José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – “Uma ilha de biodiversidade em um mar de monocultura”: assim foi caracterizada, por um estudo recente, a Terra Indígena Pimentel Barbosa (TIPB), no nordeste de Mato Grosso. A pesquisa mostrou que seu processo de ocupação humana e cobertura vegetal permaneceu substancialmente inalterado ao longo de quatro décadas, ao passo que o entorno foi modificado pelo avanço da pecuária, da soja e da infraestrutura criada para a expansão da fronteira agrícola brasileira, como ocorreu com a instalação dos grandes eixos rodoviários, a BR-158 e a BR-163. Com uma área de 329 mil hectares, a TIPB era habitada, em 2022, por uma população de 2.369 pessoas, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O povo, da etnia A’uwẽ Xavante, obteve a homologação da Terra por meio do Decreto 93.147, de 1986. “De lá para cá, ao longo desses 40 anos, a paisagem da TIPB permaneceu praticamente inalterada, dominada pela vegetação natural característica do Cerrado, com formações savânicas, fragmentos de floresta e áreas úmidas. Ao passo que, no entorno, ocorreu uma transformação contínua e direcionada. As formações naturais quase desapareceram, dando lugar a pastagens e culturas agrícolas, principalmente de soja”, diz Isabella Coelho de Oliveira, autora principal do estudo.
A pesquisa recebeu em 2024 o Prêmio de Mérito Científico no 32º Congresso de Iniciação Científica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e foi publicada em maio no periódico Geocarto International.
O estudo analisou a evolução do uso da terra entre 1985 e 2024 dentro da TIPB e em uma faixa de 50 quilômetros ao redor do território. O trabalho utilizou dados anuais da Coleção 10 do Projeto MapBiomas e técnicas estatísticas multivariadas para identificar os padrões temporais de transformação da paisagem. Esse levantamento em grande escala foi complementado pela manutenção do diálogo remoto com a comunidade Xavante e por pesquisa de campo, com quatro estadias da pesquisadora na terra indígena, envolvendo um trabalho com cartografia, a participação nos Warã (as assembleias diárias) e convivência com a população local.
“Quando a Isabella me falou em ‘ilhamento territorial’, eu disse a ela: ‘Esse termo não existe na literatura. Você está com um grande estudo nas mãos’. E me entusiasmei em participar”, afirma Anderson Targino Ferreira, pesquisador do Centro de Lasers e Aplicações (Celap) do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) e do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, que trabalhou na parte de geotecnologias e análise estatística. Segundo ele, os dados do MapBiomas permitiram acompanhar quase quatro décadas de transformação da paisagem: “Inicialmente havia uma continuidade ecológica entre o interior e o exterior da terra indígena, mas, ao longo do tempo, o entorno foi sendo fragmentado pela expansão agropecuária, enquanto o interior permaneceu relativamente preservado”.
Os participantes da pesquisa identificaram três grandes fases nesse processo: uma “fase basal”, entre 1985 e 1995, ainda dominada pela vegetação nativa; uma “fase transicional”, de 1996 a 2012, marcada pelo desmatamento e a expansão das pastagens; e uma “fase de consolidação”, entre 2013 e 2024, caracterizada pela dominância de usos agroindustriais da terra, principalmente pela soja e pecuária em larga escala. “Foi um processo de eliminação muito intensa da biodiversidade local, restando justamente aquele território ilhado configurado pela TIPB”, resume Ferreira.
“Esse contraste sustenta o conceito de ‘ilhamento territorial’ (territorial islanding), utilizado no estudo para descrever territórios socioecológicos relativamente preservados que persistem como ‘ilhas’ em meio a paisagens profundamente transformadas pelo avanço econômico”, comenta Vicente Eudes Lemos Alves, professor do IG-Unicamp que orientou o trabalho de Oliveira.
“Basta percorrer de sul para norte a BR-158 para perceber esse contraste. De um lado, fica a terra indígena conservada, com a floresta em pé; do outro, áreas completamente desmatadas para a soja e o gado”, conta a pesquisadora. Segundo ela, o trabalho de campo foi decisivo para compreender a situação territorial: “Ao longo de quatro estadias minhas, uma delas com o apoio do meu orientador e de colegas de curso, na TIPB, os líderes da comunidade me informaram quais atividades do entorno estavam pressionando a terra indígena e como se expandiam por meio do desmatamento. Me pediram que orientasse o grupo de jovens a produzir um mapeamento próprio para compor um material cartográfico a ser utilizado como forma de defesa e monitoramento do território”.
