Vídeos expõem ultraprocessados, mas podem ter problemas – 20/09/2026 – Ciência

Mulher de cabelos castanhos e lisos segura embalagem amarela de M&M

Você já pode ter visto um (ou vários) destes vídeos: uma pessoa mostra algum produto industrializado —em geral salgadinhos, refrigerantes, doces— e, supostamente, apresenta de modo visual a ciência por trás do produto, como ele é feito. Produtos processados, óleos, pós, pastas, líquidos e corantes e aromatizantes artificiais.

Especialistas dizem que, apesar de um potencial efeito positivo de conscientização, é necessário assistir os vídeos com cautela, dado que não necessariamente a representação visual mostrada é uma desconstrução precisa dos produtos.

O primeiro sinal de alerta é que não é possível saber a quantidade exata de ingredientes em um alimento industrializado. Embora no Brasil e nos Estados Unidos a norma de apresentação dos ingredientes no rótulo seja do componente em maior quantidade para aquele de menor quantidade, não é apresentada a proporção de cada ingrediente, diz Laís Botelho, professora do programa de nutrição e saúde coletiva da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) de Macaé (RJ).

“Isso vai fazer sentido para um refrigerante, algum salgadinho, que tem uma correspondência visual, mas para vários outros não”, diz Botelho. “Eu não acho que essa visualização é ruim, eu acho que até usaria ela para informar, ou seja, tem potencial. Mas falta [nos perfis] uma contextualização.”

Para Patrícia Mello Silva, mestre em gestão ambiental pela EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP) com pesquisas na área de alimentação, os vídeos ilustram ao consumidor o que tem no rótulo. “Dificilmente a população olha de fato para aquela listagem de ingredientes, que às vezes são inclusive muito difíceis de ler.”

Ela ressalta que o é mostrado nos vídeos podem ser só representações dos ingredientes, sem que sejam de fato os produtos ali inseridos.

A criadora de conteúdo Science Snitch é uma a fazer esse tipo de vídeo. À reportagem, ela, que prefere ser chamada apenas pelo nome da sua conta e não revelou seu nome real, disse que seu objetivo com os vídeos é “explicar a ciência por trás da alimentação”.

O processo de criação de seus vídeos, afirma, baseia-se em ler os ingredientes nos rótulos e cruzar essa listagem com as informações nutricionais, sendo possível “chegar a estimativas bastante precisas de algumas quantidades”.

Nos EUA, de acordo com um relatório do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) de 2023, alimentos ultraprocessados compõem cerca de 55% do consumo diário de pessoas com um ano ou mais de idade.

Não há explicação no perfil de Science Snitch sobre formação acadêmica ou possível experiência com ciência de alimentos. Os vídeos do seu perfil também não possuem menção de referências bibliográficas. Questionada sobre estes pontos, Science Snitch não respondeu.

A brasileira Flávia Luiza, 48, por trás do perfil “Rótulo Revelado”, diz que criou a página em julho deste ano e que pesquisa a lista de ingredientes em cada vídeo. A criadora de conteúdo diz não ter formação acadêmica (ela é formada em negócios imobiliários), mas diz prezar pela qualidade de cada vídeo.

“Meu canal mostra apenas uma representação visual dos ingredientes. Não sei as proporções exatas, e considero importante deixar isso claro. Faz parte da pesquisa observar se existe alguma restrição que me impeça de manusear alguns dos ingredientes, caso haja, busco encontrar uma maneira de representá-los visualmente da maneira mais fiel ao produto original. Não faço análises laboratoriais e o conteúdo não pretende substituir o trabalho de nutrólogos, nutricionistas, químicos, engenheiros de alimentos ou outros profissionais da área”, afirma.

Segundo Mariana Ribeiro, nutricionista do programa de alimentação saudável do Idec (Instituto de Defesa dos Consumidores), estas inferências, porém, não são possíveis de fazer a partir dos dados de listagem de ingredientes exatamente pela ausência de informações sobre quantidades, embora veja este tipo de conteúdo como positivo. “Eu não vejo como a estratégia que vai resolver a questão dos ultraprocessados, mas talvez possa ser mais uma ação na conscientização sobre o que de fato compõe esses produtos.”

Para Giovanna Pisanelli, doutora em ciência de alimentos e responsável pelo app “Desrotulando”, que ajuda a fazer avaliações nutricionais de produtos, estes vídeos, construídos para causar impacto visual, têm um outro problema potencial que é, em geral, induzir a associação da presença de aditivos químicos a um risco potencial à saúde.

“Mesmo sendo um vídeo sem falas, a mensagem que fica é que todo ingrediente ‘de nome estranho’ é automaticamente um problema. Mas aditivos não são todos iguais. Alguns estão presentes para trazer segurança microbiológica e são essenciais; já outros têm função apenas ‘cosmética’ e não agregam valor nutricional”, diz.

Embora as especialistas ouvidas pela reportagem tenham ressalvas sobre os vídeos, todas concordam sobre a importância da conscientização sobre alimentação saudável, e que um primeiro passo, mesmo que seja de gerar reação pelo choque, pode dar início a um movimento em busca de informação e educação alimentar.

“Na literatura, o apelo do medo é um problema. Mensagens de saúde pública que apelam para essa sensação até produzem uma mudança de comportamento, mas quando ela não é acompanhada de alternativas reduz o que chamamos de autoeficácia. A reação psicológica mais comum é esquivar daquela ideia, fugir da emoção negativa que a mensagem desperta”, explica Botelho, da UFRJ.

Ribeiro, do Idec, vê a estratégia de produção de conteúdos visuais como similar à do rótulo frontal, da Anvisa, que passou a indicar na frente das embalagens produtos com alto teor de açúcar, gordura e sódio. “Essa estratégia já é bem antiga na área de nutrição. Vimos algumas reações à lupa de usuários, principalmente no X (ex-Twitter), dizendo que pararam de comprar alguns produtos depois do aviso.”

Silva vê esse tipo de abordagem como uma tentativa de aproximar os espectadores dos conteúdos mais técnicos produzidos na ciência, mas há outras opções de perfis que são mais informativos. “Um grande desafio da ciência é transformar o que é produzido por nós numa linguagem um pouco mais acessível.”

Sugerir produtos substitutivos, informar melhor sobre os valores nutricionais dos alimentos e indicar que não se trata exatamente de eliminação, mas de substituição ou moderação, são caminhos utilizados pela equipe do Desrotulando.

“A alimentação sempre foi rodeada de mitos, e as redes sociais deram amplitude a eles”, afirma Pisanelli. “Nesse ecossistema, há quem faça terrorismo nutricional por ignorância e há quem faça porque sabe que isso gera mais engajamento. Ao mesmo tempo, há muito conteúdo informativo circulando, especialmente depois da pandemia, onde houve um aumento de profissionais que produzem conteúdo mais responsável, baseado em evidências científicas. É um trabalho de formiguinha, mas que vem ganhando espaço aos poucos”, diz.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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