José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Durante séculos, o estudo da História Antiga baseou-se principalmente na interpretação de textos clássicos e no exame individual de inscrições e vestígios arqueológicos nos locais de origem ou em museus. Nos últimos anos, porém, uma transformação pouco conhecida vem modificando profundamente esse cenário. A digitalização de grandes acervos arqueológicos, aliada ao desenvolvimento de métodos quantitativos capazes de integrar milhões de registros dispersos, está abrindo uma nova fronteira para a pesquisa histórica. Assim como outras disciplinas científicas, beneficiadas pelo processamento de quantidades colossais de informação, a arqueologia e a história também ingressaram na era da ciência de dados.
Um exemplo dessa abordagem acaba de ser apresentado por dois pesquisadores do Núcleo de Economia Regional e Urbana da Universidade de São Paulo (Nereus-USP). Combinando técnicas de economia regional, análise espacial, sistemas de informação geográfica e grandes bases internacionais de dados arqueológicos, eles reconstruíram a circulação monetária da República Romana (com foco no período que vai de 155 a.C. a 2 d.C.) a partir dos vestígios de aproximadamente 4 milhões de moedas encontrados em escavações realizadas ao longo de dois séculos. O estudo mostra que a consolidação do domínio romano dependeu menos da simples conquista militar do que da progressiva integração econômica dos territórios incorporados.
O trabalho foi conduzido por Eduardo Amaral Haddad, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA-USP), em colaboração com Inácio Fernandes Araújo, atualmente professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP). Artigo escrito por ambos foi publicado na revista Humanities and Social Sciences Communications, do grupo Nature.
Mais do que acompanhar o deslocamento das moedas, a pesquisa procura compreender como elas registram o funcionamento de uma economia em expansão. “Cada peça preservada pela arqueologia fornece três informações fundamentais: onde foi cunhada, quando foi produzida e onde foi encontrada cerca de 2 mil anos depois. Consideradas isoladamente, essas informações dizem pouco. Mas, quando milhões de registros são analisados em conjunto, tornam-se capazes de revelar os caminhos percorridos pelo dinheiro, a intensidade das trocas econômicas, a integração entre diferentes regiões e até mesmo a evolução institucional de uma das maiores economias da Antiguidade”, diz Haddad.
O trabalho recebeu apoio da FAPESP por meio de dois projetos (14/25030-2 e 19/00057-9).
Um estudo que começou como lazer
A origem do projeto remonta a 2014, quando Haddad, já professor da FEA-USP, realizou um período sabático (afastamento temporário e planejado da rotina profissional, que dura de alguns meses a um ano) na Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Embora estivesse desenvolvendo pesquisas em economia, passou a frequentar, por interesse pessoal, um seminário semanal organizado pelo Departamento de Estudos Clássicos.
“Em uma dessas reuniões, assisti à apresentação de um estudo que utilizava vestígios de naufrágios e fragmentos de cerâmica para reconstruir redes comerciais no Mediterrâneo Antigo. Fiquei com aquilo na cabeça. Pouco tempo depois, explorando a biblioteca da universidade, encontrei um catálogo de moedas romanas que reunia exatamente o tipo de informação de que precisava: a data da cunhagem, o local onde cada moeda havia sido produzida e o lugar onde fora encontrada em escavações arqueológicas. Fotocopiei aquele material, considerando que seria possível analisar essas redes utilizando ferramentas da economia regional e urbana”, lembra.
O interesse inicial acabou se transformando em um projeto de longo prazo. Para aprofundar seus conhecimentos sobre o mundo clássico, Haddad matriculou-se em um programa de pós-graduação a distância sobre o Mediterrâneo Antigo, oferecido pela Universidade de Leicester, no Reino Unido. Um dos trabalhos desenvolvidos durante o curso tornou-se o embrião do artigo publicado.
Arqueologia computacional
Por muito tempo, as informações sobre moedas romanas permaneceram dispersas em museus, bibliotecas, coleções particulares e arquivos de pesquisadores. Essa fragmentação dificultava qualquer tentativa de reconstruir padrões de circulação em larga escala. A situação começou a mudar quando instituições como a American Numismatic Society passaram a coordenar projetos internacionais de digitalização e padronização desses acervos, estabelecendo protocolos comuns para registrar informações arqueológicas. Hoje existem grandes bases públicas que reúnem milhões de registros produzidos por escavações realizadas em diferentes países.
