Por que alguns aeroportos regionais continuam deficitários mesmo após receber investimentos?

Mariana Soares

Embora os investimentos em aeroportos regionais tenham se intensificado nos últimos anos, muitas dessas operações continuam apresentando dificuldades para alcançar equilíbrio financeiro. A aparente contradição levanta uma questão importante: por que a modernização da infraestrutura nem sempre resulta em aeroportos mais sustentáveis economicamente?

Para Mariana Soares, fundadora e CEO da Auter Airports, a resposta está menos na quantidade de recursos investidos e mais na forma como esses ativos passam a ser administrados após a concessão.

Infraestrutura resolve parte do problema

A recuperação de pistas, a ampliação de terminais e a aquisição de novos equipamentos representam etapas importantes para qualquer aeroporto. No entanto, segundo Mariana, infraestrutura é apenas uma condição necessária, não uma garantia de melhores resultados.

“Muitas concessões recebem investimentos relevantes, mas continuam tomando decisões sem conseguir enxergar toda a operação. Quando isso acontece, o retorno esperado dificilmente aparece”, afirma.

De acordo com a especialista, grande parte dos desafios financeiros surge porque a gestão precisa administrar ativos cuja operação nunca foi estruturada a partir de informações organizadas e confiáveis.

O custo daquilo que não é visível

Na avaliação de Mariana Soares, os déficits de muitos aeroportos regionais não decorrem apenas da demanda reduzida ou das características do mercado local.

Há uma série de pequenas ineficiências operacionais que permanecem invisíveis durante anos: processos fragmentados, informações dispersas, dificuldades para identificar oportunidades de receita e decisões tomadas com base em percepções parciais da operação.

“Nem sempre o maior risco está na operação em si, mas naquilo que a gestão ainda não consegue enxergar antes que o problema apareça nos resultados financeiros”, explica.

Esses fatores, embora pouco perceptíveis individualmente, acabam reduzindo a eficiência operacional e comprometendo o retorno sobre o investimento ao longo da concessão.

Monitorar é diferente de enxergar

Um dos conceitos defendidos por Mariana é a diferença entre monitorar e enxergar uma operação aeroportuária.

Segundo ela, monitorar significa acompanhar eventos isolados produzidos por diferentes sistemas, enquanto enxergar significa compreender toda a operação de forma integrada para apoiar decisões estratégicas.

“O setor passou muitos anos confundindo monitoramento com visibilidade operacional. São coisas diferentes. Informação isolada não necessariamente gera uma decisão melhor.”

Para a especialista, essa distinção é ainda mais importante em aeroportos regionais, onde os recursos são limitados e cada decisão de investimento possui impacto significativo sobre a sustentabilidade da concessão.

Receitas não tarifárias exigem informação

Outro ponto destacado por Mariana é que a sustentabilidade financeira dos aeroportos depende cada vez mais da capacidade de desenvolver receitas além das tarifas aeroportuárias.

Áreas comerciais, estacionamentos, publicidade, operações de carga e novos serviços podem representar fontes importantes de receita. Entretanto, identificar quais oportunidades possuem maior potencial depende de uma compreensão profunda da utilização dos ativos.

“Sem visibilidade operacional, muitas decisões acabam direcionando investimentos para áreas de baixo retorno, enquanto oportunidades importantes permanecem invisíveis.”

O dado também é um ativo da concessão

Para Mariana Soares, um aeroporto não é composto apenas por pistas, terminais e equipamentos.

Ela defende que os dados produzidos ao longo da operação também fazem parte do patrimônio da concessão e influenciam diretamente sua capacidade de gerar resultados no futuro.

“Dados estruturados desde o início da concessão se transformam em um ativo que valoriza com o tempo. Quando essa estrutura não existe, a gestão passa anos pagando o custo dessa ausência”, afirma.

Gestão será o diferencial das próximas concessões

À medida que novas concessões aeroportuárias avançam pelo país, Mariana acredita que a discussão deixará de estar concentrada apenas no volume de investimentos.

Na avaliação da especialista, o verdadeiro diferencial competitivo estará na capacidade de transformar informações operacionais em decisões mais eficientes, reduzindo desperdícios, ampliando receitas e aumentando o retorno sobre o capital investido.

“Infraestrutura continuará sendo essencial. Mas, para que uma concessão seja realmente sustentável, é preciso enxergar a operação como um todo. É essa visibilidade que permite tomar melhores decisões e construir valor ao longo do tempo”, conclui.

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