Saúde precária e pobreza formam ciclo que perpetua desigualdades em favelas

Saúde precária e pobreza formam ciclo que perpetua desigualdades em favelas

Revisão de artigos conduzida no Centro de Estudos da Favela analisa como carências estruturais, múltipla carga de doenças e perdas de renda interagem ao longo de gerações

Agência FAPESP * – A saúde precária pode ser simultaneamente consequência e fator propulsor da pobreza, da exclusão social, da desvantagem educacional, da degradação ambiental e da redução das oportunidades de mobilidade social. São dinâmicas que se retroalimentam e ajudam a explicar a persistência das desigualdades em saúde entre famílias, comunidades e gerações. Essa é uma das principais conclusões de uma pesquisa conduzida no Centro de Estudos da Favela (CEFAVELA) por Edmundo Werna, pesquisador visitante da Oxford Brookes University, do Reino Unido.


Apoiado pela FAPESP, o trabalho foi divulgado em setembro como a 5ª Nota de Pesquisa do CEFAVELA – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP na Universidade Federal do ABC (UFABC).


A nota também destaca a persistência de uma múltipla carga de doenças, em que enfermidades infecciosas coexistem com as não transmissíveis, as materno-infantis, os desafios de saúde mental e as lesões. Essas cargas frequentemente interagem e se reforçam mutuamente. A análise sobre elementos relacionados às questões de saúde mental e também de mudanças climáticas, que estão aparecendo com mais frequência nas pesquisas sobre saúde em territórios precários, é um dos destaques.


“Compreender as interações constitui um dos principais desafios para a pesquisa e a formulação de políticas públicas”, aponta no texto o pesquisador, que tem doutorado em desenvolvimento urbano pela Universidade de Londres e mais de 40 anos de experiência na área. A partir da revisão de um amplo conjunto de publicações científicas, ele identifica os principais determinantes da saúde em diversas áreas – que estão interligados – e examina seus impactos globais nas populações.


Um exemplo está na renda precária. Essa limitação pode restringir o acesso à habitação adequada. Por sua vez, a moradia em condições precárias pode aumentar a exposição a riscos ambientais e doenças infecciosas. Tais impactos na saúde podem levar à redução da renda familiar por meio da perda de oportunidades de emprego, redução da produtividade, aumento das responsabilidades de cuidado e das despesas com tratamentos médicos, retroalimentando o problema da renda e fechando o ciclo.


Mesmo doenças temporárias podem gerar significativa desorganização econômica. As famílias podem ser forçadas a reduzir o consumo de alimentos, adiar a busca por cuidados de saúde ou retirar crianças da escola.


As condições precárias de vida contribuem para desfechos adversos em saúde, mas a saúde precária também pode reforçar e reproduzir as próprias condições que geram vulnerabilidade inicialmente. “Esses ciclos de retroalimentação ajudam a explicar por que as desigualdades em saúde frequentemente persistem ao longo do tempo e entre gerações, mesmo quando são introduzidas melhorias incrementais”, aponta Werna.


Violência e mudança climática


Ganha destaque na revisão o fato de que pesquisas iniciais sobre saúde urbana apontavam a persistência de uma dupla carga de enfermidades, na qual doenças infecciosas coexistiam com não transmissíveis. Os estudos, em conjunto, mostraram que infecções recorrentes podem contribuir para uma vulnerabilidade fisiológica de longo prazo, enquanto doenças crônicas podem aumentar a suscetibilidade a doenças infecciosas e agravar os desfechos em saúde. Essa dupla carga é agravada por outros fatores que têm sido pesquisados mais recentemente, como o estresse associado à violência e os problemas relacionados ao meio ambiente.


A revisão mostra também um número crescente de relatos sobre mecanismos de retroalimentação envolvendo questões de saúde mental e vulnerabilidade social. Estresse crônico, insegurança, violência, incerteza e exposição repetida a riscos ambientais podem contribuir para ansiedade, depressão e sofrimento psicossocial. “São condições que podem afetar o desempenho educacional, a estabilidade no emprego, a participação social e a utilização dos serviços de saúde, reforçando, assim, formas mais amplas de exclusão social e econômica”, ressalta o texto.


Outro importante avanço da pesquisa está na identificação de estudos que apontam formas de resiliência e adaptação que podem mitigar as condições adversas. Iniciativas comunitárias, organizações de bairro e redes de ajuda mútua ilustram como os moradores frequentemente mitigam riscos.


“Essas iniciativas não substituem os investimentos públicos ou as reformas estruturais, mas demonstram que os assentamentos informais são sistemas sociais dinâmicos e não espaços passivos de vulnerabilidade. Essas iniciativas devem ser consideradas na formulação de políticas públicas”, finaliza o estudo.


A nota de pesquisa Determinants, pathways and health outcomes in informal settlements: Towards an integrated framework pode ser lida em: cefavela.ufabc.edu.br/notasdepesquisa/v2n5/.


* Com informações de Janaína Simões, do CEFAVELA.

 



Fonte ==> Folha SP

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