“A principal fonte de nosso estudo foi o Coin Hoards of the Roman Republic On-line (CHRR), um banco de dados dedicado aos tesouros monetários da República Romana. O estudo integrou ainda diferentes plataformas de arqueologia digital. Entre elas, o ORBIS, desenvolvido pela Universidade Stanford (Estados Unidos), que simula deslocamentos pela rede de estradas, rios e rotas marítimas do mundo romano, estimando tempo e custo das viagens entre centenas de localidades. E também o Pleiades Gazetteer, além das bases Roman Road Network, que forneceram informações georreferenciadas sobre cidades, estradas e portos do Mediterrâneo Antigo”, detalha Haddad.
Esses diferentes bancos de dados foram integrados em um único sistema de análise espacial. Após um cuidadoso processo de curadoria, os pesquisadores passaram a trabalhar com um conjunto de aproximadamente 4 milhões de moedas, organizadas em 24.646 tesouros monetários e correspondentes a 5.167 pares formados por locais de cunhagem e locais de descoberta. Em vez de analisar moedas individualmente, optaram por utilizar esses registros arqueológicos, reduzindo distorções produzidas por diferenças de preservação, perda ou reutilização das peças ao longo dos séculos.
Mas o objetivo foi muito além da construção de mapas. “Precisávamos pensar essa circulação do ponto de vista da interação humana no espaço, segundo uma lógica econômica”, explica Haddad. Foi nesse momento que sua experiência em economia regional encontrou uma aplicação inesperada. As mesmas ferramentas matemáticas desenvolvidas para estudar fluxos contemporâneos de pessoas, mercadorias e renda passaram a ser utilizadas para investigar movimentos monetários ocorridos há mais de 2 mil anos. Em vez de analisar cidades modernas, o objeto de estudo passou a ser o Mediterrâneo romano. E, em vez de acompanhar cadeias produtivas contemporâneas, os pesquisadores procuraram reconstruir as redes econômicas que sustentaram a expansão de Roma durante os dois últimos séculos da República.
Follow the money
A República Romana é convencionalmente datada de 509 a.C. a 27 a.C., quando Otaviano Augusto inaugurou o Principado. Assim, os dois últimos séculos da República correspondem aproximadamente ao período entre 200 a.C. e 27 a.C. O intervalo abrange a consolidação da hegemonia romana após a Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.); a conquista do Mediterrâneo helenístico; a expansão para a Hispânia, a Gália, os Bálcãs e o Oriente; e as guerras civis que culminaram no fim da República.
A primeira pergunta formulada pelos pesquisadores foi tão simples quanto decisiva: a distribuição espacial das moedas ocorria ao acaso ou obedecia a um padrão? Para responder, a equipe recorreu a técnicas de análise espacial amplamente utilizadas na economia regional e na geografia econômica. Os testes mostraram que os achados estavam longe de apresentar uma distribuição aleatória. Ao contrário, formavam aglomerados estatisticamente significativos, concentrados ao longo dos principais eixos de circulação do mundo romano.
Identificado esse primeiro resultado, surgiu uma pergunta ainda mais ambiciosa: seria possível reconstruir os caminhos percorridos pelo dinheiro? “Depois de verificar que existia uma correspondência entre localização e concentração das moedas, começamos a cruzar essas informações com as vias romanas. E encontramos algo muito interessante: havia uma clara propagação das moedas a partir de Roma”, conta Haddad.
Os mapas produzidos pelo estudo mostram que a circulação monetária acompanhava de perto a infraestrutura construída pela República Romana. Estradas, portos e grandes centros urbanos não eram apenas vias de passagem: constituíam os canais pelos quais se difundiam as relações econômicas que sustentavam a expansão territorial.
Mas seguir o caminho das moedas foi apenas o primeiro passo. A questão seguinte era compreender por que algumas regiões apresentavam intensa circulação monetária, enquanto outras permaneciam relativamente periféricas.
“Responder a essa pergunta exigia mais do que mapas. Era necessário reconstruir, ainda que de forma aproximada, o funcionamento da própria economia romana. Para isso, organizamos informações provenientes da literatura histórica e arqueológica em um modelo inspirado nas chamadas matrizes de contabilidade social, instrumento empregado na análise de economias contemporâneas. O modelo descreve as relações entre os principais agentes econômicos da época: governo, famílias, proprietários de terra, comerciantes, escravos e exército. E procura representar os fluxos de bens e pagamentos que ligavam essas instituições. Também distingue diferentes tipos de produção e consumo, desde alimentos e matérias-primas até manufaturas e artigos de luxo, cujo comércio podia alcançar distâncias muito maiores”, relata Haddad.
