Psicóloga Gleice Salteiro, presidente do Instituto Vencendo o Jogo, chama atenção para o estigma que cerca o transtorno e para sinais que podem aparecer muito antes de a situação financeira se tornar insustentável
Uma aposta de poucos reais, feita pelo celular e aparentemente sem grandes consequências, pode ser o início de uma relação muito mais complexa com o jogo. Quando as perdas aparecem, vem a tentativa de recuperar o dinheiro. Depois, novos depósitos, promessas de que aquela será a última vez e, em alguns casos, o esforço para esconder de familiares quanto já foi gasto. É justamente nesse espaço entre a perda do controle e o reconhecimento do problema que vergonha, culpa e silêncio podem dificultar a busca por ajuda.
Para a psicóloga Gleice Salteiro, presidente do Instituto Vencendo o Jogo, compreender esse processo é fundamental para mudar a maneira como a sociedade olha para pessoas que enfrentam problemas relacionados às apostas.
O debate ganhou ainda mais importância com a presença constante das plataformas digitais na rotina dos brasileiros. Hoje, uma aposta pode ser realizada em segundos, a qualquer hora e praticamente em qualquer lugar. A facilidade de acesso, somada à expectativa de recompensa imediata, cria um cenário que exige atenção não apenas para os prejuízos financeiros, mas também para as consequências emocionais e sociais.

O problema nem sempre começa com uma grande dívida
Um dos equívocos mais comuns é imaginar que a dependência só existe quando o jogador já perdeu grandes quantias. O dinheiro pode ser uma das consequências mais visíveis, mas mudanças comportamentais muitas vezes aparecem antes.
Entre os sinais de alerta apontados pelo Ministério da Saúde estão dificuldade para reduzir ou interromper as apostas, alterações de humor, ansiedade ou irritabilidade quando não se está jogando, mentiras para familiares e amigos, comprometimento do orçamento e uso do jogo como maneira de lidar com estresse ou frustrações.
O transtorno do jogo é caracterizado justamente pela dificuldade de controlar o impulso de apostar mesmo diante de consequências financeiras, profissionais, familiares e emocionais.
Nesse contexto, a discussão proposta por Gleice Salteiro busca afastar uma interpretação baseada exclusivamente em julgamento moral. O comportamento compulsivo não pode ser resumido simplesmente à ideia de que alguém deveria ter “mais força de vontade”.
Reconhecer que existe um problema de saúde muda também a pergunta que deve ser feita. Em vez de questionar por que a pessoa simplesmente não para, torna-se necessário compreender por que ela não está conseguindo parar.
A tentativa de recuperar o que foi perdido
Outro comportamento que merece atenção é a insistência em continuar apostando para tentar recuperar perdas anteriores.
A lógica parece simples: depois de perder dinheiro, uma nova aposta surge como possibilidade de reverter o prejuízo. Se uma nova perda acontece, porém, o valor necessário para “voltar ao zero” aumenta. É nesse movimento que uma prática inicialmente encarada como entretenimento pode começar a ocupar espaço cada vez maior na rotina.
O próprio autoteste disponibilizado pelo Ministério da Saúde questiona se, após perder, a pessoa retorna em outro momento para tentar recuperar o dinheiro e se já tentou repetidamente reduzir ou controlar as apostas.
Quando isso acontece, a questão deixa de envolver somente quanto alguém ganhou ou perdeu. Passa a envolver a relação construída com o ato de apostar.
Vergonha pode alimentar o silêncio
Existe ainda uma barreira menos visível: admitir o problema.
A pessoa pode esconder extratos, minimizar valores perdidos, evitar conversas sobre dinheiro ou continuar dizendo que controla a situação. Quanto maior o prejuízo, mais difícil pode parecer revelar o que aconteceu.
Esse comportamento cria um ciclo particularmente delicado. O medo do julgamento favorece o silêncio; o silêncio dificulta a construção de uma rede de apoio; e a ausência de apoio pode contribuir para que o comportamento continue escondido.
O Ministério da Saúde reconhece essa questão em suas orientações sobre jogos e apostas. Nota técnica destinada à Rede de Atenção Psicossocial destaca que o estigma associado aos problemas com o jogo pode fazer com que pessoas escondam sua condição e deixem de acessar cuidados em saúde mental.
Para Gleice, combater esse estigma é uma das frentes necessárias para ampliar a conscientização. Isso não significa ignorar responsabilidades ou consequências financeiras, mas entender que humilhação e julgamento dificilmente são instrumentos capazes de produzir recuperação.
Quando o problema deixa de ser individual
As consequências também podem alcançar quem nunca realizou uma única aposta.
Relacionamentos afetivos, organização financeira familiar, desempenho profissional e vínculos de confiança podem ser abalados à medida que o comportamento se intensifica. Em sua nota técnica sobre o tema, o Ministério da Saúde cita estimativa de que, para cada pessoa que desenvolve transtorno do jogo, outras seis podem ser afetadas pelas consequências.
É por isso que iniciativas como o Instituto Vencendo o Jogo, presidido por Gleice Salteiro, procuram ampliar a discussão para além do jogador e colocar familiares e redes de apoio dentro do debate.
A dependência pode chegar à família por meio de contas atrasadas, empréstimos, conflitos, mudanças repentinas de comportamento ou descobertas financeiras inesperadas. Muitas vezes, quando pessoas próximas percebem a dimensão do problema, ele já vinha sendo escondido havia algum tempo.
Informação também é prevenção
A discussão sobre apostas no Brasil entrou definitivamente no campo da saúde pública. Em julho de 2026, o Ministério da Saúde publicou relatório executivo de uma agenda específica sobre jogos e apostas, voltada a ampliar o debate e desenvolver estratégias de cuidado para pessoas afetadas.
Como parte desse trabalho de conscientização, Gleice Salteiro também é autora do e-book “Ludopatia – Jogo Patológico: Vencendo o Jogo”, desenvolvido para ampliar o acesso à informação sobre a dependência em jogos.
O material aborda os impactos emocionais e financeiros associados ao comportamento compulsivo, apresenta sinais que podem indicar a necessidade de ajuda e reúne estratégias voltadas à retomada do controle sobre a própria vida.
A proposta reforça uma das principais mensagens defendidas pela psicóloga em sua atuação: quanto mais cedo houver informação e reconhecimento dos sinais, maiores são as possibilidades de interromper um ciclo que muitas vezes se desenvolve de maneira silenciosa.

O governo federal também passou a disponibilizar informações sobre prevenção, redução de danos, autoavaliação e mecanismos de autoexclusão.
Para Gleice Salteiro, esse avanço precisa ser acompanhado por uma mudança cultural: falar sobre dependência em apostas antes que as consequências cheguem ao limite.
Identificar comportamentos de risco, conhecer os sinais e permitir que o assunto seja discutido sem transformar a pessoa em alvo de julgamento pode diminuir a distância entre perceber que algo está errado e efetivamente procurar apoio.
Em um cenário no qual o cassino, a roleta ou a aposta esportiva cabem dentro do bolso e permanecem disponíveis 24 horas por dia, talvez um dos principais desafios esteja justamente em tornar a informação e o acolhimento tão acessíveis quanto o próprio jogo.
Afinal, quando vergonha, dívidas e silêncio começam a dividir espaço na rotina, reconhecer que existe um problema pode não representar uma derrota. Pode ser justamente o primeiro movimento para voltar a assumir o controle da própria vida.