Em palestra na FAPESP Week Países Baixos, pesquisador destaca o uso de variáveis bioquímicas para calibrar o descanso de competidores e direcionar jovens talentos, com foco nas Paralimpíadas de 2028 e 2032
Elton Alisson, de Leiden (Países Baixos) | Agência FAPESP – Durante um ciclo competitivo, um atleta paralímpico tem 20 vezes mais chance de contrair uma infecção e 11 vezes mais risco de ser hospitalizado por essas complicações do que um atleta olímpico. Além disso, 30% dos competidores paralímpicos sofrem com infecções no trato respiratório superior – área que compreende nariz, boca e garganta –, contra apenas 2% dos olímpicos. Já entre os cadeirantes, até 30% enfrentam infecções urinárias recorrentes.
Para mitigar essa fragilidade imunológica e proteger a saúde dos competidores, pesquisadores vinculados ao Centro Multiprofissional de Estudos Paralímpicos e Paradesportivos (CMEPP) – um Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) financiado pela FAPESP – estão investigando como a resposta imunológica (a defesa do organismo) é alterada em cada modalidade esportiva e em cada tipo de deficiência, a exemplo de lesões medulares ou comprometimentos visuais e intelectuais.
O objetivo principal da equipe é substituir o controle tradicional de treino, baseado na percepção subjetiva de esforço relatada pelo esportista, por biomarcadores fisiológicos e metabólicos objetivos – indicadores biológicos mensuráveis analisados no sangue e na saliva –, detalhou José César Rosa Neto, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e coordenador do CMEPP, em palestra ministrada durante a FAPESP Week Países Baixos.
“Como muitos atletas subestimam a exaustão muscular e correm o risco de sofrer lesões graves ou episódios severos de imunossupressão [queda temporária das defesas imunológicas do corpo], a análise contínua de amostras de sangue e saliva permitirá às comissões técnicas calibrar com precisão as cargas e os períodos de descanso de cada atleta”, explicou Rosa Neto à Agência FAPESP.
Regas Woods, atleta paralímpico dos EUA, no salto em distância (foto: Shutterstock, Rio de Janeiro, 2016)
Ao mapear essas variáveis bioquímicas em colaboração direta com o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), os cientistas pretendem fornecer informações precisas aos treinadores sobre o momento exato de intensificar as cargas de exercícios ou conceder repouso, prevenindo lesões e novos episódios severos de queda imunológica.
“Há atleta que subestima o esforço: o músculo está exausto, mas ele diz que está bem – e corre o risco de se lesionar. E há o atleta que relata muito cansaço, mas a parte muscular está ótima e daria para forçar mais”, disse Rosa Neto.
Futuras gerações
Paralelamente ao estudo focado no alto rendimento, a frente de formação do centro atua na capacitação de profissionais e no acompanhamento de crianças e adolescentes nos quatro estágios da Escolinha Paralímpica do CPB. O pesquisador explicou que a equipe utilizará kits hormonais salivares – exames não invasivos realizados por meio de amostras de saliva – para avaliar a maturação biológica dos jovens (o ritmo individual de desenvolvimento do corpo durante a puberdade) e direcioná-los com precisão científica para modalidades de força ou aeróbicas, evitando o abandono prematuro de talentos.
Outra linha de pesquisa do novo centro investiga o uso de exergames – jogos eletrônicos interativos que exigem movimento e esforço físico do jogador para a progressão na partida – no treinamento doméstico de jovens atletas, superando barreiras urbanas de acessibilidade e transporte.
A integração dessas frentes visa garantir a segurança imunológica dos competidores e impulsionar o desempenho do Brasil rumo aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Los Angeles 2028 e Brisbane 2032.
“A ideia é auxiliar na tomada de decisão de qual modalidade é mais adequada para um determinado atleta, ajudando na formação das novas gerações para chegarmos ainda mais fortes nos Jogos Paralímpicos de 2028 e 2032”, relatou o professor.

José César Rosa Neto (ICB-USP) (foto: Elton Alisson/Agência FAPESP)
Gestão eficiente
O Brasil consolidou-se como uma potência paralímpica mundial, alcançando a 5ª colocação geral nos últimos Jogos Paralímpicos, realizados em 2024 na cidade de Paris, na França. Segundo Rosa Neto, o diferencial do país reside na estrutura de gestão financeira e administrativa do CPB. Ao contrário do modelo olímpico, o CPB centraliza a gestão e a aplicação direta de verbas nas modalidades de maior densidade de medalhas – como atletismo, natação e bocha –, garantindo controle e eficiência nos investimentos públicos e privados.
Com o suporte da ciência e o refinamento do controle de carga por biomarcadores, o planejamento brasileiro já mira os próximos ciclos esportivos globais.
“Para 2028, a meta interna é aumentar o número total de medalhas e se consolidar entre os cinco primeiros colocados. Já para 2032, em Brisbane, o objetivo é se aproximar dos Estados Unidos e disputar a segunda colocação geral”, contou Rosa Neto.
Adaptação de smartwatches
Além das iniciativas com atletas paralímpicos, outro projeto previsto para ser desenvolvido no âmbito do CCD é adaptar os algoritmos dos relógios inteligentes (smartwatches) às necessidades específicas de pessoas com deficiência, ajustando, por exemplo, a medição do gasto calórico diário para cadeirantes.
“Os algoritmos convencionais de contagem de passos e gasto calórico foram desenhados para pessoas sem deficiência e falham em mensurar o esforço de cadeirantes”, explicou Rosa Neto.
Mais informações sobre a FAPESP Week Países Baixos em: fapesp.br/week/2026/netherlands.
Fonte ==> Folha SP