Em primeiro plano, a terra desmatada para a atividade agropecuária. Ao fundo, a biodiversidade preservada na Terra Indígena Pimentel Barbosa (foto: Isabella Coelho de Oliveira)
Troca de saberes
Em parceria com a Associação dos Xavante de Pimentel Barbosa, Oliveira organizou oficinas para entender que áreas precisavam ser mapeadas e para ensinar a população local a utilizar um aplicativo, baseado no GPS, destinado à coleta de dados. “As pessoas aprenderam a usar o aplicativo e a exportar os pontos, o passo inicial para produzir o mapeamento. Ainda que envolva etapas técnicas posteriores, como a manipulação de softwares de geoprocessamento, alcançaram seu objetivo, marcando o início de uma autonomia para produzir cartografia elas mesmas. Foi uma troca muito rica de saberes: eu aprendi com eles a compreender o espaço e o território, o Ró, a partir da perspectiva indígena Xavante; e eles aprenderam comigo a utilizar o conhecimento científico disponível na universidade e os recursos tecnológicos contemporâneos para defender sua terra e preservar o meio ambiente”, relata.
A pesquisadora Maria Carolina Ribeiro, do Centro Paulista de Estudos da Transição Energética (CPTEn), que também participou do estudo, destaca que o trabalho dialoga diretamente com diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). “O estudo atende especialmente ao ODS 10 (Redução das Desigualdades), ao ODS 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima), ao ODS 15 (Vida Terrestre) e ao ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes). E acreditamos também que essa pesquisa possa colaborar com o reconhecimento do ODS 18, voltado à igualdade étnico-racial, proposta defendida pelo atual governo brasileiro em fóruns internacionais”, informa.
Baluartes de preservação socioambiental
O estudo contextualiza as transformações observadas em processos históricos mais amplos de concentração fundiária e conversão do uso da terra no Brasil. Conforme os autores, as políticas estatais implementadas ao longo do século 20, incluindo incentivos à ocupação do Centro-Oeste e integração logística e expansão da infraestrutura, contribuíram para acelerar a incorporação do Cerrado às cadeias globais de commodities agrícolas. O resultado é que o Cerrado, fundamental pela biodiversidade e para a preservação dos recursos hídricos continentais, tornou-se, hoje, um dos biomas mais ameaçados do Brasil (leia mais em: agencia.fapesp.br/50182).
O trabalho chama atenção para os impactos hidrológicos e climáticos associados à conversão da vegetação nativa. A substituição do Cerrado por monoculturas mecanizadas e pastagens extensivas reduz a infiltração de água no solo, compromete a recarga de aquíferos e altera os fluxos atmosféricos de umidade. Segundo os autores, esses processos afetam inclusive os chamados “rios voadores” – sistemas atmosféricos que transportam vapor d’água da Amazônia e do Cerrado para outras regiões da América do Sul. A redução da evapotranspiração causada pelo desmatamento tende a diminuir a disponibilidade de umidade para formação de chuvas, aumentando a vulnerabilidade a secas e eventos climáticos extremos.
“Nesse contexto, as terras indígenas tornaram-se baluartes de preservação socioambiental. O estudo mostra que a estabilidade observada na TIPB não decorre apenas da demarcação formal, mas principalmente da continuidade dos sistemas indígenas de governança territorial. Hoje, quando olhamos o entorno, vemos que praticamente toda a vegetação originária desapareceu. O que permaneceu preservado foi justamente aquilo que as terras indígenas protegeram”, enfatiza Alves.
Os autores destacam que, para o povo A’uwe Xavante, o Cerrado – chamado de Ró – não constitui apenas uma base material de subsistência, mas um elemento central da identidade cultural, articulando práticas de caça, pesca, coleta, agricultura tradicional, rituais e formas próprias de organização social. “O território, para os A’uwe Xavante, não se limita à área delimitada oficialmente. Envolve também o Cerrado, a mata, os rios, a flora, a fauna, os espíritos e toda uma concepção cosmológica do mundo”, pontua Oliveira.
Ela desenvolveu sua pesquisa com bolsas de Iniciação Científica e de Estágio de Pesquisa no Exterior financiadas pela FAPESP.
O artigo Revealing indigenous territorial islanding in an agricultural frontier through land-use trajectories and multivariate analysis pode ser lido em: tandfonline.com/doi/full/10.1080/10106049.2026.2670932.
Fonte ==> Folha SP