Tabela Brasileira de Composição de Alimentos se transforma em ecossistema digital de pesquisa

Tabela Brasileira de Composição de Alimentos se transforma em ecossistema digital de pesquisa

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Tabela Brasileira de Composição de Alimentos se transforma em ecossistema digital de pesquisa

Mantida por centro apoiado pela FAPESP na USP, plataforma expande ferramentas computacionais, subsidia levantamentos nacionais de saúde pública e busca novas alternativas de financiamento

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Tabela Brasileira de Composição de Alimentos se transforma em ecossistema digital de pesquisa

Mantida por centro apoiado pela FAPESP na USP, plataforma expande ferramentas computacionais, subsidia levantamentos nacionais de saúde pública e busca novas alternativas de financiamento

“A avaliação da qualidade passa pela documentação. Compilar não é apenas coletar informações”, diz Eliana Bistriche Giuntini, pesquisadora responsável pela compilação e revisão dos dados de alimentos in natura e ingredientes e pela agregação dos dados da TBCA (imagem: Shutterstock)

Agência FAPESP – A Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TBCA), da Universidade de São Paulo (USP), deixou de ser apenas uma base de dados para se transformar em um ecossistema digital que reúne informações, ferramentas computacionais, metodologias e aplicações voltadas à pesquisa, à saúde pública e à inovação. A tabela compila atualmente 6.182 alimentos e ingredientes, conta com cerca de 3 mil acessos por dia e 600 mil usuários por ano, inclusive de outros países. Agora a iniciativa entra em uma nova etapa: buscar alternativas de financiamento que permitam manter o acesso aberto e assegurar a sua atualização, manutenção e expansão.

Lançada em 1998 no âmbito da Rede Brasileira de Sistemas de Dados de Composição de Alimentos (BRASILFOODS), a TBCA foi incorporada, em 2013, às atividades do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC – Food Research Center), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP com sede na USP, que em 2025 passou a ser um dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) apoiados pela Fundação. Desde a sua incorporação ao FoRC, a base foi reformulada, expandida e conectada a novas aplicações.

“Hoje, a TBCA não é só uma tabela. É um banco de dados orgânico, com muito mais informação do que apenas os componentes dos alimentos e preparações. Isso permitiu criar ferramentas que levam esses dados a pesquisadores e outros usuários em formatos que vão muito além de uma planilha ou de um PDF”, afirmou Kristy Soraya Coelho, pesquisadora da área de nutrição responsável pelo desenvolvimento das ferramentas ligadas à TBCA, à Assessoria de Imprensa do FoRC.

Além de crescer em volume, a tabela passou a gerar produtos derivados: bases de dados voltadas a finalidades específicas, manuais técnicos, aplicativos, ferramentas computacionais e metodologias adotadas em iniciativas latino-americanas. A trajetória ajuda a mostrar como uma infraestrutura científica, quando mantida e atualizada de forma contínua, pode ampliar seu impacto muito além do projeto que lhe deu origem.

O crescimento foi sustentado por um trabalho pouco visível para quem consulta os valores de energia, proteínas, vitaminas ou minerais na tela: a avaliação da origem e da qualidade de cada informação. Os dados podem vir de análises laboratoriais, publicações científicas, outras bases ou documentos de produtos. Antes de serem incluídos na TBCA, passam por critérios de identificação do alimento, amostragem, tratamento das amostras, método analítico, forma de expressão dos resultados e compatibilidade entre os dados.

“A avaliação da qualidade passa pela documentação. Toda tabela precisa explicar de onde vieram os dados, quais métodos analíticos foram considerados e como os cálculos, caso existam, são feitos. Compilar não é apenas coletar informações”, explicou Eliana Bistriche Giuntini, pesquisadora responsável pela compilação e revisão dos dados de alimentos in natura e ingredientes e pela agregação dos dados da TBCA.

Novas aplicações

A versão mais recente da tabela, a 7.3, reúne cerca de 1.800 alimentos in natura e ingredientes. Na atualização, foi incorporada uma base com 306 preparações de dietas hospitalares, construída em parceria com o Serviço de Nutrição e Dietética do Instituto Central do Hospital das Clínicas (HC) da USP.

A capacidade de detalhar as receitas é um dos diferenciais da tabela. Para avaliar o que uma população efetivamente consome, não basta saber a composição de um prato pronto: é preciso desagregá-lo e identificar quanto há de cada ingrediente, além das transformações provocadas pelo cozimento, pela perda ou pelo ganho de água e pela adição ou perda de gordura.

Essa estrutura permitiu que a TBCA fosse usada como ferramenta de apoio à análise do consumo alimentar da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani) de 2019, financiado pelo Ministério da Saúde. Harmonizada com os bancos das pesquisas de 2008-2009 e 2017-2018, a base auxiliou a avaliação de mais de 65 mil registros de alimentos e 84 mil recordatórios alimentares de 24 horas. Os resultados desse tipo de levantamento ajudam a identificar padrões de consumo e possíveis inadequações nutricionais, oferecendo subsídios para pesquisas e políticas públicas.

Ao organizar e documentar as etapas de compilação, agregação e cálculo de receitas, a equipe transformou conhecimento acumulado em produtos que podem ser replicados. Em 2023, lançou o e-book Metodologia para calcular a composição química de preparações a partir de receitas: um guia prático. Em 2025, publicou o manual de agregação de dados em português; a versão em espanhol saiu em fevereiro deste ano. Uma edição revisada e ampliada do guia de receitas em espanhol está prevista para outubro de 2026, e a revisão do manual de compilação está em preparação.

As metodologias também estão sendo convertidas em códigos. Uma ferramenta poderá automatizar o cálculo da composição química das preparações, de forma a integrá-lo à área administrativa da TBCA. Hoje, os cálculos são feitos fora do sistema e depois inseridos na base; em breve, ocorrerão dentro da própria plataforma e poderão ser atualizados quando um ingrediente for revisto.

Outras soluções estão em diferentes fases de desenvolvimento: uma voltada ao cálculo das informações exigidas na rotulagem nutricional; um protótipo que permitirá a pesquisadores coletar recordatórios alimentares e vinculá-los a bases nacionais de composição de alimentos; e uma ferramenta para gerar planos alimentares personalizados. Há ainda um projeto para adaptar esse conhecimento à dieta cetogênica – em que os carboidratos da alimentação são substituídos por gorduras – usada no tratamento da epilepsia farmacorresistente, com alimentos e preparações compatíveis com a realidade brasileira.

Referência latino-americana

A experiência acumulada pela TBCA tornou-se a referência metodológica para o Portal Latinfoods, lançado em outubro de 2024. A plataforma reúne dados de composição de alimentos de oito países – Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, Guatemala, México, Paraguai e Uruguai – e foi criada para ampliar a disponibilidade de informações padronizadas sobre alimentos que representam a biodiversidade e os hábitos alimentares da região.

A equipe brasileira também já capacitou mais de 400 profissionais do Brasil e de outros países latino-americanos. Na Costa Rica, por exemplo, o trabalho contribuiu para identificar quais são os alimentos/ingredientes e preparações mais consumidos pela população local, definir os ingredientes prioritários para análises laboratoriais e modelar uma ferramenta para avaliação de consumo alimentar.

“À medida que a TBCA amplia seu alcance e suas aplicações, cresce também o desafio de manter esse trabalho de forma contínua. Isso envolve não apenas a atualização dos dados já disponíveis, mas também a incorporação de novas informações e o desenvolvimento de ferramentas que acompanhem as diferentes formas de uso da base”, finalizou Kristy Coelho.

 



Fonte ==> Folha SP

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