Em todas as partes do mundo, a cultura ganha vida com o movimento dos corpos, ritmos locais, artesanato e histórias passadas entre gerações.
Para reconhecer e proteger essas manifestações, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, celebra neste sábado, 17 de outubro, o Dia Internacional do Patrimônio Cultural Imaterial.
O Patrimônio Imaterial da Unesco inclui a riqueza intelectual não física, como folclore, costumes, crenças, tradições, conhecimento e linguagem
Comunidade lusófona
Em mensagem oficial, o diretor-geral da agência, Khaled El-Enany, destaca que o patrimônio intangível existe porque as pessoas o mantêm vivo, enfatizando que hoje 185 países já aderiram à Convenção de 2003 para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial.
Definida pela Conferência Geral da Unesco em sua 42ª sessão, a data destaca a necessidade de preservar a herança cultural. Nesse ano, foi estabelecido a Década Internacional da Cultura para o Desenvolvimento Sustentável (2027-2036) pela Assembleia Geral das Nações Unidas.
Nos países de língua portuguesa, esses patrimônios expressam a pluralidade das sociedades. Da África à Europa, as comunidades lusófonas mantêm vivas práticas que unem arte, fé, justiça e conhecimento ancestral.
Portugal: a tradição da Arte Equestre
Inscrita em 2024 na Lista Representativa da Unesco, a Arte Equestre em Portugal busca por uma harmonia profunda com o animal e é caracterizada pela postura do cavaleiro na sela, trajes e arreios tradicionais.
A comunicação entre o cavaleiro e o cavalo incentiva a cooperação voluntária, sem o uso da força física e focando no bem-estar do animal.
Festival Internacional de Puro Sangue Lusitano, APSL, Manuel Possolo, hipódromo de Cascais
Praticada por homens e mulheres de todas as idades, a prática preserva técnicas como a “monte à amazona”, executada exclusivamente por grupos femininos.
A transmissão do conhecimento ocorre por meio de academias, escolas de equitação e centros equestres, sendo alimentada no dia a dia por tratadores, criadores, veterinários e artesãos.
Além de sua relevância técnica, a Arte Equestre atua como elemento de identidade coletiva, presença central em romarias, feiras anuais e celebrações sociais por todo o país.
Angola: a matemática ancestral do Sona
Na África Central e Ocidental, a arte dos Sona, desenhos e figuras geométricas traçadas na areia, representa o conhecimento tradicional do povo Lunda Cokwe e de comunidades vizinhas no leste de Angola.
Os praticantes usam o indicador e o dedinho para marcar pontos de referência no chão úmido e coberto de areia, traçando linhas contínuas ao redor desses pontos.
A técnica é transmitida tradicionalmente durante os ritos de iniciação dos jovens e nas últimas décadas institutos educacionais e acadêmicos passaram a utilizá-lo como ferramenta para o ensino da matemática e antropologia.
Reconhecido pela Unesco em 2023, o Sona é uma forma de linguagem usada para expressar crenças, pensamentos, emoções e a relação do ser humano com a natureza.
Inscrita em 2023 na Lista do Patrimônio Imaterial, a Sona refere-se a desenhos e figuras geométricas na areia. É praticada pelo povo Lunda Cokwe e povos vizinhos no leste de Angola.
Moçambique: o rito de passagem Ingoma Ya Mapiko
Listada como Patrimônio Cultural Imaterial que Necessita de Salvaguarda Urgente, a dança Ingoma Ya Mapiko é uma celebração ritualística praticada pelo povo Makonde, no norte de Moçambique.
Tradicionalmente realizada sob a sombra dos cajueiros e mangueiras, a dança marca a transição da puberdade para a vida adulta, mas também é executada em funerais ou festividades comunitárias.
Na performance teatral, os dançarinos mascarados atuam individualmente ou em grupo, acompanhados por tambores e um coro de homens e mulheres que cantam canções que provocam os atores mascarados e os moradores de aldeias vizinhas.
Inscrita em 2023 na Lista do Patrimônio Imaterial da Humanidade, a dança mapiko é uma dança festiva praticada pelo povo Makonde de Moçambique.
O Mapiko sintetiza a busca pelo equilíbrio entre o masculino e o feminino, a superação do medo e a transmissão dos valores espirituais e morais para a juventude que atinge a maturidade.
Brasil: Complexo Cultural do Bumba-meu-boi do Maranhão
No Brasil, o Complexo Cultural do Bumba-meu-boi do Maranhão, inscrito na Lista Representativa em 2019, une fé, arte e festa.
