Mochila impermeável produzida por artesãos a partir da reciclagem de banners corporativos (foto: divulgação/Ciclou)
Sistema conecta geradores de resíduos industriais a artesãos da periferia
15 de setembro de 2026
Roseli Andrion | Pesquisa para Inovação – Uniformes corporativos, lonas publicitárias e tecidos técnicos industriais quase sempre terminam seus “ciclos de vida” em aterros sanitários, mesmo quando ainda apresentam boas condições de uso. Para mudar esse cenário, a startup paulista Ciclou desenvolveu um sistema que permite transformar esse passivo ambiental em oportunidade econômica ao conectar grandes geradores de resíduos – como indústrias e corporações de setores como eventos e infraestrutura – com artesãos da periferia, uma rede descentralizada de costureiros, designers e artistas locais que frequentemente trabalham na informalidade e buscam inclusão produtiva. A solução ataca um dos maiores desafios da economia circular: não apenas coletar o resíduo, mas encontrar a pessoa certa para transformá-lo.
Na prática, essa engrenagem se materializa em iniciativas como a parceria firmada com a multinacional de infraestrutura Acciona, responsável pelas obras da linha 6-Laranja do metrô de São Paulo. Em vez de descartar os antigos fardamentos técnicos de suas frentes de obra, a corporação destinou esse passivo têxtil à startup. O material foi entregue a uma equipe de seis artesãos e costureiros da rede da Ciclou, que trabalhaou em conjunto com uma organização não governamental (ONG) paulistana de acolhimento social. Juntos, eles higienizaram, cortaram e ressignificaram os tecidos de alta resistência, transformando-os em 50 mochilas afetivas e personalizadas, que retornaram para a própria concessionária para serem sorteadas entre os colaboradores durante a Semana do Meio Ambiente, fechando o ciclo do resíduo com impacto social e ambiental mensurável.
A Ciclou nasceu em 2021 com o objetivo de promover a economia circular. Inicialmente, a escolha dos artesãos pela empresa era feita de forma manual, baseada na memória da equipe. “No começo desse projeto, lembrávamos das características de cada um e decidíamos quem receberia o projeto”, relata ao Pesquisa para Inovação a engenheira de produção mecânica Amanda Martins, fundadora da Ciclou. “Logo, porém, percebemos que esse modelo não permitia escalar.”
Para resolver esse gargalo, os pesquisadores da empresa desenvolveram, com apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, um algoritmo que analisa a realidade de cada artesão. O sistema considera variáveis como espaço físico disponível, maquinário utilizado e afinidade técnica com diferentes tipos de textura. Essa abordagem é fundamental, pois um artesão ou artesã que trabalha na mesa da sala com tecidos leves de algodão, por exemplo, não teria condições de manipular lonas pesadas ou náilon industrial, materiais que demandariam agulhas especiais e maior esforço motor.
Para validar a tecnologia, a equipe estruturou um Produto Mínimo Viável (MVP, em inglês), uma versão simplificada da solução voltada a testar a viabilidade do negócio em ambiente controlado. Com ele, foi possível mapear a rotina e identificar as habilidades específicas dos profissionais. Além disso, o teste serviu para avaliar se a tecnologia poderia tornar o processo mais eficiente, atuar como um escudo contra o desperdício de tempo e recursos e, consequentemente, ampliar as oportunidades de geração de renda.
Os resultados durante os testes com o MVP foram expressivos: o tempo necessário para conectar a matéria-prima ao artesão mais adequado foi reduzido em 89%. Essa atividade, que antes podia consumir até nove horas de contatos e buscas, passou a ser realizada em aproximadamente uma hora.
Houve, ainda, uma queda de 16% nos erros relacionados ao envio de matéria-prima cujos artesãos não estavam acostumados a trabalhar, o que representa uma diminuição do retrabalho causado pelo envio de insumos incompatíveis com a produção. A tecnologia também gerou reflexos positivos na autoestima e na condução do trabalho: ao oferecer transparência sobre a origem dos materiais e o histórico dos projetos, a plataforma registrou um aumento de 26% na satisfação dos artesãos que participaram dos testes.
Esses números revelam ganhos que transcendem a produtividade, já que, quando o material chega ao artesão em condições inadequadas, toda a cadeia é impactada. “Os erros representam desperdício de tempo, dinheiro e material”, resume Martins. Como é preciso refazer protótipos, repetir fretes, substituir insumos e, muitas vezes, descartar parte do resíduo, a fundadora enfatiza: “Tornar essa conexão mais precisa representa um ganho econômico e ambiental simultâneo”.
