Recompensa obtida com esforço pode ser mais valorizada – 26/02/2026 – Ciência

Atleta vestindo uniforme azul e tênis vermelhos está deitada de costas na pista de corrida molhada, com um braço estendido e uma perna dobrada, aparentemente descansando ou exausta.

O esforço pode tornar as recompensas mais valiosas. A conclusão é de um estudo, desenvolvido por pesquisadores de Stanford (Estados Unidos), publicado no fim do mês passado na revista Nature.

O trabalho oferece uma explicação fisiológica para o paradoxo do esforço, termo que busca contemplar a contradição entre a sensação desagradável que pode vir da necessidade de foco e perseverança e a maior valorização da recompensa fruto do empenho.

De acordo com a pesquisa, o esforço provoca a liberação do neurotransmissor acetilcolina, que, por sua vez, aciona o neurotransmissor dopamina, ligado ao prazer, quando a recompensa é entregue.

Até alguns anos atrás, a ciência focava o custo do esforço. A “lei do menor esforço”, por exemplo, foi cunhada em 1930 e descreve a preferência dos animais em exercer o menor esforço possível, seja físico ou mental, para obter a mesma recompensa.

Mas pesquisadores passaram a se debruçar sobre outro aspecto do esforço. Um dos principais trabalhos nesse sentido, realizado pela Escola de Negócios de Harvard e publicado em 2012, chamou de efeito IKEA a valorização de produtos “self-made”. O artigo diz que, quando a conclusão das tarefas era bem-sucedida, as pessoas viam os produtos que haviam criado com valor similar ao daqueles feitos por especialistas.

Esse comportamento não é exclusivo de humanos. Uma pesquisa de 2018 colocou formigas em uma passarela vertical e outra horizontal, onde elas tinham que caminhar para chegar até a comida, cuja qualidade era idêntica em ambos trajetos. O artigo concluiu que, quando a busca por alimento exigia maior esforço, como na passarela vertical, as formigas liberavam 47% mais feromônios. Essas substâncias são depositadas pelas formigas para indicar às demais uma trilha em direção a recursos considerados valiosos.

Em 2018, o professor de psicologia Michael Inzlicht, da Universidade de Toronto (Canadá), trouxe à tona, pela primeira vez, o termo paradoxo do esforço.

“Às vezes, esforço é a razão pela qual as pessoas fazem algo, por exemplo, escalar uma montanha, correr uma maratona, completar um quebra-cabeça. Se não fosse desafiador, a maioria das pessoas não engajaria”, escreveu Inzlicht à Folha.

O esforço amplia a ativação do sistema nervoso simpático, responsável pelas reações de luta ou fuga. Como consequência, há aumento da pressão sanguínea, ventilação, suor e dilatação das pupilas. Surgem sentimentos como ansiedade, estresse, fadiga e frustração.

Por outro lado, até a publicação do artigo na Nature havia muito pouco sobre atividade cerebral que justificasse o outro lado do paradoxo, diz o professor Neir Eshel, da Escola de Medicina de Stanford, primeiro autor do estudo.

Ele diz que a sensação de maior recompensa após esforço pode ser explicada a partir de uma perspectiva evolucionista, já que a oferta de recompensas no geral tende a ser difícil e escassa.

“Ao dar um impulso ao valor de recompensas conquistadas com esforço, talvez o sistema tenha promovido a continuidade do empenho. Às vezes, todos nós precisamos de ajuda para cruzar a linha de chegada”, afirma o docente.

O açúcar mais satisfatório

Para entender o outro lado do paradoxo, os pesquisadores fizeram com que camundongos aprendessem que, se encostassem o focinho em um buraco, receberiam uma recompensa, no caso sacarose. Depois, o sistema exigia que ele encostasse o nariz no buraco mais vezes para receber o mesmo açúcar.

Os pesquisadores observaram que houve maior liberação de dopamina quando o esforço era maior. Eles verificaram também que a liberação da dopamina ocorria durante entrega e consumo da recompensa, não durante a atividade.

Com o intuito de descobrir os mecanismos por trás do aumento da dopamina, os autores se valeram de fármacos, eletrofisiologia e optogenética. A última se trata de uma técnica de ponta em que animais são modificados geneticamente para que suas atividades cerebrais possam ser manipuladas por meio da luz. Assim, foi possível inibir ou ativar determinadas áreas do sistema nervoso e ver qual era o resultado disso.

Segundo Márcia Renata Mortari, do Departamento de Ciências Fisiológicas da UnB (Universidade de Brasília), o artigo é robusto e lança luz sobre a importância de se esforçar para conseguir algo.

A professora Cristiane Ribeiro de Carvalho, do programa de Pós-Graduação em Neurociências da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), acrescenta que o estudo está na fronteira do conhecimento científico, por usar a optogenética e múltiplos métodos, além de ser capaz de observar o efeito em animais não humanos. Isso é desafiador tendo em vista que a comunicação se torna mais limitada.

Mas o prazer advindo da recompensa do esforço tem um limite, em especial quando ultrapassa a tolerância do indivíduo ao desconforto e à fadiga.

“Em geral, tarefas que exigem esforço são cansativas e normalmente não podem ser mantidas indefinidamente. Isso sugere que há retornos decrescentes na satisfação derivada do esforço”, diz o professor Michael Inzlicht.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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