A prática envolve formas de expressão musical, coreográfica e cênica em que a relação dos praticantes com o sagrado é intermediada pela figura do boi.
Bumba-meu-boi, do estado brasileiro do Maranhão, é uma prática ritualística que envolve formas de expressão musical, coreográfica, performática e lúdica.
Com forte carga simbólica, a brincadeira reproduz o ciclo de nascimento, vida e morte do boi, uma metáfora da própria existência humana.
O Bumba-meu-boi maranhense diferencia-se de outras manifestações similares no país pela riqueza dos seus cinco principais “sotaques”, estilos de ritmos e bordados, e pelo calendário festivo que se estende por até oito meses.
O ciclo culmina no final de junho e envolve ensaios, batismos, apresentações públicas e o ritual da morte do boi. A tradição é mantida viva por meio de grupos infantis, oficinas de dança e pelo aprendizado espontâneo nas comunidades.
Timor-Leste: a tecelagem tradicional do Tais
No Sudeste Asiático, o Tais é um tecido artesanal tradicional de Timor-Leste que desempenha um papel central na vida social e cultural da população.
Inscrito em 2021 na Lista de Salvaguarda Urgente da Unesco, o Tais é utilizado em vestimentas tradicionais, cerimônias de boas-vindas a recém-nascidos, rituais fúnebres e festividades locais.
Tais, o tradicional tecido feito à mão no Timor-Leste desempenha um papel importante na vida do povo timorense
Os padrões e cores do tecido variam de acordo com a região e o grupo étnico, servindo como marcador de identidade cultural e status social, além de objeto de valor em dotes e alianças familiares.
Feito de algodão tingido com plantas naturais, o Tais é produzido manualmente em teares simples e embora os homens participem da coleta de plantas e da confecção dos instrumentos, a tecelagem é um conhecimento reservado às mulheres.
Atualmente, a prática enfrenta desafios para sua preservação, ameaçada pela preferência dos jovens por roupas ocidentais, introdução de materiais industriais e diminuição do número de tecelãs ativas.
São Tomé e Príncipe: Tchiloli, o teatro vivo em busca da justiça
Reconhecido em 2025 pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade, o Tchiloli é uma prática de teatro de rua de São Tomé e Príncipe.
Realizado ao ar livre durante festivais e datas comemorativas, o espetáculo combina atores, músicos, dançarinos e uma plateia engajada.
A trama, de inspiração renascentista, gira em torno de um julgamento de homicídio e envolve cerca de trinta atores caracterizados como a corte real, ministros e figuras do sistema judiciário.
O clímax da encenação é o julgamento do filho do imperador Carlos Magno que, apesar de ser da realeza, é julgado e condenado pelo crime cometido, uma representação do princípio da igualdade perante a lei.
Acompanhado por flautas, tambores e chocalhos, o Tchiloli une gerações e reforça valores da promoção da justiça social.
Sr. Olímpio, no violino, e Manel Caloti, na guitarra, tocam mornas
Cabo Verde: Morna e a alma poética
Reconhecida em 2019 pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, a Morna é a principal expressão musical e coreográfica tradicional de Cabo Verde.
A prática artística combina voz, poesia e dança em apresentações que podem ser cantadas ou exclusivamente instrumentais.
A sonoridade é construída predominantemente com cordofones, como guitarra, violino, viola de 10 cordas e cavaquinho, acompanhados por piano, percussão e baixo.
As letras são compostas majoritariamente em crioulo cabo-verdiano e os versos exploram temas sobre a vivência no arquipélago.
A Morna é está presente em momentos da vida comunitária, como casamentos, batizados e reuniões familiares. Sua transmissão ocorre de por meio de oficinas, programas de rádio, festivais e concursos musicais tradicionais, como o “Todo Mundo Canta”.
Cultura no centro do desenvolvimento sustentável
Na Década Internacional da Cultura para o Desenvolvimento Sustentável (2027-2036), a cultura se consolida como motor central da resistência comunitária, inovação e bem-estar social.
As práticas vivas oferecem um conhecimento vital sobre a gestão do meio ambiente e abrem espaços de diálogo entre gerações.
Ao salvaguardar este patrimônio intangível, a Unesco reconhece o esforço dos países lusófonos em proteger o seu passado e constroem pontes para um futuro mais sustentável, inclusivo e plural.
*Jornalista estagiária da ONU News.
Fonte ==> Gazeta