitalar no mesmo dia ou na manhã seguinte.

Atividades simples como sentar-se, entrar em um automóvel ou calçar os sapatos podem ser retomadas precocemente, reduzindo o impacto da cirurgia na rotina diária.

Um novo horizonte para a ortopedia brasileira

Embora a artrose avançada permaneça como a principal indicação para a substituição protética do quadril, o acesso anterior direto também vem sendo utilizado em casos de necrose avascular da cabeça femoral, algumas deformidades anatômicas e determinadas fraturas.

Para os especialistas, a discussão atual já não se limita à escolha da via cirúrgica.

O foco está na qualidade da recuperação.

“A medida do sucesso não é apenas implantar uma prótese com precisão. É devolver ao paciente sua independência, sua mobilidade e sua capacidade de viver sem dor”, destaca o Dr. Alexandre Penna Torini.

À medida que a população envelhece e a demanda por cirurgias de quadril cresce em todo o mundo, técnicas capazes de reduzir trauma cirúrgico e acelerar a recuperação tendem a ocupar posição cada vez mais central na prática ortopédica.

Nesse contexto, o acesso anterior direto deixa de ser apenas uma inovação técnica e passa a representar uma nova filosofia de tratamento: intervir menos para recuperar mais.

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Dr. Alexandre Penna Torini é médico (CRM SP 115772) da Beneficência Portuguesa de São Paulo, especialista em ortopedia e traumatologia (RQE 53083) com foco em quadril do adulto e atual vice-presidente do Comitê Internacional da Anterior Hip Foundation (AHF), organização dedicada ao desenvolvimento e à difusão mundial do acesso anterior direto para artroplastia total do quadril.

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