Tem bico de pato, cauda de castor, patas de lontra… e agora depósitos de melanina normalmente exclusivos das aves. O ornitorrinco não para de surpreender os cientistas.
O pequeno animal, endêmico da costa leste da Austrália e da Tasmânia, é um dos cinco representantes no mundo da ordem dos monotremados, únicos mamíferos que põem ovos. Os outros quatro são espécies de equidnas.
Também é um dos poucos mamíferos venenosos. O macho carrega nas patas traseiras uma espécie de esporão capaz de inocular veneno.
Essa lista de características raras ganhou mais um item, segundo um estudo publicado na última quarta-feira (18) na revista Biology Letters.
Nos vertebrados, a melanina protege contra os raios ultravioleta, contribui para a regulação térmica e é responsável pela cor da pele, do pelo e das penas.
Ela fica em pequenas estruturas dentro das células chamadas melanossomos, cuja forma está muito relacionada com a cor.
A eumelanina, que dá tonalidades pretas, cinzas e marrons escuras, é encontrada geralmente em melanossomos alongados. A feomelanina, que gera cores ruivas, vermelhas e certos tons alaranjados/amarelos, está contida em melanossomos esféricos.
Nos mamíferos, esses melanossomos estão sempre cheios.
Nas aves é diferente: alguns melanossomos alongados podem ser ocos ou planos, revestidos apenas por uma fina camada de melanina, o que melhora sua capacidade de produzir diferentes gamas de cores. Dispostos em nanoestruturas, às vezes produzem cores iridescentes que interagem com a luz, como nas penas do pavão.
Ao elaborarem um banco de dados sobre esses melanossomos nos mamíferos, os pesquisadores fizeram uma descoberta “extremamente surpreendente e emocionante”, segundo a bióloga Jessica Leigh Dobson, da Universidade de Gante (Bélgica), principal autora do estudo.
Os melanossomos do ornitorrinco são em sua maioria esféricos, o que logicamente deveria dar ao animal uma pelagem ruiva ou alaranjada. Mas o bicho é marrom-escuro.
E, o mais surpreendente, alguns de seus melanossomos são ocos, como os das aves.
“Analisamos muitos outros mamíferos, como equidnas, marsupiais, roedores, e primatas. E, até onde sabemos, é o único exemplo de melanossomos ocos em mamíferos”, diz Dobson.
Os melanossomos estão dispersos de forma aleatória no córtex do pelo e não produzem nenhuma iridescência, acrescenta a cientista. “Sem dúvida são necessárias mais pesquisas para compreender a razão de sua presença.”
A origem dessas estruturas é desconhecida.
Os ancestrais do ornitorrinco e das equidnas foram provavelmente animais aquáticos escavadores, e os melanossomos ocos poderiam ser uma adaptação a um modo de vida aquático, já que melhoram o isolamento térmico.
“Dado que as equidnas modernas são hoje terrestres, essa transição poderia ter provocado a perda dos melanossomos ocos nelas, enquanto teriam sido conservados no ornitorrinco, que continua sendo semiaquático”, propõe Dobson.
Fonte ==> Folha SP – TEC