Mídia Ciência
Pesquisa aprimora uso de enxertos para combater doença que afeta a citricultura
Estudo realizado no Departamento de Química da UFSCar avança em estratégia de manejo da gomose
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Pesquisa aprimora uso de enxertos para combater doença que afeta a citricultura
Estudo realizado no Departamento de Química da UFSCar avança em estratégia de manejo da gomose
Os primeiros sinais da gomose ocorrem na base da planta, com manchas escuras e úmidas. Em seguida, a casca apodrece e forma lesões que liberam goma (imagem: Antonio Neto)
Antonio Neto | Agência FAPESP * – Uma nova pesquisa demonstrou que o uso da enxertia, técnica que combina partes de duas plantas em um único indivíduo, pode facilitar o combate à gomose – doença que compromete a produção de citros no país. A infecção causada pelo patógeno Phytophthora citrophthora pode atingir raízes, tronco e frutos, levando à queda de produtividade e à perda de valor comercial das frutas.
A enxertia permite unir a copa de uma variedade produtiva, como a laranja-pera, ao sistema radicular de outra planta, o porta-enxerto, selecionado por sua maior tolerância a estresses diversos. No estudo, diferentes combinações entre enxerto e porta-enxerto foram submetidas à inoculação e reinoculação com o patógeno, permitindo observar como as plantas reagem após um primeiro contato com a doença.
O trabalho, desenvolvido por cientistas do Laboratório de Produtos Naturais do Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (LPN-DQ-UFSCar), em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) no Estado da Bahia, foi liderado pela professora do Centro de Ciências Exatas e de Tecnologia (CCET-UFSCar) Maria Fátima das Graças Fernandes da Silva.
“A ideia central não foi desenvolver uma nova técnica de enxertia, mas identificar quais sistemas de enxerto/porta enxerto apresentam respostas de defesa mais eficientes e compreender os mecanismos bioquímicos envolvidos”, explica Felipe Hilário, pesquisador de pós-doutorado no DQ-UFSCar.
Os resultados, descritos em artigo publicado no Journal of Agricultural and Food Chemistry, mostram que a combinação entre enxerto e porta-enxerto altera significativamente a resposta da planta à doença.
‘Lembrança’ defensiva
Em pares como laranja-pera sobre limão-cravo ou limão-tahiti sobre tangerina sunki-tropical, as plantas que passaram por uma segunda infecção apresentaram lesões menores no caule, sinal de uma resposta imune mais eficiente.
Esse comportamento veio acompanhado de alterações em nível molecular, especialmente em padrões de metilação do DNA. A metilação consiste na adição de uma molécula química (o grupo metil) na chamada região promotora do gene, que funciona como o “botão de ligar”.
Os resultados indicam que experiências de estresse podem deixar uma espécie de “memória” nas plantas. Não alteram o DNA em si, mas influenciam como os genes vão funcionar. Esse ajuste fino de operação – em que fatores externos modificam a atividade genética sem reescrever o código original – é o foco de estudo da epigenética.
Entre as respostas observadas estão alterações no metabolismo e maior produção de compostos naturalmente associados à proteção vegetal. “Foram identificados níveis aumentados de cumarinas, flavonoides e alcaloides [substâncias naturais associadas à resposta da planta contra patógenos]”, diz Silva. O acúmulo dessas substâncias nos tecidos da planta é uma reação à presença do microrganismo invasor.
“Esse comportamento está relacionado a um fenômeno conhecido como memória de defesa, ou priming. Nesse processo, a primeira exposição ao patógeno causa danos, mas, além disso, ‘prepara’ a planta para responder melhor em um novo ataque. É como se, diante de uma segunda infecção, ela já estivesse em estado de alerta, reagindo de forma mais rápida e eficiente. Ou seja, é o momento em que a planta ´lembra’ da doença e consegue se defender de forma mais eficiente”, detalha Hilário.
Trabalho em equipe
No entanto, a resposta não depende apenas da resistência individual de cada planta. O estudo mostra que a interação entre enxerto e porta-enxerto tem papel determinante. Ou seja, não é apenas a força de cada parte que importa, mas como elas funcionam em conjunto.
Análise metabolômica identificou 66 compostos químicos cuja distribuição variou conforme as combinações de porta-enxerto testadas e os padrões de inoculação aplicados. Metabolômica é o “ponto final” de uma cascata biológica que envolve a genética, a transcriptômica e a proteômica, servindo como uma impressão digital das respostas de um organismo ao ambiente.
A pesquisa recebeu apoio da FAPESP por meio dos projetos 24/01375-2 e 14/50918-7.
O artigo Metabolomic profiling of citrus grafts challenged by Phytophthora citrophthora: using the same samples previously analyzed for epigenetic responses pode ser lido em: pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.jafc.5c07224.
* Antonio Neto é bolsista de Jornalismo Científico da FAPESP vinculado ao LPN-DQ-UFSCar.
Fonte ==> Folha SP