Simpósio internacional conecta jovens lideranças para impulsionar a ciência nas Américas

Simpósio internacional conecta jovens lideranças para impulsionar a ciência nas Américas

André Julião, de Itatiba | Agência FAPESP – Como garantir um futuro sustentável para a ciência nas Américas? Para buscar respostas, 53 jovens pesquisadores de 17 países do continente reuniram-se em Itatiba (SP) entre terça-feira (25/08) e hoje (27/08). O objetivo do encontro é romper fronteiras geográficas e disciplinares, criando redes de colaboração para debater temas como o futuro da Amazônia, a preservação dos oceanos e os impactos das mudanças climáticas.

Entre os organizadores da iniciativa, intitulada Connections to Sustain Science in Latin America Symposium 2026, estão a FAPESP, a Academia Brasileira de Ciências (ABC), as Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina (Nasem) dos Estados Unidos e a Rede Interamericana de Academias de Ciências (Ianas). Juntas, as instituições buscam impulsionar soluções que vão da inteligência artificial à biomedicina.

“Este simpósio tem o objetivo de criar dois tipos de conexões. A primeira é intelectual: conexões com importantes questões nas fronteiras da ciência e com métodos que possam transformar nosso próprio trabalho. A segunda é humana: conexões com colegas entre países, instituições e disciplinas”, disse Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, na abertura do evento.

Segundo o dirigente, cada vez mais os avanços científicos surgem onde as disciplinas se encontram, assim como as carreiras se sustentam não apenas pelo talento individual, mas por comunidades de confiança – pessoas que trocam ideias, compartilham métodos, abrem portas e, por vezes, se desafiam a pensar diferente.

“Nossa esperança, portanto, é simples, mas ambiciosa. Esperamos que os participantes deixem o encontro com uma compreensão mais ampla dos assuntos discutidos e com novas perguntas para suas próprias pesquisas. Também esperamos que estabeleçam relações que continuem por muito tempo após a sessão final, que possam resultar em colaborações, projetos conjuntos, infraestrutura compartilhada, intercâmbio de estudantes ou uma rede confiável de colegas pelas Américas”, afirmou Zago.

Helena Nader, presidente da ABC, ressaltou que o futuro da ciência na América Latina e no Caribe depende de conexão e que os desafios que enfrentamos – das mudanças climáticas às crises de saúde pública – não possuem fronteiras e demandam uma comunidade científica igualmente sem fronteiras.

“O nome do evento foi cuidadosamente escolhido. Não estamos falando apenas sobre a sobrevivência da ciência na América Latina, mas sobre sustentá-la, construindo um ecossistema em que ela possa prosperar, se regenerar e florescer pelas gerações seguintes”, afirmou Nader, em mensagem de vídeo preparada para o evento.

A abertura contou ainda com Karen Strier, copresidente da Ianas, e Cherry Murray, secretária internacional das Nasem.



Iniciativa reuniu pesquisadores de 17 países (foto: Thiago Silva)

Ciência marinha sem “paraquedas”

Os oceanos foram um dos temas discutidos no evento. Laure Zanna, professora da New York University (Estados Unidos), falou sobre a grande demanda computacional para criar modelos da dinâmica dos oceanos e como a inteligência artificial pode ajudar a acelerar a criação dessas ferramentas.

Sua equipe desenvolveu uma rede neural denominada Samudra (“oceano”, em sânscrito), que emula o oceano em 3D e reproduz variáveis-chave, como altura da superfície, correntes, temperatura e salinidade.

“Tudo isso cem vezes mais rápido que os métodos existentes, a um custo computacional baixo, podendo ser feito num laptop comum. Podemos ter uma perspectiva do clima de décadas à frente com precisão muito próxima à que os modelos têm previsto até agora”, explicou a pesquisadora.

Os oceanos absorvem mais de 90% do excesso de calor e entre 20% e 30% das emissões globais de dióxido de carbono (CO2). Por isso, são essenciais para prever os impactos das mudanças climáticas.

Diva Amon, codiretora da SpeSeas, organização não governamental sediada em Trinidade e Tobago, contou sua experiência como cientista-chefe da primeira expedição do oceano profundo liderada por caribenhos, ocorrida entre junho e julho de 2026.

Amon, que também é pesquisadora da Universidade da Califórnia em Santa Barbara (Estados Unidos), falou ainda sobre a prática da chamada “ciência de paraquedas”, em que pesquisadores do Norte Global levam para suas instituições material biológico do Sul Global para realizar estudos sem a participação de cientistas locais. Ela enfatizou ser possível estabelecer colaborações benéficas para todos.

A sessão sobre oceanos foi encerrada por Henri Vallès, da University of West Indies, em Barbados, que comentou a dificuldade de monitorar a pesca no Caribe e descreveu seu trabalho com atum, peixe ameaçado pela pesca predatória.



Tanya Berger-Wolf (Ohio State University), Regina R. Rodrigues (UFSC), Karen Strier (Ianas, EUA), Cherry Murray (Nasem, EUA) e Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP (foto: Thiago Silva)

O fator humano na conservação da floresta

Outro tema abordado no simpósio foi “Amazônia e Sustentabilidade”. Sabina Ribeiro, professora da Universidade Federal do Acre (UFAC), destacou os desafios de compatibilizar a manutenção da floresta em pé com estratégias que garantam uma vida digna para pessoas que dependem da terra para sobreviver.

Uma das soluções estudadas por seu grupo são as agroflorestas, em que se mantêm uma cobertura vegetal que produz alimentos e serve como fonte de renda para algumas dessas populações.

Fernando García Mendez, da North Carolina State University (Estados Unidos), apresentou dados que evidenciam como as queimadas na Amazônia prejudicam a saúde humana e os ganhos com a queda do desmatamento. Segundo ele, alertar para os males das queimadas pelo viés da saúde pode ser uma forma mais efetiva de comunicar o tema.

Outra participante foi Claudia Vega, do Centro de Innovación Científica Amazónica, em Madre de Dios, Peru. Especialista na dinâmica do mercúrio na Amazônia, a pesquisadora explicou como a contaminação – impulsionada por atividades como a mineração de ouro – entra nas cadeias alimentares e afeta a saúde de comunidades que dependem do peixe para sobreviver. Além de monitorar os níveis de exposição na região, ela lidera frentes de educação ambiental, levando o conhecimento científico de volta para as populações diretamente impactadas.

A programação também abrange temas como monitoramento de eventos extremos, computação de alta performance para ciências da vida, uso de inteligência artificial para monitoramento da biodiversidade da Amazônia e apoio a povos indígenas, aprendizagem de máquina para pesquisas e genômica do câncer.

 



Fonte ==> Folha SP

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