Quando o tema é saúde mental, é preciso tratar os sintomas e os estigmas

Quando o tema é saúde mental, é preciso tratar os sintomas e os estigmas

A dor psicológica, o trauma e o peso invisível do sofrimento mental não deveriam ser enfrentados às escondidas, mas sim ser uma preocupação de todos. É o que defende o psiquiatra Renato Oliveira e Souza, chefe da área de Saúde Mental e Abuso de Substância da Organização Pan-Americana da Saúde, Opas. 

O médico brasileiro revela que para milhões de pessoas, a maior barreira não é a falta de tratamentos, mas o estigma que desgasta a esperança de tratamento antes mesmo de o cuidado começar.

Piorando o problema da saúde mental

Nesta entrevista à ONU News, Renato Oliveira e Souza declara que o estigma age como um veneno silencioso.

“Ele faz com que as pessoas tenham vergonha ou medo de procurar cuidados, de ter acesso a centros de saúde que possam ajudar. E o estigma também acaba piorando o problema da saúde mental, porque a pessoa se sente culpada ou não tem a possibilidade de dividir o que está passando com outras pessoas. A gente tem algumas experiências muito interessantes de trabalhar contra o estigma, de combater o estigma.”

© Unicef/Niccolò Corti
OMS defende que todas as pessoas possam receber cuidados

O especialista da Opas revelou que a dor deixa de ser apenas uma condição humana para se tornar um fardo solitário, agravado pela impossibilidade de compartilhar o que se sente.

Combater essa barreira exige coragem institucional e transformação social. A Opas lidera iniciativas como capacitações gratuitas em seu Campus Virtual de Saúde Pública preparando profissionais de saúde no enfrentamento ativo do estigma.

Participação ativa da sociedade

Oliveira e Sousa disse à ONU News que ONU News que a verdadeira cura acontece na convivência. 

O psiquiatra e especialista da Opas indica iniciativas transformadoras que já demonstraram o poder de mostrar pessoas com condições de saúde mental levando vidas plenas e criando arte, trabalhando, comunicando-se e participando ativamente da sociedade.

“Porque quando a gente aumenta a exposição e a informação adequada em relação aos problemas de saúde mental, isso tem um efeito de baixar o estigma. A gente teve uma campanha muito interessante alguns anos atrás, em que a gente gravou alguns vídeos mostrando pessoas com problemas de saúde mental levando uma vida normal, fazendo coisas artísticas, se comunicando, participando em coisas recreativas. Porque é esse convívio de pessoas com problemas de saúde mental, na normalidade da vida cotidiana, que a gente sabe que vai gradualmente reduzir o estigma e diminuir essa barreira que, como você bem disse, é um problema, talvez um problema maior, para que as pessoas possam receber cuidados.”

Cuidado acessível e humanizado

Para o médico, centralizar a saúde mental significa dar voz a quem sente a dor na pele, garantindo que o cuidado seja acessível, humanizado e sem juízo de valor.

A Organização Mundial da Saúde, OMS, aponta que o estigma associado à saúde mental também amplifica o sofrimento individual e perpetua a desigualdade social.

© Unicef/Rawan Eleyan
Oliveira e Sousa disse à ONU News que ONU News que a verdadeira cura acontece na convivência

Quando se instalam, o preconceito e a desinformação tornam-se discriminação direta, seja pela rejeição interpessoal no cotidiano, seja por políticas públicas e leis que negligenciam o financiamento e a dignidade dos serviços de saúde mental.

O impacto é ainda mais destrutivo quando esse estigma é internalizado: a pessoa passa a acreditar nos próprios rótulos negativos, alimentando a “síndrome do por que tentar”.

A perda de autoestima paralisa ambições legítimas, como a procura de emprego ou o acesso ao ensino superior, isolando a pessoa e privando-a das oportunidades e do apoio necessários para a sua plena recuperação e bem-estar.

* Eleutério Guevane é jornalista-sênior da ONU News.

 



Fonte ==> Gazeta

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