Reciclagem criativa
O foco da Ciclou está na chamada “reciclagem criativa” ou upcycling. Diferentemente da reciclagem industrial comum, que tritura os materiais para transformá-los em matéria-prima, essa prática converte o resíduo em um novo produto, como acessórios de moda exclusivos. Nesse processo, o design e a história contida no insumo agregam valor à peça final.
No setor têxtil, por exemplo, muitas peças produzidas para campanhas promocionais, assim como uniformes e coleções de roupas de marca tornam-se obsoletos antes de perderem sua funcionalidade. É justamente esse tipo de resíduo que interessa à Ciclou. A empresa prioriza materiais para os quais ainda não existe uma cadeia consolidada de reciclagem e que acabam descartados por falta de alternativas economicamente viáveis.
Atualmente, o principal obstáculo é a captação regular de materiais. As cooperativas de triagem de recicláveis, em geral, não separam sobras de tecidos sintéticos e plásticos flexíveis complexos, como os de lonas náuticas ou publicitárias, pela ausência de compradores constantes. A Ciclou busca incluí-las na rede produtiva para estruturar a captação e criar escala, incorporando esses resíduos a novos projetos e ampliando o impacto ambiental e social da iniciativa.
Para o futuro, a expectativa é que as empresas cadastrem os resíduos diretamente no sistema, e que os artesãos recebam projetos compatíveis com suas habilidades e capacidade produtiva. Além disso, a tecnologia poderá sugerir melhorias na organização do trabalho e contribuir para a profissionalização dos empreendedores do setor.
Ao harmonizar a geolocalização e as reais competências de cada profissional, a tecnologia pode consolidar-se como uma ferramenta de inclusão econômica. Se essa conexão se tornar rotina, a transformação mais importante talvez não ocorra apenas nas mochilas, bolsas ou estojos produzidos a partir de resíduos industriais. Ela começará muito antes, quando um material deixar de ser tratado como lixo para voltar a ser visto como recurso.
Diminuição da informalidade
Antes de ser disponibilizado ao grande público, o projeto passa por ajustes estruturais de segurança da informação e adequações às diretrizes da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O plano, a partir daí, é substituir a informalidade das negociações via aplicativos de mensagens por um ambiente digital unificado, seguro e eficiente.
O desafio enfrentado pela startup reflete uma tendência global urgente. Segundo o relatório Global Waste Management Outlook 2024, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, são produzidos anualmente mais de 2 bilhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos no mundo. Paralelamente, o consumo de recursos naturais cresce em ritmo superior à capacidade de regeneração dos ecossistemas. Nesse contexto, ampliar o reaproveitamento de materiais é uma das principais estratégias para reduzir a pressão sobre matérias-primas e diminuir o volume destinado a aterros.
No Brasil, dados do Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (Sicab) registram pouco mais de 200 mil profissionais formalizados com a Carteira Nacional da Artesã e do Artesão — trabalhadores que podem ajudar a transformar esses insumos. Esse número, entretanto, reflete apenas parte da realidade: estimativas de órgãos como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) indicam que cerca de 8,5 milhões de pessoas vivem do artesanato, em geral com atuação autônoma informal e renda variável.
A tecnologia da Ciclou busca integrar essa “mão de obra invisível” das periferias a uma lógica de produção sob encomenda, eliminando o risco de o artesão produzir sem ter para quem vender. “Muitas vezes, o profissional produz sem saber se haverá demanda”, lembra Martins. “A encomenda muda completamente essa dinâmica: ela garante um destino para o produto, reduz desperdícios e auxilia no planejamento da renda.”
Nos últimos anos, o debate sobre economia circular deixou de se restringir ao descarte correto de resíduos: o desafio atual é prolongar a vida útil dos materiais para preservar seu valor econômico e reduzir a necessidade de consumo de novos recursos naturais. Ao conectar resíduos industriais a profissionais que atuam no seu reaproveitamento, os descartes são transformados em matéria-prima, renda e novos produtos. “Além de encontrar um novo uso para o material, é preciso encontrar a pessoa certa para fazer essa transformação acontecer”, conclui Martins.
Fonte ==> Folha SP