Os dinossauros atingiram proporções gigantescas. Alguns dos herbívoros de pescoço longo foram os maiores animais terrestres que já existiram, a exemplo do Argentinosaurus, com um peso de 70 a 90 toneladas e mais de 30 metros de comprimento. Mas e os dinossauros minúsculos? Até onde sabemos, eles nunca existiram.
Uma nova pesquisa, publicada nesta quarta-feira (5) no periódico Evolution, investiga por quê. Cientistas empregaram modelos matemáticos para explorar a evolução do tamanho corporal em diferentes grupos de vertebrados. Eles concluíram que a energética e a fisiologia podem explicar o tamanho de mamíferos, aves voadoras e tartarugas, mas esses fatores não conseguem explicar a ausência de dinossauros pequenos, à exceção, é claro, de seus descendentes avianos.
Para os autores do estudo, outras dinâmicas estavam em jogo. Eles levantaram a hipótese de que, como os primeiros mamíferos já ocupavam com eficiência os nichos ecológicos destinados a pequenos animais, sua presença impediu que os dinossauros evoluíssem para tamanhos corporais minúsculos adaptados a esses nichos.
“Sabemos, com base em observações de animais vivos e no registro fóssil, que a maioria dos grupos animais possui integrantes que atingem tamanhos corporais muito pequenos e que esses pequenos animais geralmente dominam seus ecossistemas”, disse a paleontóloga Stephanie Lechki, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Princeton, em Nova Jersey, e uma das autoras do novo estudo.
“Um animal pequeno normalmente necessita de menos recursos e pode atingir a maturidade reprodutiva e se reproduzir mais rapidamente do que um animal de grande porte”, afirmou Lechki.
Entre os menores dinossauros estavam o Microraptor, do tamanho de um corvo e com 430 gramas; o Fruitadens, com 730 gramas; e o Anchiornis, com 530 gramas. Ainda assim, eles eram muito maiores do que a menor ave atual, o beija-flor-abelha (1,75 grama); o menor mamífero, o musaranho-pigmeu (1,8 grama); e o menor lagarto, a lagartixa-anã (0,15 grama).
“A maioria das espécies vivas é pequena, muito menor do que nós e menor até mesmo do que os menores dinossauros”, disse o paleontólogo Roger Benson, coautor do estudo e curador de paleobiologia de dinossauros do Museu Americano de História Natural, em Nova York.
Isso inclui aproximadamente 90% das espécies de aves existentes e 75% das espécies de mamíferos.
“Pense em roedores, musaranhos, morcegos, aves canoras, na maioria dos lagartos, em sapos… são tantas espécies pequenas. Isso sugere que há muito mais nichos disponíveis para espécies de pequeno porte. A ausência de dinossauros minúsculos significa que todos esses nichos estavam fechados para eles”, afirmou Benson.
Os dinossauros surgiram há cerca de 230 milhões de anos e se tornaram os animais terrestres dominantes. Eles mantiveram esse status até que um asteroide atingiu a Terra, há 66 milhões de anos, causando uma extinção em massa de espécies.
Durante a Era dos Dinossauros, os mamíferos prosperaram em nichos ecológicos ideais para animais de pequeno porte, como os que se alimentavam de insetos e sementes.
“É provável que os primeiros mamíferos de pequeno porte tenham superado os dinossauros na competição, impedindo-os de desenvolver tamanhos corporais menores. Da mesma forma, os grandes dinossauros provavelmente superaram os primeiros mamíferos na competição, impedindo-os de desenvolver tamanhos corporais maiores”, disse Lechki.
Foi somente após o impacto do meteorito que os mamíferos passaram a atingir portes maiores e se expandiram para nichos ecológicos antes ocupados por dinossauros, como os grandes herbívoros e os predadores de topo da cadeia alimentar.
Outra possível explicação para a falta de evidências de dinossauros minúsculos é que seus fósseis ainda não tenham sido encontrados. Mas, para os pesquisadores, isso parece improvável porque depósitos fossilíferos com restos de dinossauros também costumam preservar restos de numerosos animais pequenos.
Modelos matemáticos
Os modelos matemáticos preveem como as forças evolutivas determinaram o tamanho corporal com base na fisiologia da obtenção de energia por um animal a partir dos recursos do ecossistema e na velocidade com que o animal converte essa energia em descendentes. Segundo Benson, as forças evolutivas favorecem os tamanhos corporais nos quais a taxa de energia investida na prole é máxima.
Os dinossauros contrariaram os modelos, embora as aves —que evoluíram de pequenos dinossauros emplumados e surgiram há cerca de 150 milhões de anos— tenham se enquadrado neles, com exceção das aves não voadoras. Serpentes e crocodilianos também se desviaram dos modelos matemáticos.
Os dinossauros que deram origem às aves pertenciam a uma linhagem chamada terópodes, da qual também faziam parte gigantes como o Tyrannosaurus rex —que, estima-se, chegaria a 12 metros de comprimento e 8 toneladas. Algumas aves não voadoras atingiram grandes dimensões. Por exemplo, as aves-elefante, que habitaram Madagascar até cerca de mil anos atrás, pesavam mais de meia tonelada.
“As aves desenvolveram a maior parte de suas adaptações ao voo há cerca de 130 milhões de anos e imediatamente se tornaram pequenas”, disse Benson. “Acreditamos que o voo pode ter permitido às aves escapar da competição ecológica e passar a ocupar nichos associados a tamanhos corporais diminutos. Em última análise, isso explica a extraordinária biodiversidade das aves atuais, que somam mais de 12 mil espécies.”
Fonte ==> Folha SP – TEC