Equipamento instalado em São Paulo e Porto Alegre monitora cérebro, olhar e respostas fisiológicas de crianças durante tarefas do cotidiano. Projeto é conduzido pelo Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental
Agência FAPESP * – O que acontece no corpo e no cérebro de uma criança no exato instante em que ela realiza uma tarefa do dia a dia? Para responder a essa pergunta e antecipar o diagnóstico de transtornos mentais, pesquisadores brasileiros contam agora com o suporte do Multimodal Brain/Body Imaging Laboratory (MoBILab). Trata-se de uma plataforma tecnológica avançada que integra e sincroniza, em tempo real, dados de atividade cerebral, movimentos oculares e respostas fisiológicas. A tecnologia está sendo aplicada no projeto Conexão Mentes do Futuro, também conhecido como Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC, na sigla em inglês), um dos maiores estudos do mundo sobre o desenvolvimento cerebral.
Liderado por integrantes do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), o Conexão Mentes do Futuro acompanha, há mais de uma década e meia, 2.500 jovens nas cidades de São Paulo (SP) e Porto Alegre (RS). O objetivo é investigar as origens genéticas e ambientais dos transtornos mentais.
O MoBILab, que já foi instalado no Hospital das Clínicas de São Paulo e no Centro de Pesquisa Clínica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, permite monitorar, por exemplo, padrões respiratórios, movimentos corporais, fala, expressões faciais, além de aspectos motores e cognitivos. A integração dessas medidas em um ambiente multimodal abre novas possibilidades para compreender o desenvolvimento cerebral e os fatores associados à saúde mental ao longo da vida.
A plataforma conta com um capacete de eletroencefalografia (EEG) e óculos que conseguem registrar movimentos e direcionamento do olhar (eye tracking). No dia a dia, os participantes do projeto ainda usarão uma pulseira que monitora sinais fisiológicos.
Essas tecnologias permitem investigar o funcionamento do corpo e do cérebro durante a realização de tarefas cotidianas necessárias para o desenvolvimento motor e acadêmico típico. A plataforma possibilita ainda que esse funcionamento seja avaliado durante a exposição a situações que hoje são muito comuns, como assistir a vídeos no YouTube ou interagir com aplicativos, integrando medidas fisiológicas corporais e neurológicas.
Durante o protocolo da coleta, que dura cerca de uma hora e meia, os indivíduos são monitorados enquanto realizam algumas tarefas que podem ativar diferentes áreas do cérebro, como desenhar tracejados com ambas as mãos, completar sequências alfabéticas e numéricas e, ainda, assistir a vídeos de animação e conteúdos diversos na tela do computador, bem como reproduzir sons em um microfone.
Segundo os pesquisadores do CISM, o diferencial estratégico da implementação do MoBILab no projeto é a criação de uma ponte intergeracional. Atualmente, os pesquisadores da Coorte Brasileira de Alto Risco vêm acompanhando três gerações: os participantes do estudo, seus pais e, agora, seus filhos. “A atual base de dados já consolida mais de uma década de um histórico de avaliações clínicas detalhadas dos participantes do projeto. Agora, essa tecnologia multimodal será aplicada aos filhos deles”, destaca André Simioni, pesquisador do CISM, que realizou um treinamento de operação da plataforma em Nova York, na sede do Child Mind Institute, organização global sem fins lucrativos parceira do centro brasileiro.
“Essa integração nos permite cruzar as trajetórias de vida e os diagnósticos dos pais com as assinaturas biológicas – eletroencefalograma, rastreio ocular e biossinais – dos seus descendentes. Deixamos de depender apenas de autorrelatos ou relatos parentais para observar diretamente como o risco e a resiliência se manifestam fisiologicamente”, acrescenta. “Esperamos transformar esses dados complexos em conhecimentos que possam antecipar diagnósticos e personalizar intervenções precoces para as próximas gerações.”
O equipamento foi trazido ao país por meio de uma parceria do CISM com o Child Mind Institute (CMI), com investimento de R$ 1,5 milhão aportado pela FAPESP e pela Stavros Niarchos Foundation (SNF) Global Center do CMI.
A plataforma também será integrada a um núcleo de pesquisa do CISM, lançado este ano e voltado ao avanço da saúde mental de crianças, adolescentes e jovens adultos. A iniciativa, chamada de Módulo IV, é resultado de um investimento de R$ 22,8 milhões da FAPESP e da Stavros Niarchos Foundation. O núcleo de pesquisa será dedicado ao avanço da ciência de dados, da neurociência, da epidemiologia de base populacional e da assistência à saúde mental de crianças, adolescentes e jovens adultos no Brasil (leia mais em: cism.org.br/expansao-cism-lanca-novo-modulo-de-pesquisa-dedicado-a-transformar-a-saude-mental-de-criancas-e-jovens-no-brasil/).
O CISM é um Centro de Pesquisa Aplicada (CPA) da FAPESP sediado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). A equipe conta com pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ) e do Centro Universitário Max Planck (UniMAX – Indaiatuba).
* Com informações de Mainary Nascimento, do CISM.
Fonte ==> Folha SP