Outro aspecto incorporado ao modelo foi a gradual monetização da economia romana. Durante parte da República, muitas transações continuavam sendo realizadas em espécie. Com o passar do tempo, porém, pagamentos ligados ao abastecimento do exército, à manutenção dos escravos e a diversas atividades públicas passaram progressivamente a utilizar moeda. Essa transformação deixou marcas nos próprios acervos arqueológicos. A partir desse modelo econômico, os depósitos monetários encontrados nas escavações deixaram de ser simples coleções de moedas antigas. Passaram a ser tratados como evidências materiais das relações econômicas que estruturavam a República Romana.
Primeiro o exército, depois a economia
Foi nesse ponto que surgiu uma das conclusões mais interessantes do estudo. Uma interpretação bastante difundida atribui ao exército romano o papel predominante na disseminação da moeda pelos territórios conquistados. A afirmação parece intuitiva: à medida que as legiões avançavam, levavam consigo soldados, que recebiam salários, e fornecedores, que comercializavam mercadorias, produzindo uma intensa circulação monetária. Mas os resultados confirmam apenas parcialmente essa hipótese.
Segundo Haddad, as estruturas militares realmente desempenharam um papel decisivo na fase inicial da expansão. No entanto, sua influência diminuiu à medida que os novos territórios foram incorporados de forma permanente ao mundo romano. “O que percebemos foi que a expansão militar introduzia a circulação monetária, mas ela só se consolidava quando esses territórios eram efetivamente integrados, criando estruturas econômicas, religiosas, administrativas e cívicas capazes de gerar demanda permanente por moeda”, pontua. Em outras palavras, o exército funcionava como agente de abertura. Quem garantia a permanência da moeda era a economia.
Esse resultado ajuda a explicar por que determinadas interpretações históricas, centradas quase exclusivamente na ação militar, deixam de captar um aspecto fundamental da expansão romana: conquistar um território era apenas o começo. Para que ele passasse a integrar efetivamente a República, era necessário construir mercados, cidades, instituições administrativas, centros religiosos e redes permanentes de troca. É esse processo de integração que os mapas de circulação monetária começam a revelar.
Outra conclusão importante diz respeito à evolução da própria geografia econômica romana. “Nos períodos iniciais analisados, as moedas permaneciam relativamente próximas dos locais onde haviam sido cunhadas. À medida que a República expandia suas fronteiras, porém, elas passaram a ser encontradas em distâncias cada vez maiores. Nos modelos estatísticos, isso aparece como uma redução progressiva do efeito da distância sobre a circulação monetária. Em outras palavras, regiões antes separadas por barreiras geográficas tornavam-se progressivamente integradas por uma rede comum de transportes, mercados e instituições”, detalha Haddad.
De acordo com o pesquisador, esse talvez seja um dos resultados mais expressivos do trabalho. “À medida que ocorre a expansão territorial, começamos a encontrar moedas em distâncias cada vez maiores. O papel da distância vai perdendo força, sugerindo uma integração crescente do território”, resume. Essa conclusão vai muito além da numismática [disciplina dedicada ao estudo das moedas como documentos históricos]. Ela sugere que a circulação monetária pode funcionar como um indicador indireto do próprio grau de integração econômica entre diferentes regiões do império.
Mercados diversificados
A análise espacial permitiu identificar não apenas a intensidade da circulação monetária, mas também diferentes regiões funcionais dentro da República Romana.
“No centro do sistema encontrava-se a própria cidade de Roma, onde predominavam os gastos ligados à administração pública. Em torno dela estendia-se um núcleo econômico fortemente integrado, correspondente à Península Itálica, cuja circulação monetária refletia principalmente atividades de mercado. Mais adiante aparecia uma faixa intermediária, uma espécie de buffer zone [zona de amortecimento] entre o núcleo consolidado e as regiões recentemente incorporadas. Nela conviviam despesas administrativas, econômicas e militares. Já nas áreas de expansão mais recente predominavam os gastos ligados ao esforço de conquista e ocupação territorial. À medida que essas regiões eram pacificadas e incorporadas de forma permanente ao mundo romano, a participação das despesas militares diminuía, cedendo lugar ao crescimento das atividades civis, administrativas e comerciais”, descreve Haddad.
O artigo Economic footprints: mapping coin circulation and economic networks in ancient Rome pode ser lido em: nature.com/articles/s41599-026-07815-7.
Fonte ==> Folha SP