Ao anunciarem o uso de uma nova técnica para editar com precisão os genes de embriões humanos, cientistas da Universidade Columbia (Estados Unidos) deram início a um debate da comunidade acadêmica. Isso é uma boa ou má notícia? Com que velocidade vai avançar? Onde termina a medicina e começa a eugenia?
Os resultados do novo estudo, publicados inicialmente pelo jornal The New York Times, mostraram que a técnica, chamada de edição de bases, trocou meticulosamente letras individuais no genoma de um embrião, alterando genes ligados à produção de hemoglobina fetal, a níveis de colesterol e a risco de doenças cardíacas.
Embora o trabalho ainda esteja em revisão por pares e não tenha saído em uma revista científica, especialistas estão discutindo se a ferramenta nos aproximará da cura de doenças hereditárias ou de bebês projetados geneticamente —ou ambos.
Médicos otimistas viram o estudo como um grande avanço na medicina, reforçando a esperança de que cientistas possam um dia corrigir mutações em embriões em ambiente clínico.
Ellen Goldstein, endocrinologista reprodutiva e especialista em fertilidade em Los Angeles, disse que, para algumas de suas pacientes, a ferramenta poderia significar uma gravidez bem-sucedida com um embrião que, de outra forma, teria sido descartado.
“Existem problemas muito específicos aos quais essa tecnologia poderia ser aplicada, condições em que todos concordamos que há consequências devastadoras”, disse ela, citando a doença de Huntington, que causa a degeneração das células nervosas no cérebro, ou a distrofia muscular de Duchenne, na qual os músculos esqueléticos e cardíacos se deterioram.
Modificar embriões com uma forma anterior de edição genética, o Crispr, é considerado arriscado demais. A ferramenta funciona como uma tesoura molecular, cortando longos segmentos de DNA. Mas pesquisadores já relataram que, ao usá-la, encontraram suas amostras com rearranjos estranhos de DNA, grandes trechos ausentes e, em alguns casos, cromossomos inteiros destruídos.
Com a edição de bases, os pesquisadores de Columbia dizem que conseguiram, em muitos casos, alterar letras individuais do genoma com segurança, como se tivessem uma borracha de precisão e um lápis vermelho para simplesmente corrigir a ortografia.
Para os defensores da nova ferramenta, o argumento é: se pudéssemos prevenir com segurança que uma criança herdasse uma condição genética devastadora, não seria antiético não fazer isso?
“Precisamos ter muito cuidado para não ter reações impulsivas de rejeição a esse tipo de pesquisa, desde que seja feita com compreensão adequada, respeito apropriado pelas implicações futuras e supervisão correta de biólogos e especialistas em ética”, afirmou Goldstein.
Especialistas em ética são justamente os que estão pedindo cautela. Lainie Friedman Ross, pediatra e bioeticista da Universidade de Rochester, mostrou-se cética não apenas em relação às implicações futuras da tecnologia, mas também ao trabalho que está sendo feito atualmente.
“Vamos ser claros. Embriões humanos se tornam pessoas. A pesquisa está sendo feita em futuras pessoas sem o consentimento delas.”
O pesquisador que liderou o projeto, Dieter Egli, disse à reportagem que uma conversa pública sobre os prós e contras da edição de genes em embriões era necessária, contudo, “como cientista, você pode fornecer os dados para discussão, mas essencialmente para por aí e deixa que outros assumam”.
Ross discordou. “Isso é moralmente irresponsável. Não existe ciência neutra em termos de valores. A equipe já tomou uma decisão ética ao seguir essa linha de trabalho.”
Geneticistas também estão moderando seu entusiasmo, argumentando que a tecnologia ainda tem grandes limitações.
As modificações, embora precisas, funcionaram apenas em uma parte das células, o que resultou nos chamados embriões mosaicos, que continham uma mistura de células editadas e não editadas. Se um dos embriões mosaico tivesse sido implantado e levado a uma gravidez, as implicações para a saúde dessa mistura poderiam não se tornar aparentes até anos após o nascimento da criança.
Outra complexidade clínica: como a fertilização in vitro moderna geralmente extrai um pequeno grupo de células para testes genéticos, a natureza mosaico de um embrião poderia facilmente passar despercebida. Se a amostra selecionada aleatoriamente for saudável, ela poderia oferecer aos pais uma falsa tranquilidade, mascarando a mutação em outras partes.
“Estamos muito longe de ter métodos seguros de edição genética embrionária em que os benefícios superem os riscos”, afirmou Rasmus Nielsen, geneticista da Universidade da Califórnia, em Berkeley.
A edição de embriões em estágio inicial também traz um nível preocupante de permanência. Diferentemente das edições em células comuns do corpo, quaisquer alterações feitas em células reprodutivas são transmitidas para as gerações futuras. Isso significa que edições —ou erros— em um ambiente clínico não terminariam com aquela criança, mas seriam passados adiante em sua linhagem familiar, alterando o patrimônio genético para sempre.
“Como nós, enquanto sociedade, interviríamos se a intervenção levasse a consequências graves para a saúde ou a reprodução? Não temos nenhuma estratégia”, disse Ross. “Isso pode ter consequências terríveis para a nossa espécie.”
Apesar dos riscos, muitos especialistas esperam um impulso comercial substancial, não apenas para tornar essa tecnologia disponível, mas para incentivá-la.
O diretor clínico da Nucleus Genomics foi um dos autores do novo estudo, e a empresa anunciou que estava “orgulhosa de financiar a próxima fase de pesquisa voltada a avançar ainda mais essa tecnologia rumo ao uso clínico”.
Em um momento de expansão da tecnologia reprodutiva, alguns pesquisadores temem que o conceito inicial de eliminar doenças por meio de edição genética seja rapidamente transformado em uma iniciativa do Vale do Silício para otimizar o genoma humano, prometendo a pais ricos a chance de editar características eletivas como cor dos olhos e altura.
Muitas das características eugênicas que mais preocupam os bioeticistas, como a inteligência, dependem de centenas ou milhares de genes que interagem entre si e com o ambiente da criança. Portanto, é altamente improvável que a edição de bases seja útil.
Mas isso não significa que as empresas não capitalizariam sobre as esperanças e os medos dos pais.
“Dada a falta de regulamentação em torno das tecnologias reprodutivas, parece ser apenas uma questão de tempo”, disse Daphne Oluwaseun Martschenko, bioeticista da Universidade Stanford.
Fonte ==> Folha SP – TEC