Pombo tem ‘bússola’ para usar campo magnético da Terra – 03/06/2026 – Ciência

Mão humana solta pombo cinza com asas abertas em frente a folhagem densa e verde. Pessoa usa pulseira preta com texto branco.

Cientistas chegaram a uma resposta surpreendente para um dos grandes mistérios da biologia: como aves e outros animais utilizam o campo magnético da Terra para ajudá-los a navegar com precisão por milhares de quilômetros.

Uma equipe da Universidade de Bonn e do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, na Alemanha, descobriu que pombos possuem células imunológicas ricas em ferro no fígado que detectam o geomagnetismo. O estudo foi publicado no último dia 28 na revista Science.

Décadas de experimentos demonstraram que muitas espécies migratórias e com capacidade de retorno ao lar dependem de uma bússola magnética interna para orientação, além de utilizarem o Sol, as estrelas, pontos de referência visuais e até mesmo odores.

Porém, há muita incerteza sobre a natureza e a posição da bússola das aves. Cientistas já produziram evidências que apoiam a hipótese de envolvimento de várias células magneticamente sensíveis nos olhos, ouvidos internos e bicos, com pouco consenso sobre quais delas de fato são utilizadas.

Os candidatos mais recentes são os macrófagos —células imunológicas do fígado que acumulam ferro ao decompor glóbulos vermelhos velhos. Elas são muito sensíveis a pequenas mudanças no campo magnético externo.

“É empolgante termos encontrado uma base física para o que parece ser um ‘instinto’ na navegação das aves”, disse Martin Wikelski, diretor do Instituto Max Planck de Comportamento Animal.

As conclusões foram baseadas em testes de laboratório e experimentos comportamentais.

Primeiro, os pesquisadores examinaram os corpos dos pombos para encontrar os órgãos que apresentavam a resposta magnética mais forte e descobriram que o fígado se destacava. Depois, identificaram os macrófagos como as células responsáveis. Essas células incorporam uma proteína rica em ferro chamada ferritina, que atua como um nano-ímã extremamente sensível.

Em seguida, a equipe conduziu experimentos com pombos. Quando receberam uma droga (clodronato) que remove os macrófagos do fígado, o rastreamento mostrou que as aves perderam o senso de direção e voaram em direções aleatórias em dias nublados. Já em dias sem nuvens, elas navegaram com sucesso, usando o Sol como referência.

Uma análise microscópica revelou que as fibras nervosas no fígado passam próximas aos macrófagos, sugerindo como os sinais magnéticos poderiam chegar ao cérebro.

Clivia Lisowski, que liderou o trabalho imunológico da equipe, afirmou que “essas descobertas fornecem a primeira evidência concreta de como o campo magnético da Terra pode ser percebido dentro do corpo e transmitido ao cérebro para orientar o movimento”.

A professora de química Christiane Timmel lidera um grande projeto interdisciplinar na Universidade de Oxford para investigar uma hipótese diferente, fundamentada na física quântica.

Uma proteína no olho chamada criptocromo responde à luz criando radicais livres —moléculas de vida curta com elétrons giratórios não pareados. Esses radicais respondem à intensidade e direção do campo magnético com reações captadas pelos nervos da retina. “De certa forma, o animal veria o campo magnético”, disse ela.

Em um comentário publicado na Science sobre o estudo da equipe alemã, os cientistas Simon Spiro, do Zoológico de Londres, e Hal Drakesmith, da Universidade de Oxford, que não participaram da pesquisa, sugeriram que na orientação magnética “múltiplos processos complementares podem estar em jogo, dependendo da circunstância. Talvez um processo predomine para navegação de longa distância, enquanto outro seja usado para localização mais específica de destinos”.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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